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Sim, a diversidade sexual pode ser revolucionária

Roberto Jara

Sim, a diversidade sexual pode ser revolucionária

Roberto Jara

Na primeira parte deste artigo, revisamos as lutas pela transformação radical da sociedade que os movimentos de libertação sexual desenvolveram na década de 1970. Nesta segunda parte, veremos sua continuação nos últimos 35 anos para pensar hoje como se apropriar dessas experiências para revolucionar a luta pela diversidade sexual.

As experiências de luta pela diversidade sexual na década de 70 estavam entre a repressão, a difamação da mídia e, em alguns casos, a ilegalidade, mas também desafiando a lógica da burocracia sindical, assim como de grandes setores da diversidade sexual de que essas alianças "não têm nada a ver com a nossa luta".

A luta e a mobilização permitiram avanços, como a legalidade, o fim de leis discriminatórias ou da patologização da diversidade sexual, embora apenas em alguns países. Junto com a restauração neoliberal na década de 80, os ataques contra as massas impondo alta taxa de desemprego, precarização e flexibilidade laboral, foram acompanhados pelo estabelecimento, principalmente na Europa e nos Estados Unidos de alguns direitos básicos, promovendo a inclusão de pessoas que antes haviam sido excluídas dentro dos próprios regimes democráticos capitalistas, o que se traduziu em maior institucionalização, cooptação, fragmentação e despolitização da diversidade sexual.

Esses dois elementos, a ofensiva neoliberal e a inclusão nas instituições dos setores mais moderados dos movimentos pela diversidade sexual, são fundamentais para entender a tendência conservadora que se seguiu. Passa da resistência e ofensiva para a institucionalização , que se materializa a partir dos anos 80. Do combate pela transformação radical de toda a sociedade, o movimento é deslocado para a luta pela criação de espaços institucionais contra discriminação, mudando das ruas para os escritórios do governo e criticando a sociedade patriarcal por "agendas inclusivas".

Os setores que não aceitaram essa domesticação encontraram uma crescente repressão, desintegração e um peso maior das estratégias de autodefesa e confinamento nos "guetos" da diversidade sexual. Mas por que essa divisão? Estamos nos anos 80 e é impossível entender sem acrescentar um elemento chave à equação: o aparecimento do HIV / AIDS.

Não dê nenhum direito por conquistado

No início dos anos 80, centenas de milhares de gays e mulheres em países pobres se tornaram as principais vítimas do vírus HIV-AIDS, enquanto a direita cristã se organizou contra o movimento feminista e pela liberação sexual, de mãos dadas com o Vaticano e os setores políticos neoconservadores. A pandemia da AIDS era considerada pelos setores fundamentalistas como um "castigo divino", e aterrorizou a comunidade gay que foi cruelmente estigmatizada, aumentando a discriminação, marginalização e violência contra homossexuais.

Depois de anos de políticas lideradas pelas grandes indústrias farmacêuticas e ministérios de saúde, que "deixavam morrer" milhares de pessoas, entre os quais incluiu grande parte da vanguarda mais revoltante da diversidade sexual, vários programas foram criados contra a discriminação e a atenção às pessoas infectadas com HIV-AIDS e ONGs especializadas emergiu, inclinando ainda mais a estratégia da diversidade sexual, da organização política para o assistencialismo. Esta dinâmica foi determinante para que fosse gestando - aconteceu com o movimento feminista - um grupo de "autoridades" surgidos do movimento que se tornaram administradores de fundos, tecnocratas estatais, ativistas controlados e diretores de fundações especializadas.

Simultaneamente, a política de identidade foi questionada dentro do próprio movimento pelos setores subordinados e renegados, especialmente lésbicas, trans, negros, latinos, etc. A unidade para identidade sexual foi mostrada como uma ilusão, quando o poder do movimento estava concentrado em homens gays, cis, brancos, de classe média e anglo-saxões. Algo que se repetiu, com suas particularidades, no movimento feminista. Mas, em vez de buscar unidade com base em um programa e uma perspectiva política, o que aconteceu foi o surgimento de múltiplas identidades. Fragmentação foi o terreno fértil para o florescimento de novas políticas pós-modernss baseadas no conceito de que a identidade é sempre coercitivo, prescritiva e repressiva, com foco em transformações subjetivas e linguístico-cultural e com base numa concepção liberal da desconstrução do sujeito.

O movimento de libertação sexual tornou-se, em pouco mais de uma década, no movimento LGBTI, privilegiando a política de inclusão de múltiplas identidades, em vez da denúncia radical do sistema que reprime a sexualidade e está na base de exclusões , discriminação e opressão. O resultado foi o desmembramento e a despolitização do movimento, limitado ao aparecimento esporádico para a celebração da diversidade no Dia do Orgulho e direitos de negociação através do lobby com empresas, políticos capitalistas e organizações internacionais.

Assim chegamos à situação em que a liberação sexual não é para todos os bolsos. Entre o desejo proibido e o desejo comercializado, a ideia de emancipação pelo consumo que controla nossos corpos é reforçada pelo serviço da ordem social. O controle sobre os corpos dos outros, a imposição binária de gêneros pré-definidos pelos órgãos genitais, a sexualidade heteronormativa e a conformidade cisgenérica não são naturais, servem aos interesses de uma classe social que organiza a sociedade. Desta forma, a repressão sexual permanente sob o capitalismo desempenha um papel essencial na relação entre opressão e exploração e aponta para onde temos que procurar os alicerces de uma revolução sexual.

Então, a diversidade sexual é revolucionária? Ela pode ser

Como categoria interclassista, a diversidade sexual é atravessada por uma multiplicidade de interesses antagônicos. Quando a bandeira do arco-íris pode aparecer como um espaço em branco para vender todos os tipos de produtos em datas próximas ao orgulho, quando usada para encobrir o genocídio do Estado de Israel ou quando instrumentalizada para assalariar os ventres de mulheres pobres com a gestação subjugada, se põem em evidência que na diversidade sexual também existe luta de classes.

Embora o movimento tenha alcançado inegáveis avanços, estes são totalmente insuficientes para conseguir mudanças substanciais nas condições de vida da maioria precária da diversidade sexual. Especialmente no caso das pessoas trans, que enfrentam 85% de desemprego e altas taxas de prostituição. No contexto de uma longa crise capitalista, não só muitos dos direitos adquiridos estão ameaçadas, mas a vida da classe trabalhadora, cada vez mais diversificada, no Brasil com maioria negra e mais feminina é ainda pior. [1]

Quando se trata de contestar a hegemonia de classe dentro da diversidade sexual, as possibilidades de forjar alianças com o resto da classe trabalhadora apresentam enormes possibilidades hoje. A saga de 50 anos de Stonewall, apesar dos contratempos na luta de classes, da cooptação e institucionalização do movimento, com décadas de luta de gerações de ativistas da diversidade sexual abriram o caminho para recuperar a subjetividade revolucionária.

Essa perspectiva tem um ponto de apoio extraordinário no crescente movimento de mulheres que se desenvolve internacionalmente, recuperando a idéia de greve como método de luta. Inclusive em alguns setores, assumindo também demandas contra racismo e precariedade, desemprego e trabalho gratuito.

Colocar no centro do tabuleiro a diversa classe trabalhadora que move o mundo e lutar por um programa que enfrente o capitalismo, coloca a possibilidade de que a diversidade sexual novamente desempenhe um papel revolucionário na formação de uma aliança que reúne toda os oprimidos e explorados. Essa é uma das nossas maiores armas: unir o que os capitalistas tentam separar a todo custo.

Queremos construir algo maior do que "a tolerância em troca de não dar problemas" em tempos de capitalismo cool, enquanto que a discriminação contra os mais explorados da nossa classe e quando se reforça a criminalização quando o Estado burguês mostra sua cara com o avanço da extrema direita.
Não queremos sua tolerância. Queremos a transformação radical de uma sociedade capitalista que, através de séculos de exploração, opressão, guerras, fome e imperialismo, merece acabar na lixeira da história.

Artigo publicado originalmente em https://www.izquierdadiario.es/Si-la-diversidad-sexual-puede-ser-revolucionaria
TRADUÇÃO: Matheus Correia

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