Cultura

ARTE CONTRA A DITADURA

Show Opinião – os artistas respondem ao golpe

Em 11 de dezembro de 1964 estreia o espetáculo “Show Opinião”, escrito de forma coletiva por vários autores e assinado por Armando Costa, Paulo Pontes e Vianinha, e dirigido por Augusto Boal. O Show Opinião marcaria a história cultural brasileira e dos artistas que procuravam alguma forma de se opor ao golpe militar.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 2 de abril de 2015| Edição do dia

“Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião”

- Opinião, Zé Keti.

Após o golpe militar, a União Nacional dos Estudantes (UNE) havia sido colocada na ilegalidade, e sua sede fora incendiada pelos militares no mesmo dia que ocorreu o golpe. Os artistas que conceberam o Show Opinião eram aqueles que haviam construído o Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à UNE, e que desde 1962 haviam dedicado grandes esforços para criar um movimento de cultura popular no Brasil ligado à intensa mobilização política que ocorria naquele momento. O CPC teve grandes méritos e produziu obras memoráveis, como o “Cabra marcado para morrer”; politicamente, no entanto, apresentava problemas bastante importantes, como a profunda influência de uma política nacional-desenvolvimentista levantada pelo PCB – o qual tinha grande influência sobre o CPC – e, assim, sua principal bandeira eram as chamadas reformas de base promovidas por João Goulart – Jango – mantendo-se distante de uma política independente dos trabalhadores e dos demais setores explorados.

A análise do que foi o CPC, no entanto, não é o objetivo desse artigo. Queremos lembrar, brevemente, o que foi um de seus últimos suspiros, quando já se encontrava na ilegalidade, e alguns de seus membros se juntaram para criar o Show Opinião com outros artistas de esquerda. O Show Opinião foi encarado como a primeira resposta do teatro ao golpe militar. Na época em que foi feito, no entanto, as precárias análises de conjuntura do PCB influenciavam o grupo a tal ponto que tratam o golpe como se fosse algo absolutamente passageiro, e não uma derrota histórica dos explorados. Por isso, como aponta Iná Camargo Costa, “salvo por uma ou outra referência incidental, como no rápido esquete em que, a propósito do consumo de maconha entre sambistas e marginais, comenta-se que ‘o vermelho está fora de moda’, ou pelo achado de uma alegoria como o Carcará, que foi imediatamente associado ao general de plantão, nada mais permite supor que a peça tenha sido escrita depois da maior hecatombe política da história do país.” [1]

No espetáculo há três protagonistas, cuja biografia serve de base para o enredo da peça/musical. A música é o que une os protagonistas, e é tomada como uma forma de luta e resistência. São três personagens com histórias distintas, com o fio condutor da música como luta social. João do Vale representa o migrante nordestino, que chega ao Rio como a capital da indústria cultural, para tentar fazer sua música. Zé Keti é o trabalhador carioca, dos morros do Rio; Nara Leão é a garota de classe média que decide aderir à música e à luta popular, como de fato fez, tendo sido muito criticada pelo seu abandono do posto de expoente da bossa-nova, que ela rejeitou como um período de alienação. Posteriormente, Maria Bethânia substituiu Nara Leão no Opinião por motivos de saúde.

O Show Opinião é fruto direto das experiências do teatro de rua do CPC. É uma experiência de AgitProp (Agitação e Propaganda, uma forma teatral que surgiu na Rússia pós-revolucionária e está vinculada a um teatro vinculado aos movimentos de luta dos trabalhadores e explorados). Sua forma não é a de um teatro, mas a de uma narrativa feita pelos atores-cantores, que utilizam sua música para contar uma história da música no país e a sua relação com a indústria cultural. Cada um deles narra suas dificuldades para poder exercer a sua arte: o preconceito de classe, o machismo, o estereótipo do músico, a imposição do mercado cultural americano. Longe de reivindicar uma música “100% nacional”, caindo num chauvinismo que assolou uma parte dos artistas brasileiros, o Opinião reconhece uma grande qualidade na música americana e de outros países, mas afirma que o que há de bom nessa não chega ao Brasil (assim como o que há de bom aqui não consegue furar o cerco da indústria). Tal questão fica claro quando apresentam a música "Guantanamera”, que demonstra que a tradição de uma música ligada à luta dos explorados existe em qualquer canto do mundo. Isso está ligado ao projeto que o CPC teve de fazer um verdadeiro trabalho arqueológico de resgate de grandes músicos que foram renegados pelo mercado; um dos artistas redescobertos pelo CPC foi ninguém menos que Cartola.

O Show Opinião foi um grande sucesso, reunindo nas primeiras semanas mais de 25 mil espectadores no Rio, e depois mais de 100 mil em São Paulo e Porto Alegre. [2]. A crítica que foi dirigida ao espetáculo era evidentemente associada a uma posição de direita, racista e de classe, que já havia sido evidenciada no próprio espetáculo. Anos mais tarde, Ruy Castro, em seu livro “Chega de Saudade”, explicita esse ponto de vista de forma mais direta, ao falar das músicas de Carlos Lyra e Edu Lobo: “Todas meio que com um sabor de senzala”. [3] As críticas tinham predileção por Nara Leão, talvez pelo fato de ser mulher, ou ainda por ser uma “traidora”, na medida em que, diferente de Zé Keti ou João do Vale, ela era uma moça bem nascida da Zona Sul do Rio e fora apresentada ao público como o bem comportado símbolo da bossa nova. Agora, ela se juntava aos miseráveis e cantava as músicas do povo. Em algumas apresentações, Nara chegava a interromper o espetáculo para discutir com membros exaltados da plateia que criticavam o show. Além disso, chegou a ocorre a montagem de um “contra-espetáculo” chamado “Reação”. [4]

Contudo, em que pese a enorme relevância do Show Opinião, tanto do ponto de vista estético quanto de resistência, ele trás as marcas contraditórias da derrota e do refluxo decorrente dessa. Simbolicamente, a sede do Show Opinião e do grupo que se originou deste, foi o Teatro Super Shopping Center, cujo proprietário era ninguém menos que Arnon de Mello, um dos políticos que estava por trás da articulação do golpe militar, além de pai do futuro presidente Fernando Collor de Mello.

Nesse sentido, a leitura feita por Iná Camargo Costa, de que o Show Opinião correspondia, no plano cultural, à palavra de ordem dada pelo PCB no plano político de “recuo organizado”, parece ser válida. Em relação ao CPC, o Opinião deixa o front de batalha: sai das ruas, do campo, do contato com os que se organizavam politicamente por baixo. A disposição para a resistência ao golpe existia, e muito, em muitos setores de base; mas a ordem dos dirigentes do PCB foi o recuo. Como afirma Iná “Esse recuo ‘organizado’, depois apresentado como reorganização de alguns veteranos no âmbito do teatro profissional – uma vez que a rua e outros espaços conquistados pelo CPC tinham sido bloqueados pelos tanques –, rapidamente passa a ser pensado como um avanço.” [5] Assim, as inovações foram absorvidas pelo mercado, com a criação do segmento mercadológico da MPB, sendo pensada como um nicho de mercado para o “universitário padrão”. A partir de 1966, as emissoras de televisão entram nesse jogo com os festivais. [6]

Contudo, o Show Opinião mostrou que, com o peso de um golpe militar nas costas, e com a traição da direção que poderia ter lhe feito resistência – o PCB – ainda assim os artistas procuraram caminhos para tentar expressar sua voz, cada vez mais abafada pela dura repressão que se abateria não apenas sobre as organizações dos trabalhadores e camponeses, mas também sobre a arte e a cultura independentes e aliadas a estes.

Para saber mais:

- COSTA, Iná Camargo. A Hora do Teatro Épico no Brasil. São Paulo: Editora Graal, 1996.
- KLAFKE, Mariana Figueiró. Show Opinião: engajamento e intervenção no palco pós 1964. Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/79038/000900761.pdf?sequence=1
- Debate entre Iná Camargo Costa e João das Neves: http://www.traulito.com.br/destaques/a-hora-do-teatro-epico/




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