ELEIÇÕES ARGENTINA

Segundo turno: Para a frente de esquerda nem Macri, nem Scioli são a alternativa

Com mais de 800 mil votos para presidente e um milhão para deputados, a FIT conseguiu a maior eleição da esquerda, em uma eleição executiva presidencial desde 1983. Del Caño responsabilizou o Kirchnerismo pelo avanço da direita e chamou o voto branco para dar uma resposta aos candidatos do ajuste.

quarta-feira 28 de outubro de 2015| Edição do dia

Fotografia: Enfoque rojo / Rodrigo Wilson

Os números da eleição do último domingo surpreenderam aos próprios e a estranhos. Confirmaram mais uma troca profunda na situação política. O PRO se levantou com “a Provincia”, arrasou em Córdoba, Mendonza, Santa Fé e na Cidade de Buenos Aires, ganhando a maioria dos grandes centros urbanos. O diagnóstico de um Scioli ganhador ou um segundo turno incerto passamos a um final em aberto. Quem pode arriscar o nome do próximo presidente na noite de 22 de novembro?

O que é menos surpreendente é o resultado de um processo que começou com a “moderação” kirchnerista e terminou em um segundo turno em que competiram dois políticos do passado menemista e de futuro dos ajustes. Descreveu Nicolás Del Caño a noite de domingo “este deslocamento a direita do cenário nacional é resultado do rumo político que adotou a decisão na chamada ‘década ganhada’ “. O kirchnerismo elegeu um candidato de direita, filho político do menemismo que há poucos dias anunciou um gabinete (com Sérgio Berni ou Alejandro Granados, entre outros) que tranquilamente poderia ser nomeado por Mauricio Macri.

Assim chegamos a votação do domingo. Como analisou Fernando Rosso no esquerda diário, a demagogia clássica dos candidatos tradicionais combinou-se com distintas variantes de chamado ao “voto útil”. Essa demagogia reforça a relação de força realmente existente. Ninguém quer falar dos ajustes ou atacar conquistas. Aprenderam o modo Carlos Saúl (“se dizia o que ia fazer para que não votasse em ninguém”). O voto útil propunha “mudar o kirchnerismo” ou “evitar a direita”. Nenhum poderia “namorar” as grandes maiorias populares, que por esse domingo não entregaram nenhum cheque em branco.

A importante mudança na situação deixa essas certezas, mas também muitos questionamentos: Mobilizará Cristina Kirchner o aparato kirchnerista como fez Lula para evitar a derrota de Dilma Rousseff? Com que resultado? A subida da bolsa esta segunda confirma que os grandes empresários preferem um representante mais direto como Macri; ou finalmente se curvarão pela “governabilidade” que promete Scioli e o PJ? Pode o PRO governar a província de Buenos Aires sem um pacto com os barões, a burocracia sindical e a Buenos Aires?

Alguns destes questionamentos se resolverão nas próximas três semanas. Outros dependerão das perspectivas econômicas e dos planos que pretende aplicar quem ganhe. Porém a derrota do peronismo de Buenos Aires e as profundas mudanças que estamos vendo a nível nacional abrem a possibilidade de novas crises políticas.

A MELHOR ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DA ESQUERDA DESDE 1983

A frente de esquerda, faltando terminar a contagem de uma porcentagem das mesas, vai superar os 800 mil votos na categoria presidencial, e chega perto de um milhão de votos para deputados nacionais. Como difundiram vários meios de comunicação nacionais, se trata da melhor eleição da esquerda desde 1983.

Estes números cobram um maior valor político no contexto político que definíamos. Apesar das campanhas de voto útil e a polarização relativa, Del Caño deteve os votos que conquistou a Frente de esquerda nas PASO e aumentou seu fluxo. Rercodemos que a Lista que encabeçou Nicolas havia conseguido 375 mil votos em Agosto.

Justamente por haver crescido nesse difícil panorama, colocou-se como quarta força. O fez relegando Stolbizer, que a diferença da FIT havia obtido caiu desde a eleição primária. Margarita já confirmou a falência do progressismo chamando a votar em Macri.

Na eleição presidencial de outubro de 2011 a FIT havia obtido 503 mil votos, um pouco menos que obteve nas PASO desse ano.

Del Caño-Bregman tiveram importantes resultados nos principais centros urbanos. Também nos cargos legislativos, destacando-se em Jujuy, Salta, Córdoba, Santa Fé, Neuquén, CABA, e na província de Buenos Aires. Por esta província ingressará Néstor Pitrola como deputado nacional. Noelia Barbeito fez uma grande eleição aumentando mais de 30 mil votos do que teve nas PASO, porém não alcançou ser deputada nacional por Mendonza. Alejandro Vilca vai lutar na contagem final contra a continuação do regime político de Jujuy.

Estes resultados consolidam a frente de esquerda como força política nacional, que mais defende um programa operário e socialista, O um milhão de votos para esquerda dura é uma mensagem clara para os poderosos: há uma avançada dos trabalhadores, jovens e mulheres que se preparam para enfrentar o ajuste e as políticas de direita. Qualquer que seja o vencedor no dia 22 de novembro.

NEM SCIOLI NEM MACRI SÃO A ALTERNATIVA

Nas próximas semanas a situação política vai girar em torno do segundo turno. Perguntaram-nos: Macri ou Scioli?

Será então uma nova batalha para a frente de esquerda, que não tem dúvidas na resposta e difunde ativamente sua posição. Como assinalou Nicolás Del Caño antes os meios que fizeram aquela pergunta: “nós, consequentemente ao que dissemos em nossa campanha, vamos chamar o voto branco e não apoiar nenhum dos candidatos. Haviámos antecipado antes do resultado que em caso de segundo turno, iriámos chamar o voto branco. E confirmamos hoje, já que a agenda tanto de Scioli, quanto de Macri não tem nada a ver com os interesses das grandes maiorias trabalhadoras”.

A FIT propõe voto branco ligado a defesa do programa que levantou na campanha e a preparação para o período que virá.

Então se responder aquela pergunta com outra: pode-se “enfrentar a direita” de mãos dadas a repressores como Sergio Berni, Alejandro Granados e Ricardo Casal? Pode-se “fazer acordo” com Chevron e Barrick Gold? Militaria pela campanha na Lear e nas montadoras junto ao patotero Pignanelli? Nas escolas com a ministra Nora de Lucia que vai a shoppings em Nova York e não paga as professoras?

Ou também: Pode ser bom para o povo trabalhador uma “mudança” que chegue de mão dada a Macri e aos direitistas do PRO?

É como se propusesse eleger se prefere que te ajuste em uma cota ou duas: que te reprima Sergio Berni ou o “Fino” Palacios.

A frente de esquerda já tomou posição.




Comentários

Comentar