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CARRIS | Sebastião Melo quer destruir a mais antiga empresa pública de transporte coletivo do país

Há empresas e empresas neste mundo. Há fábricas que produzem automóveis, usinas que produzem oxigênio, há indústrias que produzem aviões e fazendas que produzem alimento. Há empresas que não produzem nada, como é o caso da Carris, mas transportam vidas todos os dias, movem a cidade de Porto Alegre há quase 150 anos. Uma idosa respeitável, datada dos tempos de D. Pedro II, engrenagem fundamental da capital e com tantas histórias neste mundo.

domingo 28 de março | Edição do dia

Nossos avós nasceram depois da Carris. Milhões, ao longo das décadas, já circularam pelos seus carros e ouviram histórias dos cobradores e motoristas. Do primeiro bonde aos carros mais modernos. Não foram poucos os que se enfureceram quando o bus passou antes de chegar na parada. Muitos já se apaixonaram por aqueles desconhecidos que passaram na roleta. Apesar da precarização, os poemas estampados nos vidros dos ônibus da Carris muitas vezes alegravam o fim de um dia duro no trabalho. Seus operários também são históricos. Motoristas, cobradores, trabalhadores da manutenção, do administrativo, todos depositam seu quinhão de energia diário para girar a roda porto-alegrense e construir esse patrimônio público histórico. Apesar de muito sucateamento e crimes por parte do poder público, muitos rodoviários possuem um orgulho invejável de fazer parte dessa história.

Antes da pandemia, a senhora Carris já lograva a marca de “mais antiga empresa pública de transporte coletivo do país”. Uma das poucas sobreviventes do vendaval neoliberal que transforma tudo em mercadoria e arregaça com direitos trabalhistas, a Carris sofre com descaso de sucessivos governos, mas segue de pé graças aos seus trabalhadores. Governos como os de Melo veem os trabalhadores como coisas, como pneus, roletas, volantes, gasolina, como gastos e que podem ser trocados a qualquer momento.

Mas esses trabalhadores possuem nomes, são mães, pais, irmãos, estudantes, esportistas, poetas, políticos e assalariados com sonhos e desejos muitas vezes tolhidos pelas árduas jornadas de trabalho e por gestões que ora enriqueceram com desvios criminosos, ora sucatearam a Carris de acordo com os interesses dos grandes empresários. Muitos rodoviários adoecem com as péssimas condições de trabalho impostas pelas prefeituras e pelas demandas do frenético cotidiano. Rodoviários, das privadas e da Carris, se arriscam todos os dias na roleta e no volante para fazer a cidade se movimentar.

Durante a pandemia, a Carris salvou o transporte público da cidade: enquanto as empresas privadas desistiam de linhas deficitárias por conta das anárquicas restrições econômicas, arregaçando com os trabalhadores, a Carris encampou 19 linhas e permitiu que a cidade funcionasse com todas as dificuldades. Isso se deu com enorme exposição de rodoviários e usuários ao vírus, graças às medidas da prefeitura de redução de tabelas e horários que lotaram os carros todos os dias.

Agora a RBS, Melo e toda a direita da cidade criam a narrativa de que é preciso vendê-la pois causa prejuízo. A sucursal da Globo, inclusive, maquia números para dizer que se vendermos a Carris teríamos uma passagem 25 centavos a menos. A verdade é que, não fosse a Carris, as empresas privadas estariam pedindo ainda mais subsídios estatais (milionários) para preservarem seus lucros enquanto aplicam as MPs de Bolsonaro contra os trabalhadores, reduzindo salários e jornadas, fraudando plebiscitos nas garagens com o aval do sindicato e expondo os trabalhadores ao vírus. A Carris mostrou sua importância para a cidade, enquanto empresa pública, durante a maior crise dos últimos anos. Não há justificativa racional para a sua venda, a não ser encher os bolsos dos amigos do Melo. Como sempre diz um grande companheiro, motorista por 15 anos, se há prejuízo, por que alguém em sã consciência vai querer comprá-la? Se está mal a situação para os donos das empresas privadas, que saiam! E que os trabalhadores controlem o transporte!

Sebastião Melo, eleito com todo o voto do bolsonarismo abjeto da cidade, quer deixar um legado de destruição na cidade. As consequências de uma possível venda vai desde demissões em massa de trabalhadores até gradual aumento das tarifas de ônibus na medida em que o transporte será ainda mais monopolizado, passando pela evidente precarização das condições de trabalho e oferta dos serviços. Esse texto, além de homenagear essa idosa tão imprescindível para a cidade, busca sensibilizar trabalhadores, jovens, estudantes e usuários em geral, sobre a importância de defendermos a Carris, de combater esse crime protagonizado por Melo e seus amigos. Empresários gananciosos, sedentos por lucro, querem colocar as garras na última empresa pública de transporte coletivo da cidade.

É preciso mobilizar essa enorme categoria, unindo trabalhadores da Carris e também da Trevo, da Sudeste, da Nortran, da Tinga e tantas outras, para defender a Carris. Trata-se de uma luta de todos os rodoviários. Essa categoria, portadora de lutas históricas em Porto Alegre, como a greve de 2014 que dobrou o empresariado porto-alegrense, pode fazer a cidade parar. E é fundamental termos em mente que a venda da Carris vai afetar os trabalhadores das privadas, pois fortalecerá os barões dos transportes que estão descarregando a crise em nossas costas. A rapina neoliberal visa tão somente enriquecer um punhado de capitalistas, e o resultado, longe de tarifas mais baratas ou melhorias no transporte, será mais precarização, menos direitos para esses heróis rodoviários e o fim de uma história centenária.

A bem da verdade, para melhorar a qualidade, deveríamos lutar por um transporte público 100% Carris, controlado pelos próprios trabalhadores e usuários que sabem melhor do que ninguém quais linhas devem ser operadas, em que horários, em qual quantidade, detalhes de segurança sanitária, detalhes de conforto para os trabalhadores… reduzir a jornada dos motoristas e cobradores, por exemplo, sem redução salarial, permitiria readmitir os rodoviários demitidos durante a pandemia e atacar o enorme desemprego na cidade. Comissões independentes de trabalhadores, em cada garagem, poderiam ser organizadas para garantir a melhor segurança sanitária para os que estão na linha de frente do coronavírus. Devemos exigir a quebra de patentes das vacinas para poder produzi-las em massa e vacinar todos os rodoviários e trabalhadores que não possuem direito à quarentena.

A unidade na luta de todos esses setores é o que pode barrar Melo e seus amigos milionários de desferirem esse ataque brutal à Carris, aos rodoviários e a toda a cidade de Porto Alegre. Precisamos erguer uma forte campanha contra a privatização da Carris e em defesa de um transporte público 100% estatal, controlado pelos rodoviários e usuários. Lembremos como em 2020 os rodoviários derrotaram Marchezan e a maioria da Câmara Municipal em suas tentativas de extinguir os cobradores. Da greve de 2014 que os barões do transporte e o criminoso sindicato tiveram que se curvar à força e organização dos rodoviários. Lembremos desses momentos para derrotar Melo e sua política neoliberal para fazer avançar a força dos trabalhadores nesse momento de tantas dificuldades.




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