EDITORIAL MRT

Rumo ao Ato Internacional Simultâneo: lutar contra o racismo e a violência policial em todo o mundo e recuperar o legado socialista

No próximo sábado dia 11 de julho às 15h pelo Facebook e Youtube, com militantes dos EUA que estão nas ruas contra o racismo, da França, que lutam em defesa dos imigrantes, brasileiros, que estão lutando contra a violência das balas da polícia e o racismo bolsonarista, e saudações de revolucionários da Grã Bretanha, Alemanha, Chile e Bolívia.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 7 de julho| Edição do dia

As jornadas de luta que explodiram nos EUA levaram a uma eclosão global de combates antirracistas, lançando milhões em todo o mundo a marchas de denúncias das instituições policiais, com negras, negros e migrantes a frente. Essa fúria negra internacional aponta também à necessidade de uma saída da classe trabalhadora a todos os ataques que estamos sofrendo no marco da crise econômica e dos efeitos mais duros que a pandemia tem trazido sobre a massa trabalhadora, os mais pobres e os setores oprimidos. Para isso, o legado do marxismo serve como ferramenta para que nossa luta possa vencer internacionalmente, passando pela construção de partidos e grupos socialistas que apontem para a construção de uma Internacional da Revolução Socialista. É por isso que convidamos todas e todos que se incendiaram com essa fúria negra a participarem do Ato Internacional Simultâneo Contra o racismo, a violência policial e para que não sejam os trabalhadores e oprimidos que paguem pela crise.

Saiba mais: 11/7 Ato internacional simultâneo: Basta de racismo e de violência policial!

Em um momento em que as lutas nos Estados Unidos impactam o mundo inteiro e particularmente no Brasil, é tarefa dos revolucionários levantar com toda força a batalha contra o racismo e a violência policial, que aqui adquire um caráter urgente e estratégico não somente porque somos o maior país de população negra fora da África, mas porque é no Brasil que reside a polícia mais assassina do mundo. Neste sentido, está mais do que nunca colocado a necessidade de resgatar o mais avançado da estratégia do socialismo internacional historicamente para pensar os grandes desafios de hoje, que passa por unir a classe trabalhadora, entre negros e brancos, homens e mulheres, mas também com o conjunto dos oprimidos, assim como unir nossa classe internacionalmente, sem fronteiras. No Brasil, como veremos, significa enfrentar um governo Bolsonaro e Mourão, sem cair no colo das várias frentes que começam a se organizar junto com golpistas e empresários de todo tipo, jogando no lixo qualquer tipo de independência de classe dos trabalhadores. É também urgente porque devemos ter consciência de que, se as lutas dos EUA impactaram no Brasil, algo deve explicar porque retrocederam e, nessa explicação, não podemos diminuir o papel que tiveram as burocracias sindicais dirigidas pelo PT e pelo PCdoB, através da CUT e da CTB. Ainda mais em um momento em que os entregadores protagonizam importantes jornadas de luta, isso está na ordem do dia, e também com possibilidades de greve em uma importantíssima categoria como os metroviários de São Paulo, já nesta quarta-feira. Também porque a luta nos EUA coloca o dedo na ferida de uma das maiores capitulações da esquerda brasileira que é a sua vergonhosa defesa da polícia e dos sindicatos policiais.

Leia também: Que faria a esquerda brasileira que defende a polícia, se estivesse nos Estados Unidos?

Levando em conta todos estes elementos, é importante apontar que, a nível internacional, a quantidade de mortos e contaminados pela COVID-19 não para de crescer. Por todos os lados, aumenta a certeza de que não encaramos a contaminação de forma igual. Os mais pobres, trabalhadores essenciais e precários e os setores mais oprimidos, como os negros, pagam mais caro pela crise sanitária, que caminha lado a lado de uma crise econômica de proporções históricas. Dentre os novos números de mortos da crise sanitária, se somam os mortos pela crise econômica. As saídas capitalistas para a crise protegem os lucros, lançando milhões à miséria, ao desemprego, à fome e apostando no fortalecimento das instituições repressivas para tentar garantir que não nos levantemos contra a barbárie. No Brasil, enquanto a extrema direita de Bolsonaro segue dizendo que é apenas uma "gripezinha", já alcançamos o topo da crise sanitária em poucos meses da chegada do vírus, com números de mortos e infectados que carregam todo o legado da mais longa escravidão do mundo. Morrem aos milhares os que saem para trabalhar sem proteção, nos trabalhos mais precários. A vida precária também vitimiza outros milhares, que sequer tem água na torneira, fazendo com que negras e negros tenham 70% mais chance de morrer. E após tanto descaso, tantas piadas e tanto negacionismo, é o próprio Bolsonaro que foi testado com covid e seu filho Carlos Bolsonaro pede “solidariedade”. A solidariedade que ele não teve com nenhuma das famílias dos mais de 65 mil mortos.

Bolsonaro não está sozinho neste projeto. A enorme presença militar no governo é a marca de um regime profundamente autoritário, fundamental para levar adiante os ataques e ajustes necessários para impedir que os capitalistas paguem pela crise. Esse regime, fruto direto do golpe institucional de 2016, do qual carregamos até hoje a ferida aberta do assassinato de Marielle Franco - que ainda não sabemos quem ordenou - e de Mestre Moa, ambos pelas mãos da extrema direita e das milícias encorajadas pelo discurso de ódio que jorra da boca de Bolsonaro, seus apoiadores e que se legitima no crescente autoritarismo judiciário e militar que define a política recente do país. Marielle e Moa, junto das novas e mais frequentes chacinas, do assassinato de nossos jovens negros de dentro de suas casas, são os símbolos do que significou o golpe institucional e de que tipo de regime se vive hoje aqui. Este golpe contou com todo o judiciário incluindo o STF, com o Congresso e com muitos políticos que hoje pagam de "democratas".

Há um enorme campo burguês que aposta nesse racista, misógino e fascista como alternativa para descarregar a crise em nossas costas, um mesmo campo burguês que, há poucos anos, o PT governou de mãos dadas. Os ataques, a presença militar e as alianças com a direita, feitas pelo próprio PT, pavimentaram esse caminho que nos traz aqui. O PT foi eleito dizendo que governaria para os trabalhadores, quando na verdade enriqueceu banqueiros e industriais. Para as mulheres e os negros não ofereceu nenhuma mudança estrutural, e sim mais terceirização, encarceramento e manteve por todos esses 13 anos as tropas brasileiras massacrando o povo haitiano, fortaleceu as polícias assassinas e aprovou a lei antiterrorismo, que serve hoje para perseguir movimentos sociais.

O reformismo é incapaz de acabar com a opressão aos negros e às mulheres porque mantém o capitalismo intacto. Não podemos acreditar que ao ter uma minoria de negros e mulheres integrados nos espaços de poder a nossa opressão chegará ao fim, porque não são alguns no poder que mudam a realidade das 6 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil, que quando entram na casa da patroa, são transportadas aos tempos mais sombrios da escravidão negra, escravidão essa arraigada na formação do capitalismo estadunidense e atrelada ao surgimento do capitalismo como sistema mundial.

Por isso, não é coincidência ou uma fatalidade histórica que a revolta nos Estados Unidos exploda contra séculos de opressão racial. Se choca contra essas bases racistas que construíram o capitalismo e mostram o caminho para muitos jovens e trabalhadores e se fez sentir aqui no Brasil, em um fenômeno antirracista que se expressou em marchas antifascistas e antirracistas por todo o país, que foram sucedidas pela inédita paralisação de trabalhadores dos aplicativos, dos quais 71% são negros, que nas suas mochilas de trabalho estamparam placas que diziam "vidas negras importam". É diante desse cenário que achamos urgente impulsionar este Ato Internacional Simultâneo.

No país da polícia mais assassina do mundo, também serve de exemplo as recentes greves que pipocam pelos EUA, mais de 500 ações de distintos tipos em locais de trabalho e indústrias estratégicas do país que exigem a retirada da polícia dos sindicatos, a suspensão das vendas e acordos comerciais com a polícia, a dissolução das polícias de bairros escolares e inclusive o financiamento zero para a polícia, denunciando que durante a pandemia os governos aumentam a verba para a repressão quando todo o recurso instalado aí poderia fazer uma diferença vital no combate aos efeitos do coronavírus. Essas lutas de rechaço à polícia, ao racismo e à precarização da vida, podem também apontar um caminho independente para a crise sanitária classista e racista e também apresentar as saídas políticas que podem colocar os trabalhadores no poder, o que exige preencher nossa luta de um conteúdo estratégico, que passa pela conclusão fundamental de que para acabar com a opressão é preciso se enfrentar contra o sistema capitalista.

Entre a revolta negra que se dá hoje em todo mundo - apoiada e fortalecida por trabalhadoras, trabalhadores e jovens não negros - e a revolução socialista necessária para abrir um novo caminho rumo ao futuro não existe um grande abismo. Precisamos assumir sua tarefa de conectar a força e a decisão que já vemos nas ruas com o programa correto para fazer avançar essa força em auto-organização e poder nas mãos da classe trabalhadora. É neste sentido que faz falta um pólo de independência de classe que agite fortemente pela bandeira de Fora Bolsonaro e Mourão e uma saída que não questione somente o governo, mas também esse regime podre do golpe institucional, o que significaria lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Um pólo destes deveria estar atuando fortemente pela unificação das lutas e ajudando a impulsionar a auto-organização dos entregadores, que já sofre com a política divisionista da UGT. Entretanto, o que vemos é esquerda participando de atos junto com golpistas e empresários como foi o Ato “Direitos Já” na qual participaram Guilherme Boulos, Marcelo Freixo, Fernanda Melchionna e David Miranda, um "ato" que sequer se coloca contra Bolsonaro, mas também vemos, por outro lado, que a articulação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo junto com partidos burgueses como o PDT e o PSB pelo impeachment é endossado pelo PSTU e a CSP-Conlutas, sem nenhum tipo de denúncia da política das centrais sindicais que na realidade fazem esse tipo de manifestação pra encobrir a trégua que seguem com o governo e menos ainda da política destes partidos burgueses que atuam contra os trabalhadores.

Em lugar disso, cabe aos socialistas se inspirarem nas conclusões da classe trabalhadora em luta e debater abertamente a necessidade do fim da polícia, o que passa por deixar de reconhecer policiais como trabalhadores, uma conclusão à qual as greves operárias nos EUA chegaram antes do PSTU, do MES, CST e PCB - junto do fim do Estado capitalista, um caminho que se constrói alentando a força independente da classe trabalhadora, arrancando o Fora Bolsonaro e Mourão e impondo uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que permita abrir espaço para colocar nossa classe em enfrentamento direto não apenas com os representantes do Estado, mas de conjunto contra esse regime incorrigivelmente reacionário, batalhando para mudar as regras e não apenas os jogadores desse jogo em que nós, negras, mulheres, LGBTs e trabalhadores só saímos perdendo. Esse é o único caminho que promove a auto-organização dos trabalhadores e a luta por um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo. Essa é a força da revolta negra no centro do capitalismo: mostrar que a luta negra é inseparável da luta de classes, e que é pelas forças da nossa classe, no coração do poder capitalista que vem do lucro roubado do nosso trabalho, que podemos acabar com o racismo, fazer os capitalistas pagarem pela crise, e também que podemos apresentar as saídas políticas que coloquem a classe trabalhadora no poder.

Por acreditarmos fortemente nesta perspectiva de auto-organização dos trabalhadores que atuamos lado a lado das mobilizações em curso, seja no Metrô de São Paulo contra os ataques do governo Doria, seja com os entregadores que estão organizando uma nova paralisação para o dia 25 de julho. Nossa luta é pela unidade dessas categorias avançando e elevando suas reivindicações a um questionamento frontal ao governo reacionário em curso.

Nesse dia 11 de julho, a Fração Trotskista Quarta Internacional realizará um ato internacionalista debatendo o legado estratégico do marxismo que deve ser colocado, hoje, à serviço dessa batalha, para fortalecer e ampliar as fileiras de revolucionárias e revolucionários que em todo mundo se colocarão à disposição de aprofundar os debates políticos, estratégicos e programáticos que tornem possível conectar a força em marcha da classe trabalhadora e das massas negras em contato direto com as tarefas da revolução socialista, uma tarefa apaixonante da qual já fazem partes milhares em todo o mundo, e que convidamos a que sejamos ainda mais organizações e indivíduos dedicados a recuperar o legado do marxismo revolucionário, referenciado nas lições tão atuais de Leon Trótski, Lênin e Rosa Luxemburgo, utilizando esse legado para intervir nas lutas, nos locais de trabalho, de estudo, e se preparar para dar um golpe definitivo contra esse sistema capitalista que não merece existir, e apostando num futuro construído pelas mãos dos mais oprimidos, das negras e negros, LGBTs e o conjunto da classe trabalhadora. Neste ato contaremos com intervenções Julia Wallace e Mike Pappas do Left Voice, Marcello Pablito e Letícia Parks do MRT e Quilombo Vermelho e Anasse Kazib do CCR no NPA. A apresentação estará a cargo de Nicolas Del Caño e Myriam Bregman. Este ato é continuidade das iniciativas que nós da Fração Trotskista viemos tendo internacionalmente, como foi o ato no Dia Internacional dos Trabalhadores, e também é parte de seguir debatendo e dialogando com as distintas correntes do trotskismo internacional sobre as vias de construção de partidos revolucionários em cada país rumo a construção de uma Internacional da Revolução Socialista que na nossa opinião significa reconstruir a IV Internacional. No Brasil isso significaria romper com uma política institucional e de seguidismo ao PT para construir um partido verdadeiramente revolucionário com um programa para que os capitalistas paguem pela crise. Neste ato transmitiremos as ideias revolucionárias que em nossa opinião tem total vigência nesse momento e convidamos todas e todos a participarem, conhecerem nossas ideias e serem parte deste projeto.

Leia também: 11/7 Basta de racismo e violência policial: veja os oradores do ato internacional da FT




Tópicos relacionados

Justiça para George Floyd   /    George Floyd   /    Editorial MRT   /    Racismo   /    negras e negros   /    Internacionalismo   /    Fração Trotskista (FT-QI)   /    [email protected]

Comentários

Comentar