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Round 6: uma alegoria da sociedade capitalista

Luis Velázquez

Round 6: uma alegoria da sociedade capitalista

Luis Velázquez

Depois de serem sequestrados, os participantes competem por um prêmio de 45,6 bilhões de wons.

A série Round 6 se tornou uma tendência na Netflix nos últimos dias. Esta série coreana, do gênero “survival drama”, narra a história de um grupo de 456 pessoas que são convidadas a participar de um “jogo”. Depois de serem sequestrados e sem saberem muito a respeito do jogo, os participantes competem entre si por um prêmio de 45,6 bilhões de wons.

Dirigida por Hwang Dong-hyuk, a série pertence a um grupo de produções de survival drama: Alice in borderland (2020), O Poço (2020), Circle (2015) e Battle Royale (2000), onde um grupo de pessoas participa de “jogos” para sobreviver.

É comum que neste gênero seja apresentada a seguinte ideia: ao colocar o ser humano em situações extremas se revela o que de fato é ser humano. Mas, na verdade, me parece exatamente o contrário: as situações extremas destes survival dramas impedem que seus participantes coloquem pra fora suas potencialidades mais humanas (solidariedade, empatia). Na verdade, ao invés de mostrar o que é a verdadeira natureza humana, estas obras nos revelam a capacidade desumanizante destes “sistemas de morte”.

Como diz o diretor Hwang Dong-hyuk, Round 6 foi escrita como:

“uma alegoria/fábula sobre a sociedade capitalista moderna, uma representação de uma competição extrema, assim como a competição extrema da vida.”

Por isso, devemos pensar em que sentido a série fala sobre a capacidade desumanizante da nossa sociedade e se podemos até mesmo nos atrever a dizer que estamos todos jogando versões distintas de Round 6.

SPOILERS A SEGUIR

Capitalismo e pobreza estrutural

A narrativa da série acompanha Seong Gi-hun, um homem de 47 anos e completamente falido que mora com sua mãe e rouba dinheiro dela para satisfazer sua ludopatia (compulsão de jogar) ao apostar em corridas de cavalos. Ele está imerso em uma dívida impagável que o leva a assinar um contrato que vende seus próprios órgãos para a máfia coreana caso ele não consiga o dinheiro que deve dentro do prazo.

A situação do protagonista não é muito diferente da de outros coreanos, como é apontado no episódio final da série: “Coreia é o segundo país com maior endividamento das famílias. A dívida familiar do país sobe rapidamente e supera a média mundial” (Ep. 9), o que indica que a situação vivida pelos participantes não é especial ou uma exceção, mas sim estrutural (lembremos da gigantesca diferença entre classes que se vê no filme Parasita (2019). A condição que possibilita a existência de “jogadores” em Round 6 é o capitalismo e a pobreza estrutural que ele produz.

A ilusão da escolha

Uma organização escolhe os participantes de Round 6. Este processo de seleção consiste em investigação/espionagem da população coreana que vive em situação de extrema pobreza. Isso ocorre de maneira detalhada e controlada, e contrasta com a (in)capacidade de escolha das pessoas que são convidadas a participar. Na realidade eles são escolhidos justamente por terem perdido tudo, e podem servir como peças, como cavalos de aposta.

A partir de uma abordagem simples é possível dizer que as situações de extrema precarização fazem com que os participantes arrisquem suas vidas em troca da chance de mudar suas vidas. Uma análise crítica revela que esta “decisão” não pode ser analisada desde um ponto de vista individual.

A organização do jogo seleciona cuidadosamente as pessoas para que elas sejam tais quais suas condições médias de vida e que as chances de morrer em um jogo não sejam muito diferentes entre si. A alta taxa de pessoas que “escolheram” voltar ao jogo (a taxa de reingresso é de 93% (Ep 2.)) mostra que essa “decisão” é a única possível: depois de perderem todas suas opções de vida, aceitar participar do jogo parece ser a melhor opção.

Na realidade, os participantes apenas “escolheram” entre dois sistemas de morte, que só se diferenciam em grau, não em natureza. A capacidade desumanizante do sistema de morte de Round 6 somente é possível pois o capitalismo realizou previamente um processo contínuo e controlado de desumanização. Podemos dizer que o jogo apenas continua este processo por outros meios.

Processos de desumanização

Como diz Hwang Dong-hyuk, Round 6 é uma alegoria do capitalismo, então as formas de recrutamento e permanência dentro do jogo refletem também a nossa sociedade. Por que as pessoas sempre “escolhem” continuar jogando? Qual é a analogia entre os jogos de Round 6 e a sociedade capitalista?

Já mencionamos o minucioso processo de seleção da classe mais baixa e da falta de oportunidades causadas pelo sistema capitalista. No entanto, entre este processo e a máxima de considerar os participantes como cavalos de aposta (Ep. 9) existem vários procedimentos de alienação e desumanização.

O recrutamento, realizado através do jogo ddakji, consiste em alienar os participantes de seu próprio corpo. Ao se tornar indiferente à dor e ao próprio estado físico em troca de dinheiro, os jogadores acabam por “pagar com o próprio corpo” (Ep. 1). Os jogadores então, depois de aceitarem participar e serem raptados, são levados a acreditar que estão participando “por vontade própria”, o que os responsabiliza individualmente pela própria falta de sorte.

“Todos os que estão aqui vivem no limite, com dívidas que não podem pagar. [...] Mas, como sabem, jogamos um jogo e demos dinheiro a vocês como prometemos. Assim sendo, vocês confiaram em nós e se ofereceram a participar deste jogo por vontade própria. [...] Voltarão às suas vidas horríveis para serem perseguidos por seus credores? Ou aproveitarão a última oportunidade que estamos lhes oferecendo?” (Ep.1)

No primeiro jogo, Batatinha frita 1,2,3, os participantes são alvejados por tiros se se moverem depois que a boneca os olha. Acontece ali um processo de alienação à morte do outro, onde os únicos participantes que vencem são aqueles que não se intimidam com os tiros e nem com a morte de outros participantes, e que aceitam que não há outra opção a não ser jogar. Entre o segundo e o terceiro jogo a organização provoca uma briga: “Entregamos menos comida para que eles briguem entre si. Os mais fracos serão eliminados antes do próximo jogo. Isso é parte do jogo” (Ep. 4). Isto leva a uma desconfiança entre os participantes, o que implica na desumanização do outro, pois os jogadores irão se ver como um perigo em potencial.

No terceiro evento, que é o cabo de guerra, os participantes têm que levar às últimas consequências sua alienação em relação ao outro: devem puxar os outros participantes para um precipício entre plataformas: assassinarem ou serem assassinados. No quarto jogo eles devem competir até a morte (com bolinhas de gude) contra a pessoa que confiaram e convidaram a fazer parte de sua equipe. Para sobreviver a este era necessário se livrar de qualquer resquício de empatia e solidariedade.

Por último, no jogo que originalmente dá nome à série (Squid Game, ou Jogo da Lula), é necessário desumanizar totalmente o outro participante. Neste jogo, onde é permitido “qualquer tipo de violência”, a alienação do outro se leva ao extremo. Já não é mais um assassinato mediado por um instrumento, como no cabo de guerra, mas o assassinato tem que se dar com as próprias mãos do jogador. O personagem principal recorre a se “esquivar” de alguns destes processos de alienação, mas seu caso é muito particular e só é possível por múltiplas exceções, como o que acontece no jogo das bolinhas de gude, ao jogar com o organizador do jogo, Oh Il-nam.

Capitalismo, VIPs e Corrida de Cavalos

Round 6 mostra o doentio resultado que a gigantesca divisão entre classes produziu na sociedade sul-coreana. O jogo foi criado para acabar com o tédio (“o que será que podemos fazer para nos divertir?” (Ep. 9)) de pessoas absurdamente ricas, chamadas de VIPs na série. Ou seja, um sistema de morte é financiado por puro entretenimento.

A objetificação e desumanização dos participantes é obscenamente direta, como mencionado pelo líder da organização: “Você gosta de corridas de cavalos, não? Vocês são cavalos, cavalos de aposta” (Ep. 9). Round 6 expressa uma ficção radical da abismal diferença entre classes que é produzida pela sociedade capitalista; a competição na qual estão imersos os participantes é uma alegoria à cruel competição na qual vivem as pessoas pobres do mundo.

Ainda que sem saber, estamos todos vivendo os jogos de Round 6.

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