Educação

ASSEMBLEIA DOS PROFESSORES

Rotineirismo de um lado, inconformidade e raiva de outro

Na última sexta (8) aconteceu na Praça Roosvelt a primeira assembleia dos professores do Estado de São Paulo de 2016 convocada pela APEOESP. No geral observamos mais uma repetição de velhas práticas da direção PTista do nosso sindicato: uma assembleia esvaziada, uma fortíssima defesa do governo Dilma, e mais palavras ao vento em favor de uma suposta luta em defesa da educação. Nesse cenário de profundo rotineirismo a votação não foi diferente: mais uma votação de estado de greve – a terceira seguida desde a saída de nossa greve do ano passado – que qualquer professor sabe que é mais uma proposta vazia da direção da Apeoesp.

terça-feira 12 de abril de 2016| Edição do dia

Imagem: PETER LEONE/FUTURA PRESS/FOLHAPRESS

Com cerca 1,5 mil pessoas, claramente a assembleia nem de longe expressou o descontentamento profundo dos professores com o salário de miséria, com a longa lista de falta de recursos nas escolas (papel higiênico, impressora, materiais de papelaria básicos, giz – isso mesmo, giz!), com as salas superlotadas, com a falta de merenda pros alunos, além das declarações absurdas do secretário de educação José Nalini, que chegou a cúmulo de dizer que já está provado que o Estado não pode arcar com a educação, ou seja, quer privatizar a educação! Isto porque a direção da Apeoesp nada fez para de fato construir a assembleia a partir de um diálogo real com a base, esta que há muito tempo já não acredita no sindicato, por responsabilidade total da sua direção que não quer os professores realmente se mobilizem e dirijam suas lutas, como estão fazendo os professores do Rio de Janeiro a mais de 100 dias em greve e com oito escolas ocupadas pelos alunos, e os municipais de Contagem-MG.

Porém, ao contrário de como justifica a Articulação Sindical, chapa ligada ao PT que é majoritária na diretoria, há sim dentre os professores a disposição de luta, como vem mostrando as iniciais manifestações por regiões nas últimas semanas na zona norte e em Campinas. O que não há é uma direção sindical que politize a raiva, organize a categoria e unifique as lutas; que mostre aos professores que a união com os alunos que dobraram o governo ocupando escolas em defesa da educação pública, e que também estão se mobilizando atualmenteem defesa da merenda, é a via pela qual podemos ser vitoriosos na defesa de nossos direitos e do conjunto da educação. Justamente por isso que nossa assembleia estava pequena. O que é um problema ainda maior em meio ao cenário nacional de crise política e econômica em que nos encontramos.

De um lado, o governo federal do PT quer aprovar cada vez mais ajustes. Dentre eles, está o corte anunciado de R$ 21,2 bilhões da educação e da saúde. Há ainda o Projeto de Lei 257/2016, que prevê repasse de verba aos estados em troca de que estes congelem os salários dos servidores públicos e não realizem novas contratações. Por outro lado, o governo Alckmin, que não reajusta nosso salário há dois anos, lançou uma política clara para dividir a categoria. Propôs que os professores decidissem o destino do valor à disposição para o bônus ($500 milhões, metade em relação ao ano passado): se queriam receber o bônus ou um “reajuste” de 2,5%, e inclusive lançou uma pesquisa oficial para que qualquer uma das medidas tomadas fosse legitimada pelos professores. Seu objetivo era claro, dividir as escolas e períodos que conseguiram alcançar os (duvidosos) índices do Idesp daquelas que não conseguiram e também dos aposentados.

É em meio a esse cenário que saímos de mais uma assembleia rotineira, na qual não se aprovou nenhum plano de luta sério para de fato derrotar os ataques do governo Alckmin. E sem organizar uma mobilização de fato independente dos professores contra os ataques do governo do PT, e contra o reacionário impeachment que a direita está orquestrando. Mesmo sobre este tema, que a direção da Apeoesp tanto pauta em suas falas, mas nada faz de concreto pois treme de medo de que surja uma real mobilização do conjunto dos trabalhadores para barrar pelas suas próprias mãos.

Por outro lado a Oposição adota a postura seguidista da direção majoritária de não articular uma mobilização independente dos professores. A exemplo, disso está o PSTU que utiliza a única fala na assembleia destinada à Alternativa para defender sua política nefasta de Fora Todos, que faz coro com os setores reacionários que querem a derrubada do governo do PT pelas mãos da única força política capaz de nesse momento articular esse movimento: a direita, a FIESP, ou seja, os patrões! Sem ao menos propor uma política que pudesse canalizar o nível de descontentamento dos professores para de fato se apresentar como alternativa ao professorado paulista.

OS ESTUDANTES SE FIZERAM PRESENTES

O fator nada rotineiro da assembleia foi a presença de um número importante de secundaristas, que vieram para expressar seu anseio por uma luta unificada: “o professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!”. Pediram fala no caminhão, lhes foi negado. Mesmo assim, cortaram a fala de Bebel Noronha, a rainha do microfone, com um jogral em defesa dos professores e da luta unificada.

Após o encerramento da assembleia, Adrielli Melgis, estudante secundarista e militante da Faísca – Juventude Anticapitalista e Revolucionária, conseguiu subir no caminhão de som, pegou o microfone, disse que todos deveriam ter o direito de falar na assembleia e jogou o microfone para os estudantes que estavam lá. Os secundaristas começaram a ler um texto fazendo jogral e no momento que criticaram a falta de merenda nas escolas municipais de São Paulo, que tem Haddad/PT a frente tiveram o microfone cortado pela burocracia da APEOESP. Os alunos, enraivecidos com a burocracia do sindicato, pediram para terminar de falar e foram rechaçados pelos bate-paus (pagos pela burocracia), com chutes, cuspes e empurrões.

Está mais do que dado que essa direção do sindicato não dá mais. Ela é o problema, que usurpa a nossa ferramenta de luta que é o sindicato em prol dos seus próprios interesses e privilégios e que usa politicamente para defender o governo de seu partido, que é indefensável. Precisamos confiar em nossas forças, organizar uma mobilização pela base e unida aos alunos, para enfrentarmos o governo estadual e o federal. E para sim, retomar o sindicato para as nossas mãos, para que a partir dele consigamos ter ainda mais força.




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