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Roberto Menezes: “Os refugiados acabam se incorporando a um grande contingente de desempregados nos países que os recebem”

Caio Rosa

Roberto Menezes: “Os refugiados acabam se incorporando a um grande contingente de desempregados nos países que os recebem”

Caio Rosa

O Ideias de Esquerda entrevistou Roberto Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Nesta entrevista, abordamos os possíveis impactos da reacionária Guerra da Ucrânia no mundo do trabalho, no preço dos combustíveis, bem como os possíveis efeitos de longo prazo das sanções imperialistas contra a Rússia. Dentre as áreas de pesquisa do nosso entrevistado estão a economia política internacional e a desigualdade global. A entrevista foi concedida a Caio Rosa, estudante de Relações Internacionais na UnB.

Ideias de Esquerda - As consequências da crise de 2008, agravadas pela pandemia, estão gestando um profundo processo de reestruturação produtiva, como podemos ver na precarização do trabalho, na uberização, destruição dos direitos trabalhistas etc. Diante disso, como o senhor vê os possíveis impactos da guerra na Ucrânia no mundo do trabalho?

A reestruturação produtiva começou a tomar forma a partir dos anos 1970 no bojo da crise de superacumulação no capitalismo desenvolvido. A resposta das corporações e dos Estados centrais, sobretudo, dos Estados Unidos, foi o que se conformou como sendo a globalização e o neoliberalismo. Assim, a terceirização da mão de obra, o enfrentamento aos sindicatos, a desregulamentação do mercado de trabalho e a destituição dos direitos sociais atingiu em cheio o mundo do trabalho. Desde então a precarização das relações de trabalho e as tentativas do capital em converter o trabalho em uma mercadoria não cessaram. Com a crise de 2008, novamente a resposta foi financeirizar mais ainda as economias com a consequente captura dos orçamentos públicos. Então a emergência do capitalismo de plataforma tem "popularizado" os serviços via aplicativo, mas sem a contrapartida do reconhecimento de que os entregadores/as prestam de fato serviço a essas big techs (Uber, Rappi, Ifood entre outras) e cumprem jornadas parecidas com as de meados do século XIX. Por outro lado, o Estado realizou intervenções para assegurar o funcionamento do capitalismo tanto na crise de 2008 como na pandemia. Porém, sempre em favor do grande capital. No Brasil temos desde 2016 a Emenda Constitucional 95 que é o pilar da austeridade que vem sendo implementada desde a crise de 2008: primeiro na Grécia, depois em Portugal, Irlanda e nos demais países da semi-periferia e da periferia. A Guerra na Ucrânia está elevando os preços dos alimentos e da energia em todo o mundo. E os refugiados acabam se incorporando a um grande contingente de desempregados nos países que os recebem e que não encontram, na maioria das vezes, condições dignas de trabalho.

IdE - Poderíamos dizer que o capitalismo “adiou” o problema da crise do choque do petróleo nos anos 70 com uma profunda financeirização da economia e um aumento gigantesco das dívidas públicas, o que foi levado a cabo pelo neoliberalismo. A crise de 2008 demonstrou a profunda decadência desse modelo. Diante do enorme aumento dos preços dos barris de petróleo, cujo barril recentemente beirou os U$140 no caso do Brent, é possível fazer algum paralelo da atual crise, em face à guerra na Ucrânia, e a crise do choque do petróleo dos 70?

Como o petróleo é uma commodity então o preço dele está sujeito a oscilações bruscas. No início da pandemia o barril do tipo brent chegou a ser cotado abaixo de vinte dólares devido a baixa demanda por energia em função da quase paralisação da economia mundial. Nos anos 1970, o choque do petróleo representou o fim da energia barata no mundo. E a saída foi tentar diversificar tanto as fontes fornecedoras como pesquisar alternativas de fontes, sobretudo, as renováveis. Isso empurrou o Brasil para o desenvolvimento do programa pró-álcool, os biocombustíveis em seguida e agora para a energia eólica e solar. A Guerra da Ucrânia parece acelerar a consciência de que é preciso investir na transição energética. Em 1991, quando os EUA liderou uma coalizão de 30 países para atacar e destruir o Iraque, começaram a comprar mais petróleo da Indonésia, da Rússia, da Venezuela (que sofreu um golpe de estado em abril de 2002, mas conseguiu revertê-lo) e do México. A Europa Ocidental e o Japão é que continuaram dependendo do petróleo do Golfo Pérsico. O fato é que o petróleo e o gás da Rússia não foram incluídos nas sanções anunciadas pela maioria dos países europeus pelo simples fato de que não possuem alternativas viáveis para suprir a sua demanda. Quem poderia impor uma novo choque do petróleo, isto é, elevar o preço do barril para cerca de 150 dólares e mantê-los lá até que a guerra termine seria os países membros da OPEP, mas isso sofreria a resistência dos Estados Unidos e poderia levar a um novo confronto entre a OPEP e os EUA, ladeados pela Europa e o Japão.

IdE - Estão sendo impostas várias sanções pelos países imperialistas, como EUA e UE, em relação à Rússia pela promoção dessa guerra reacionária. No entanto, essas sanções têm consequência sobretudo para os trabalhadores e o povo pobre russo, além de afetar profundamente as cadeias de produção e circulação global. Diante disso, como o senhor avalia os impactos econômicos, a curto e longo prazo, das sanções no Brasil e no mundo, e também o surgimento de possíveis crises?

As sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e acompanhadas, em sua grande maioria, pelos europeus, pelo Canadá, Japão estão levando a economia russa para um provável colapso. A retirada do status de nação mais favorecida da Rússia na OMC além de inédita é uma sanção duríssima, pois deixa a economia russa à mercê dos seus parceiros comerciais. Como a Rússia exporta matérias primas que são cruciais para o agronegócio e a indústria de tecnologia e automobilística, por exemplo, então há um risco de paralisação de parte das cadeias globais de suprimento. As sanções sempre afetam a população, em especial, a mais pobre. Vimos isso no Vietnã, no Iraque, em Cuba e no Irã. Mas parece que agora temos uma nova geração de sanções que isolam econômica, financeiramente e diplomaticamente as nações. Isso sem dúvida será utilizado contra outras nações mais à frente. E é mais uma forma de submeter os países e relativizar a sua soberania. O Brasil até o momento não foi afetado diretamente pela recusa da Rússia em fornecer fertilizantes para países que estão impondo sanções à ela. É o caso da Índia também. Até o momento, o país está fora da lista de países que foram retaliados pela Rússia. Porém, a alta do preço do barril do petróleo injeta mais dinheiro nas ações da Petrobrás e ao mesmo tempo aumenta o custo de vida e a inflação de toda a população, principalmente dos mais pobres.


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Caio Rosa

Estudante de Relações Internacionais na UnB
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