Sociedade

CRIME AMBIENTAL

Resposta ao Estadão e ao Projeto Comprova sobre os barris com a marca Shell e o óleo no Nordeste

Respondemos uma matéria publicada no Estadão, do "Projeto Comprova", que questiona a veracidade de um artigo do Esquerda Diário sobre a ligação entre os barris com os rótulos da Shell e as toneladas de petróleo bruto que contaminam as praias do Nordeste.

sexta-feira 25 de outubro| Edição do dia

O Estadão Publico nesta quarta-feira, 23, uma matéria assinada pelo Projeto Comprova, afirmando que uma publicação feita pelo Esquerda Diário era enganosa. Em tal publicação, o Estadão afirmou que "É enganosa publicação que atribui à Shell responsabilidade pelo óleo encontrado em praias do Nordeste, referindo-se à um texto publicado no Esquerda Diário no dia 14 de outubro. Afirma o Estadão:

Segundo a publicação [do Esquerda Diário], o laudo indicaria que o “óleo vazado no Nordeste é da Shell, amiga do ministro Sergio Moro (Justiça e da Segurança Pública) e do presidente Jair Bolsonaro (PSL)".

Esta citação feita pelo Estadão, não pode ser mais encontrada no nosso site desde a data de publicação daquele artigo, no mesmo dia 14. É impreciso atribuir o que estava dentro do barril à empresa dona do rótulo do barril, coisa que o laudo da UFS, que não foi publicado na íntegra em nenhum meio de comunicação, não faz, e isso foi corrigido na matéria citada.

Esta mesma acusação que afirma a ligação da Shell aos vazamentos também foi feita por inúmeros outros meios, assim como pelo próprio ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que cobrou explicações da Shell através do Ibama.

O Estadão, no entanto, preferiu a polêmica Esquerda Diário, um meio de informação independente e financiado por jovens e trabalhadores. E isso não é fortuito, junto de críticas factuais o órgão de imprensa tenta tratar seus posicionamentos políticos como fatos.

Na mesma matéria, o Estadão pergunta: A Shell realmente é “amiga de Moro e Bolsonaro”? E a resposta eles mesmos dão: "A associação parece partir do fato de a Shell ter sido uma das maiores vencedoras nos leilões do pré-sal feitos no governo Michel Temer (MDB), em 2017 e em 2018, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Com Temer, as petrolíferas estrangeiras viraram donas de 75% das reservas do pré-sal segundo cálculo da Federação Única dos Petroleiros, publicado em 2018, cálculo que já deveria ser alterado (e para uma porcentagem maior desde então). Se isso não é o preço amargo do golpe, o que seria? Fazendo uma apologia, o Estadão se refere à Lava Jato como operação que "desvendou um amplo esquema de corrupção na empresa". Fato, com seus métodos e objetivos como está comprovado hoje em dia depois dos vazamentos do Intercept, e a operação não jogou luz em outros, como mais de uma vez este Esquerda Diário questionou mas a grande imprensa não. Por exemplo, nenhuma operação da Lava Jato foi conduzida na maior diretoria da Petrobras, a com mais vastos recursos, responsável por mais de 70% do faturamento da estatal. A área de Exploração e Produção, tinha uma “governança” melhor? Ou a operação optou por não desvendar esquemas em uma área que tinha como empresas terceirizadas não a Odebrecht, Camargo Correa mas Shell, Haliburton, Transocean, entre outras, perguntas que o Estadão nunca fez em matérias e não podem escapar a um jornalismo independente e crítico.

Grandes empresas internacionais que funcionam tanto através inúmeras formas de se comprar os políticos, assim também com a pressão econômica interferindo nos governos através de ameaças de desinvestimento e fuga da capitais, ou ainda atuando usando todos os meios sujos possíveis como a espionagem, o treinamento de agentes internos como o judiciário, a utilização de meios de comunicação para propagar as suas agendas, etc. O jornalismo “factual” que nos questiona não indaga a relação do que a operação investigou, do que ela não investigou, com os documentos da embaixada americana que citam Sérgio Moro em treinamento “anti-terrorismo” e como combater a lavagem de dinheiro, não se indagam da relação desses temas com a espionagem promovida no Brasil durante o governo Obama que teve como alvo a presidência da República e a própria Petrobras, e a relação de tudo isso com as vencedoras dos leilões e intenso lobby pela privatização da Petrobras e do petróleo, lobby que o próprio Estadão faz parte.

Tudo isso, o Estadão e o Projeto Comprova poderiam concluir à partir de fazer um jornalismo investigativo, lidando com fontes concretas como o vazamento do Wikileaks segundo o qual o Departamento de Estado americano criou um curso para treinar Moro e juristas brasileiros.

E afinal, qual é a hipótese do Estadão acerca do crime ambiental ocorrido no Nordeste?

O jornalismo investigativo deveria servir para desvendar isto, especialmente quando não há aparente intenção oficial de desvendar o crime que assola o litoral brasileiro. O Estadão não parece interessado em fazê-lo. É mais interessante para eles dizerem que veio de Cuba ou da Venezuela, como dizem no final desta matéria publicada também nesta quarta-feira?O Estadão tem em mãos o laudo da Marinha e o da Petrobras que supostamente vinculam o derramamento a petróleo venezuelano, qual o grau de certeza do estudo? Por que ele não é público?

Saber as causas e as origens das tragédias são fatores cruciais para mitigar seus danos bem como para impedir sua repetição, aprender lições na prevenção, como dizem todos manuais e o bê-a-bá de segurança do trabalho e ambiental. Que as informações existentes não sejam públicas constituí um desserviço ao jornalismo, ao conhecimento, ao país. Cabe a um jornalismo crítico indagar isso.

Mas não farão nada disto, esse não é o objetivo do “Comprova” e do Estadão. E isto deixam claro, porque em seu website, o Projeto Comprova declara que é "um projeto que reúne jornalistas de 24 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas do governo federal compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens."

Vejam, se trata de conduzir investigações para blindar Bolsonaro e outros governantes de Fake News contra eles. O interesse e compromisso do Esquerda Diário é com a verdade, seu conhecimento ajuda à crítica e superação. Correções às matérias serão devidamente feitas, como no caso citado no começo da matéria. Mas dito isso, chama a atenção o desenho do projeto e o uso político dado pelo Estadão. Por que o objeto de verificação do “Comprova” é exclusivamente “governista”? Dessa forma, não há nenhum esboço de isenção e paridade em como desenham seu objeto. Trata-se de um instrumento pró-majoritário e não contra-majoritário.

Por fim, mostrando como esse instituto dos grandes jornais brasileiros tenta usar fatos para vender suas opiniões políticas privatistas citamos um segundo caso que o mesmo instituto acusou o Esquerda Diário. Desta vez ocorreu na Folha de São Paulo. Neste caso acusaram de falsidade [nossa matéria que afirma de “quase metade do petróleo brasileiro vai ser entregue” porque nosso cálculo que dava 45%, logo o título “quase metade”, levava em conta a produção de 2018 e não a projeção de produção de 2019 que resultaria em 28%. Outro argumenta que utilizaram para acusar a falsidade seria que não se sabe ainda se a Petrobras sairá perdedora do leilão agendado para 6 de novembro. Não? Não se trata de previsão astronomicamente precisa de qual porcentagem de perda mas de argumento político e crítico sobre a privatização de riquezas nacionais, e o Instituto tenta vender sua posição como se fossem fatos, e as críticas “falsidades”. Chega a ser tão forçado o seu argumento pró-privatista que inclusive a postagem da Folha tem vários comentários de usuários ironizando a matéria.

Com esta crítica renovamos nossa busca por estabelecer um jornalismo militante, ancorado em fatos, que explicite suas posições, e que tenha não somente radical independência de governos e empresários, mas também tenha um radical compromisso não somente com a verdade tão habilmente omitida por certos profissionais a soldo empresarial e de governos, mas por fazer dia a dia um jornalismo que milite pelo conhecimento da realidade e por sua integral transformação.




Tópicos relacionados

Vazamento de óleo no Nordeste   /    Mídia   /    Sociedade

Comentários

Comentar