Juventude

RESPOSTA À SUPERINTERESSANTE

Resposta à polêmica da Superinteressante com o movimento estudantil

quinta-feira 14 de abril de 2016| Edição do dia

O editor-geral da revista Superinteressante, da “isenta” Editora Abril, dedicou algumas linhas para se meter na polêmica entre o Instituto Liberal de São Paulo, dirigido pelo ex-colunista da Veja (também da Abril) Rodrigo Constantino e as ideias da Faísca – Juventude Revolucionária e Anticapitalista – particularmente meus vídeos e artigos em meio à polêmica que tem se desenvolvido.

Ao contrário de desenvolver algo “interessante”, o que se viu foi mais um desfile do senso comum pró-EUA e um ‘economês’ que não explica nada, que serve somente para a manutenção do status quo. Como não podia deixar de ser o caso, tal como seu parceiro Constantino, vomita xingamentos porque o incomoda ver mulheres revolucionárias e também porque lhe faltam argumentos. É um funcionário em defesa do status quo, assim como cachorros ladram em defesa da propriedade – que nunca é deles mesmos, mas de seus “donos”.

A revista, conhecida por tentar achar pontos científicos para explicar milagres bíblicos e excentricidades, saiu de seu cenário comum. Seus leitores protestaram no blog do editor que aquilo não era matéria para a revista, e criticaram por omissões em seus argumentos. Também houve aqueles que, tal como o ILISP, aplaudiram por fornecer mais argumentos privatistas (no caso sobre a Petrobras). Nos dedicamos aqui a rebater rapidamente a sapiência do editor da revista, fartamente financiada por grandes empresas e por patrocínios de estatais; ao contrário de nosso Esquerda Diário, onde escrevem diversos militantes da Faísca, financiado exclusivamente pelo esforço militante de seus colaboradores e editores.

O editor da Superinteressante centra sua resposta em argumentos críticos que são funcionais à defesa da privatização da Petrobras, de Sérgio Moro, e do religioso pagamento da dívida pública em nosso país. Resumiremos seus argumentos: as ideias “do pessoal do Centro Acadêmico de Letras da USP” seriam conspiratórias por ver o Departamento de Estado americano por trás de parte do judiciário brasileiro, de interesses no petróleo e na Petrobras e por defender o não pagamento da dívida. Segundo ele, estas ideias seriam refutadas pelas seguintes provas: Obama proibiu a exploração de petróleo na costa atlântica de seu país. Um carro elétrico vende 300 mil unidades lá na terra de Tio Sam. O preço do petróleo está em baixa. Para ele, as maiores empresas do mundo são chinesas (bancos) que detêm títulos da dívida americana e que a dívida brasileira é interna, e seu não pagamento quebraria a economia nacional.

Vamos passo a passo tratar das “verdades” interessadas, mas poucos interessantes.

1) Em primeiro lugar, sem se dar nenhum trabalho de pesquisar nada, o editor se recusa a ver o que o Wikileaks mostrou. Os EUA treinam agentes do judiciário e da PF brasileira. Se recusa a lidar com a realidade de que Moro estudou no Departamento de Estado americano.

2) Os EUA proibirem a extração de petróleo em sua costa tem qual relação com querer explorar em outros locais? Como em forma grosseira diriam meus vizinhos de infância, o que a bunda tem a ver com as calças? Ou o editor ignora o acidente ocorrido lá? Ignora que esta é política histórica dos EUA no quesito petróleo, guardar suas reservas. O editor também nega que a Shell publicou matérias pagas mostrando seu interesse no pré-sal.

3) O editor ignora que os interesses no petróleo não são imediatos, mensuráveis pelo “interesse marginal” de hoje. Diferente dele e de outros economistas do mainstream, como seus amigos do ILISP (que defendem esta teoria de que nada explica), que querem entender o capitalismo por comportamentos psicológicos, os capitalistas se movem não só pelo interesse imediato. E um dos interesses da Lava Jato não é só o pré-sal ou o imediatismo, mas bombardear uma concorrente no monopolista mercado de navios-sonda. O que ajuda a entender porque um banqueiro, ex-capa da Forbes, foi preso na operação (André Esteves do BTG Pactual controlava a Sete Brasil, que entraria nesta concorrência e de quebra forneceria um bom dinheiro a políticos e empresários).

4) Só não vê “conspiração” na Lava Jato quem não quer ver, ou é pago para escrever outra coisa. Por que esta operação só estudou a área internacional, e a de refinarias da Petrobras, e a mais rica, a de plataformas ficou de fora? Será que aí iam se mostrar interesses ocultos, enlameariam compradores de amanhã?

5) O sucesso de vendas do Model 3, o carro elétrico, nos EUA, atingiu segundo ele a quantidade de 300 mil carros vendidos. Algo muito substancial, desde que se ignore que em 2015 foram quase 18 milhões de carros vendidos nos EUA. As vendas do Model 3, segundo as cifras dele, significaria então potentes 1,71% do mercado americano. Realmente uma tendência majoritária, não é? E nosso interessado e desinteressante editor ignora as cem mil utilidades do petróleo em nossa economia, das termelétricas aos pneus e outros componentes do carro que ele usa de argumento.

6) Nosso economista interessado deve usar um ranking de valor de mercado (nas ações) para medir as maiores empresas, e não seu faturamento, seus ativos, ou quanto seus ativos controlam. Seguramente, já ouviu falar de gigantescos fundos de investimento, como a Blackstone, entre outras, maior acionista da Shell, da Microsoft, da Google. Mas como ele é interessado e não interessante, resolve ignorar a realidade em seu afã polêmico. Pela revista de nosso editor liberal, deveríamos crer que o Brasil e a China mandam na economia mundial mais do que os EUA.

7) A maior parte da dívida brasileira, hoje em dia, é interna. Fato. O capitalismo se mundializou, rompeu barreiras no fluxo de capitais entre os países. Mas nosso “caneta paga” omite de seus leitores que uma porcentagem desta dívida interna brasileira está atrelada ao dólar e a sua variação, mesmo que emitida aqui. E também ignora que mesmo que emitida aqui a dívida é em grande parte controlada por investidores estrangeiros. Mais que ninguém nosso polemista defensor do neoliberalismo deve saber que, para o fluxo de capitais, as últimas décadas borraram um pouco estas fronteiras. Nosso polemista também ignora em seu texto a explicação de que 43% da receita federal é gasta com a dívida. Isto mesmo, 43% de todos os impostos que cada brasileiro paga vai para a dívida, e não para a saúde ou para a educação. Mas isto pouco lhe importa.

E, claro, nosso polemista acha que, tal como sua crença nas coisas mágicas da economia, que a psicologia explicaria seus altos e baixos; nossa proposta seria de excentricidade mágica como as suas próprias ideias. Encaramos nossa proposta de “não pagamento da dívida” como parte de uma série de medidas que exigem um efetivo controle da economia pelos trabalhadores, como a nacionalização dos bancos, controle do comércio exterior e do fluxo de capitais para que os mil vasos comunicantes (e de pilhagem) sejam estancados e possam-se usar os muitos recursos.

Ignorando o que há de “interessante” na realidade que revela interesses mais profundos na Lava Jato, ignorando a sangria de recursos pela dívida pública, nosso polemista se coloca a serviço de defender a privatização da Petrobras, a serviço de um olhar acrítico à Lava Jato e para erguer em lei bíblica o pagamento da dívida. “Verdades eternas” que podem até lhe garantir o posto de editor de uma revista do grupo Abril, mas não são ideias nada novas ou interessantes para atender às reais necessidades dos trabalhadores e da juventude.

São ideias do status quo. No Centro Acadêmico, nas escolas, nas fábricas, queremos subvertê-lo. Por isto estão saindo de seu “quadrado” e estão polemizando conosco. A juventude quer conhecer e transformar o mundo. Nossos polemistas querem levá-lo de volta ao tempo em que não havia leis trabalhistas. Querem o século XIX. “Somos os filhos da revolução”, dizem os secundaristas do Rio que agora ocupam escolas. A juventude no mundo todo começa a questionar o capitalismo. A Abril pode não ver isto. Eu, em minha modesta ignorância portadora de ideias infantiloides, segundo a Superinteressante, acho que isto ficou escancarado em nosso país em junho de 2013. Quem não quiser ver isto, não veja! Nossa faísca, com ideias, com militância, vai contribuir para o incêndio.




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