Sociedade

VIOLÊNCIA POLICIAL

Rendido, suspeito desarmado e no chão é morto por PM em SP

Fernanda Peluci

Metroviária de São Paulo e militante do Movimento Nossa Classe e Pão e Rosas

sexta-feira 30 de outubro de 2015| Edição do dia

O sargento Marcos de Souza foi preso depois de ser denunciado por um tenente como autor da execução de David Samuel Alves da Silva, de 23 anos, em Itaquaquecetuba, São Paulo, que no momento da execução estava desarmado, rendido e deitado no chão. A prisão em flagrante havia sido feita por policiais militares do 35º Batalhão. Na quarta-feira, 27, o policial teve a prisão temporária prorrogada por mais 30 dias pela Justiça Militar.

Segundo as investigações, o policial atirou depois de receber uma ordem para algemar e levar o rapaz para a viatura, a fim de conduzi-lo à delegacia. Este é o quinto caso envolvendo PMs suspeitos de execução nos últimos três meses, sem contar os casos que não são relatados pela mídia, ou que diretamente são acobertados pela Polícia Militar.

A Corregedoria da Polícia Militar afirma que David Samuel, de 23 anos, dirigia uma Captiva roubada no limite de Itaquaquecetuba com a zona leste de São Paulo, quando foi localizado pelos policiais. A perseguição só terminou depois que o suspeito pela polícia bateu o carro e fugiu a pé em direção a um matagal, perto de um campo de futebol. Segundo as investigações, Silva foi cercado e se rendeu. Ele entregou uma arma para o sargento e deitou no chão com as mãos visíveis, rendendo-se à polícia.

Na presença de outros policiais, um tenente deu ordem para o sargento Souza algemar e levar o preso para a viatura. Mas, quando o oficial se virou, o policial deu dois tiros nas costas do assaltante à queima roupa, que morreu na hora. A primeira versão apresentada pelos policiais no boletim militar diz que Silva morreu depois de uma "troca de tiros", como é de costume da Polícia Militar acobertar o abuso de sua autoridade nas ruas cotidianamente. Mas, antes de registrar o caso na delegacia, o tenente responsável pela equipe admitiu a outros oficiais que o sargento executara o suspeito desarmado e já rendido.

A Corregedoria da PM foi chamada e apurou que o sargento Souza, depois de matar o assaltante, ainda falou para o tenente registrar o caso como intervenção policial seguida de morte. "Chefe, qualquer coisa, foi troca de tiros", teria dito. Segundo a investigação, a postura do PM teria intimidado os colegas e, por isso, ele não foi preso em flagrante por homicídio.

Uma eventual conivência por parte dos outros PMs ainda é investigada. A Corregedoria ainda aguarda a conclusão de laudos balísticos e necroscópico, além de depoimentos de mais testemunhas. A prisão do sargento é por mais 30 dias.

Dos casos que chegam ao domínio público de assassinatos feito por policiais militares, podemos recordar aqui alguns divulgados pela mídia nos últimos meses em São Paulo: Em 13 de agosto, 19 pessoas morreram e 5 ficaram feridas, em Osasco e Barueri, na maior chacina da história., dos quais seis policiais militares e um guarda-civil estão presos por suspeita de participação nas mortes em série. Em 7 de setembro, mais dois jovens suspeitos de roubar uma moto foram perseguidos e mortos por PMs, no Butantã, na zona oeste. Um deles foi preso e jogado de cima de um telhado. Depois, acabou morto com dois tiros. O outro foi algemado e dominado na rua, e depois também foi executado. Seis PMs estão presos. No dia 11, quatro jovens entregadores de pizza foram executados, em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Segundo a Corregedoria da PM, o grupo foi morto porque teria roubado a bolsa da mulher de um policial militar. Quatro PMs estão presos. Em outubro, dois policiais militares foram presos depois acertar um tiro na nuca de um vigia, na zona leste, e registrar o caso como atropelamento.

Estes são alguns dos casos que foram divulgados na mídia onde os policiais estão sendo detidos pela Corregedoria e investigados pela mesma. Todos os "suspeitos" pela polícia nos casos apontados não tiveram o direito de se defender e colocar sua versão dos fatos, sendo brutalmente assassinados pela mesma. Mas e aqueles casos em que a versão do "qualquer coisa, foi troca de tiros" é aceita pelo seus tenentes e diretamente acobertada pela instituição da Polícia Militar do Estado de São Paulo? Onde estão sendo divulgados? A polícia, esta instituição racista e assassina, que diariamente suja suas mãos de sangue dos trabalhadores e do povo pobre, nas ruas de São Paulo e de todo o país atua forjando confrontos todos os dias para se livrar dos crimes de abuso de poder contra a população pobre e negra.

A impunidade da Polícia Militar está cotidianamente presente na sociedade, principalmente nas favelas e morros do Brasil. A regalia que a polícia possui de ser investigada por ela mesma, coloca esta instituição num patamar privilegiado acima de qualquer outro cidadão comum. Ou seja, os tribunais especiais da polícia que julga os crimes cometidos por ela própria estão longe de serem livres de acobertamentos de crimes como o que aconteceu com David, em Itaquaquecetuba. A polícia brasileira é a que mais mata no mundo, sendo que entre os mortos, a maioria são pessoas que já se renderam, que já estão feridas e são mortas sem uma advertência que permitisse que o suspeito se entregasse, como já viemos denunciando no Esquerda Diário. Se faz urgente questionar o poder desta instituição racista e assassina, e acabar com todos os seus privilégios e com todas as forças repressivas!




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