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Reitoria da USP promete mais ‘inclusão’ para frear possível greve estudantil

Também, após duas rodadas de discussão no CO (Conselho Universitário), feitas de portas fechadas para centenas de estudantes e trabalhadores que protestavam fora do prédio, a Reitoria indicou a intenção de estabelecer um programa até junho deste que utilizaria o ENEM para preencher 15% das vagas, as quais seriam selecionadas através do SISU (Sistema único de Seleção Unificada).

André Bof

São Paulo

terça-feira 28 de abril de 2015| Edição do dia

Sob o nome de “Programa unificado de bolsas de estudo para estudantes de graduação”, o novo programa unificado promete oferecer 25% mais bolsas de permanência, vinculadas as áreas de pesquisa, cultura, ensino e extensão a serem oferecidas nas Unidades de ensino, mediante a inscrição dos estudantes em projetos de professores. A estimativa é que chegue a 6 mil bolsas.

A Reitoria, indicando sua intenção de “fomentar o engajamento dos estudantes com a atividade-fim da Universidade e com a investigação científica”, exige que haja dedicação de 40 horas mensais e estabelece o valor de 400 reais para as bolsas.

Em meio a um movimento estudantil que surge em questionamento a completa inexistência de políticas reais que ampliem o acesso na Universidade e por cotas raciais, encabeçada por estudantes negros e, inicialmente, pelo movimento estudantil e diante da mobilização dos trabalhadores da USP contra o “desmonte”, a crise orçamentária e sobrecarga de funções, a Reitoria tenta se antecipar para evitar uma “confluência” de greves.

Os cortes hoje e ontem

A USP passado vive um processo de profunda incerteza e precarização.
Desde ano passado, frente a intransigência da Reitoria que tentou congelar salários concedendo um reajuste salarial de 0%, motivo pelo qual estourou a maior greve da história da USP com 4 meses de duração, a crise orçamentária tem sido o pretexto para cortes de bolsas, vagas na moradia e, mais recentemente, inclusive de creches.

Com a implementação do PIDV( Plano de incentivo a demissão voluntária), que demitiu mais de 1500 trabalhadores e impôs, o fechamento de um restaurante universitário e da creche da USP para novas vagas, parte da “contenção de gastos” da Reitoria de dirigiu diretamente contra as políticas de permanência estudantil , as condições de trabalho dos funcionários e os trabalhadores terceirizados.

Tal movimento, combinado a política de assédio em diversas unidades, tem feito a Universidade efervescer e levado os trabalhadores a resistir ao chamado “desmonte”, com unidades como a da Prefeitura parada há 19 dias e outras que já se articulam para o plano de lutas em sua data-base de maio.
Por outro lado, os estudantes, impulsionados principalmente pelo questionamento dos jovens negros dentro da USP, tem iniciado uma série de assembléias e discussões ao redor da questão do acesso que, como resposta, tem rumado a reivindicação central de cotas raciais e sociais como sistema de ingresso imediato na universidade.

Paralelamente a isto, inicia-se também, o debate sobre as formas de pressão necessárias para impedir o corte e arrancar mais políticas de permanência estudantil (bolsas, creches e moradia) que, para os estudantes de baixa renda, impõe um verdadeiro “segundo filtro” social, depois do vestibular, para se manterem na USP.

Os programas da Reitoria resolvem o problema?

A primeira vista, diante da escassez e dos cortes direcionados a permanência estudantil e bolsas, o salto de oferecimento de bolsas pode parecer uma política que responde as necessidades dos estudantes. No entanto, o problema é mais profundo e a própria característica destas bolsas o demonstra.

Tais bolsas, indicadas para estudantes de baixa renda, exigem uma dedicação de 40 horas mensais e oferecem uma remuneração de 400 reais para desenvolver projetos junto de professores nas unidades de ensino.

Para um estudante de baixa renda, que muito provavelmente necessita de moradia (que não quase possui vagas na USP) e outros auxílios, uma bolsa que oferece uma remuneração baixíssima de 400 reais, não pode ser considerada como um sério incentivo a “pesquisa e integração a atividade-fim da USP”. Muito provavelmente, para complementar sua renda ou pagar um aluguel, este estudante terá de trabalhar e, assim, de nenhum modo poderá se dedicar plenamente a pesquisa e ensino na USP.

Por outro lado, a continuidade da falta de políticas para moradia e creches impõe que outros milhares de estudantes sejam excluídos da USP, levando aos níveis altíssimos de evasão, na medida em que a Universidade, apesar de pública, segue sendo cara para os filhos da classe trabalhadora.

Da mesma forma, a proposta da Reitoria baseada na indicação de 15% de vagas a serem preenchidas pelo ENEM, não apenas vai contra os interesses dos jovens negros dentro da Universidade e dos estudantes em geral, que começam a se mobilizar, como se baseia no mesmo critério elitista da “meritocracia”.

Diferentemente das cotas, a seleção pela prova do Enem segue sendo um filtro que impediria aos jovens, negros, pobres e trabalhadores de terem uma vaga garantida na USP. Para entrar, teriam de “merecer a vaga”, sendo os “melhores colocados no ENEM”, o que criaria apenas outra forma dos jovens dos melhores colégios e cursinhos entrarem na USP.

A Reitoria, claramente, tenta antecipar seu “jogo de xadrez” buscando fazer concessões aos estudantes e impedir qualquer unidade com uma mobilização de trabalhadores.

Este objetivo central está orientado pelas dificuldades que sofrem os dirigentes da USP (que em nenhum momento cortaram seus salários de, em média, 25 mil reais para aliviar a crise), diante da uma forte greve do ano passado, uma mobilização unitária que já ocorreu nos últimos dois CO’s e a “sinuca de bico” em que está o governo estadual de Alckmin e PSDB, que sofre para fechar a greve de professores estaduais e que pode ter de responder a greve da USP e do Metrô ao mesmo tempo.




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