ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NA ARGENTINA

Reinvenção da esquerda?

As eleições argentinas de 2015

Gilson Dantas

Brasília

sábado 24 de outubro de 2015| Edição do dia

O exemplo mais frequente na história política da América Latina é o do partido de esquerda que cresce, ganha algum peso de massa, mas termina se adaptando ao jogo eleitoral ou funcionando como ala esquerda da política dominante e praticando colaboração de classe. Nos dois casos, claro, deixa de cumprir qualquer papel revolucionário.

Esse tipo de tradição de esquerda continua existindo, continua reaparecendo – na Europa também, a exemplo do Syriza, na Grécia, e do Podemos, na Espanha. É a esquerda mais-do-mesmo, que nunca se reinventa.

No entanto, eis que temos um fenômeno de novo tipo na Argentina, neste momento, e com uma massa de votos muito importante, e mais importante que tudo, sem se adaptar ao eleitoralismo. E sem descolar da classe trabalhadora, ao contrário, estimulando seu papel como sujeito, e lutando por sua independência de classe sem rebaixar o programa de luta.

Uma completa novidade dos nossos tempos: uma frente de esquerda classista, com o projeto de se constituir como espaço independente para a classe trabalhadora, organicamente integrada a suas lutas, contra toda política de conciliação de classe e que, sem abrir mão de tudo isso, ganha visibilidade em setores de massa.

Tudo ao contrário do Syriza que, para ganhar eleitores e, finalmente, chegar ao governo, praticou a política de adaptação de classe, finalmente se entregando às pressões do imperialismo alemão e traindo os votos que recebera.

Na Argentina estamos diante de outra coisa, de um novo fenômeno político e de um novo projeto estratégico da classe trabalhadora. Não é qualquer coisa. Considerando a tradição da esquerda brasileira, é nosso dever, no mínimo, chamar a que se pense e se debata sobre essa esquerda argentina e seu novo modo de fazer política operária.

De parte do PTS [Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo], que encabeça, naquela frente de esquerda, a chapa para presidente e vice, com Nicolas Del Caño e Miriam Bregman, o projeto é público e consciente: desenvolver uma corrente política marxista que se funda organicamente à vanguarda de luta dos trabalhadores e que, nas ações e no programa, jamais aceite diluir a presença operária. Consciente de que a patronal argentina – à semelhança da brasileira – prepara mais profundos ataques aos trabalhadores, o PTS se lança às eleições com uma enorme quantidade de candidatos operários, país afora, uma enorme quantidade de candidatas mulheres, e nos dois casos vinculados às recentes lutas sociais e greves argentinas, e praticamente todos eles integrando essa nova geração que desperta para a luta de classes.

Só da indústria de alimentos são 61 candidatos operários, da indústria gráfica são 50 [dos companheiros que ocuparam e puseram a funcionar a fábrica ex-Donneley], da zona norte de Buenos Aires, coração industrial da Argentina,são centenas de companheiros operários candidatos, do norte na Argentina um gari conta com 10% dos votos para governador, e a maioria dos combatentes do principal conflito operário de 2014 também estão concorrendo como candidatos [eles se destacaram em uma fábrica onde após demissão em massa enfrentaram a patronal em sete meses de luta, gerando o fenômeno conhecido como os “indomáveis de Lear”]. O candidato a presidente da República, Nico, foi alvejado por 9 balas de borracha quando bloqueava a principal pista do país, ao lado dos trabalhadores dessa fábrica, Lear. Dos candidatos em Buenos Aires, 70% são mulheres [ao passo que as demais legendas tiveram dificuldade para cumprir a lei dos 30% de mulheres]. E os exemplos poderiam continuar mais e mais.

Portanto não se trata apenas da presença de trabalhadores/as nas chapas e sim de toda uma camada jovem que se destacou nas lutas sociais e operárias recentes e que se apresenta na eleição em defesa das massas pobres, oprimidas, dos mais precarizados. Ou seja, se apresentam na condição de tribunos populares. A FIT é fruto de uma década de lutas sindicais antipatronais e antiburocráticas, que agora dão o salto através de seus principais referentes dentre os trabalhadores, as mulheres e a juventude em direção à militância política. Ela é resultado da luta de classes e não um invento eleitoral, que vem das alturas da política.

Sim, o parlamento e essas eleições são essencialmente burguesas, mas justamente a proposta e a prática dessa frente de esquerda [FIT] é outra; em vez de diluição eleitoral e muito menos ilusão parlamentar, trata-se, totalmente de um projeto estratégico de utilizar as superestrututuras – eleições no caso – para um objetivo estratégico: ganhar força material para potencializar a força de base, de organização fabril, de empresa e de rua, que se agrupe em corrente política, preparando-se contra os ataques da patronal, e se constituindo como a força que mais adiante possa dirigir a revolução social, proletária.

Contra o chamado “voto útil” da burguesia a frente de esquerda argentina, FIT, propõe voto nos seus candidatos como forma de concentrar forças, sobretudo as forças organicamente ligadas ao proletariado, para dotar à classe trabalhadora de uma potência política ofensiva de natureza estratégica.

Nada a ver com projeto parlamentar. E nem com a experiência tradicional da esquerda, que a cada nova geração apenas remasteriza uma política que nunca deu certo, que passa pela conciliação de classe, pela diluição programática, enfim, pela adaptação às regras do jogo da burguesia [o caso Allende, do Chile é exemplar a esse respeito].

Nesses termos, os companheiros argentinos estão retomando o legado do marxismo clássico, a defesa da independência de classe, de frente de esquerda de contornos delimitados, isto é, onde a classe trabalhadora se demarca em relação aos adversários que chegam com tintura de esquerda, sejam populistas ou o que for, mas não praticantes da independência política de classe. Seu discurso socialista vem desligado da estratégia de buscar levantar forças orgânicas na classe trabalhadora, na defesa da imediata integração do precarizado, por exemplo, de forma que não seja uma esquerda superestrutural apenas, esquerda sem tropas, testemunhal. O que se pretende na experiência da FIT é uma esquerda que sai do papel de observador de esquerda, mas que não renuncia ao programa classista para ganhar eleição.

Quando os candidatos defendem, nacionalmente, que todo político ganhe igual a um professor e que todo político seja revogável a qualquer momento, que as forças policiais e de espionagem sejam substituídas por comitês populares e proletários, quando defendem a escala móvel de salário e horas de trabalho [para garantir emprego para todos] e imediata incorporação sem concurso do precarizado/terceirizado, e usam as eleições para agitar tal programa, estão levando adiante a luta concreta pela união das fileiras operárias. E, dessa forma,enfraquecendo pela raiz os devaneios inevitáveis da direita, de recrutar sua massa de manobra na juventude, que é o que habitualmente faz, com algum êxito quando está diante de uma esquerda que não luta para unir os batalhões da classe trabalhadora. Como dizia Trotski, “a ideia de uma classe à parte, a classe dos desempregados, dos novos párias, é uma ideia que faz parte da preparação psicológica do fascismo”. E justamente a classe operária tem que se propor a superar essa divisão. E isso é parte de um projeto estratégico que tem que vem sendo traduzido em prática política e programática pelo PTS. Ao mesmo tempo em que pratica a solidariedade de classe a cada fenômeno da luta de classes e desenvolve o internacionalismo proletário prático [evidente nas páginas do La Izquierda Diário].

E é, ao mesmo tempo, uma retomada dos ensinamentos da III Internacional, de 1921, que procurava, nas suas teses sobre a tática, organizar partidos operários que saíssem do discurso e se unissem a cada luta cotidiana dos trabalhadores por menor que fosse.

Por isso a orientação do III Congresso daquela Internacional era clara:“Os comunistas cometem um erro muito grave se procuram se escudar no programa comunista e na futura batalha revolucionária final para adotar [hoje] uma atividade passiva e negligente, ou mesmo hostil, em relação aos combates cotidianos que os operários levam adiante atualmente para conseguir melhoras mesmo que pequenas, em suas condições de trabalho. Por mínimas e modestas que sejam as reivindicações pelas quais o operário, está disposto já hoje a se enfrentar com os capitalistas, os comunistas nunca devem usar isso como pretexto para se manter à margem do combate. Nossa atividade agitativa não deve levar as pessoas a pensarem que os comunistas são instigadores cegos de greves estúpidas e outras ações insensatas, mas em todo lado devemos merecer, entre os operários militantes, o reconhecimento de sermos os melhores camaradas de combate”.

Este é o espírito essencial com que o PTS, na cabeça de chapa da FIT nestas eleições, se empenha, coisa que já constitui sua prática no cotidiano da luta de classes. E isso é, sim, reinventar a esquerda, retomando o que ela tem de clássico (clássico e atual), e cujo abandono levou a tantas derrotas desnecessárias.
Quando falamos em reinvenção da esquerda o fazemos ao constatar que o papel do PTS na FIT vem sendo o de levar uma linha de trabalho e estabelecer no concreto histórico, a prática política que repele alianças programáticas com o governismo, com a oposição burguesa, mas também com correntes de esquerda só de nome; o PTS tem promovido alianças de rua com a esquerda em luta, nas trincheiras de lutas sociais, fabris, estudantis, camponesas, mas repele toda aliança programática contra os interesses da classe trabalhadora.

É, sim, uma novidade. Tudo ao contrário do chamado “modo petista de militar”, nosso conhecido, que reproduziu o sindicalismo como ele é, burocratizado e com suas alianças contrárias aos interesses gerais da classe trabalhadora.

Vejamos outro exemplo, o da frente de esquerda na Grécia, o Syriza. O que aconteceu na Grécia? Por que aquela esquerda é o anti-exemplo? Na Grécia, em tempos recentes,no bojo da crise dos partidos reformistas e da crescente bronca popular anti-“ajuste”, anti-“austeridade”, surgiu uma frente de “esquerda radical”, que rompeu com a esquerda tradicional, capitalizou os protestos populares, as greves gerais, cresceu rapidamente no voto, conseguiu chegar ao governo e foi o fracasso que se conhece: aquela “esquerda radical” (de fato reformista) acaba de entregar a Grécia à Alemanha de Merckel (ao imperialismo) e, por outro lado, apesar do apoio eleitoral maciço de milhões de trabalhadores e juventude, mostrou que não dispunha de nenhuma tropa, isto é, nenhuma organização operária ou de juventude que fosse forte, de base, para poder resistir e partir para a ofensiva (melhor dizendo: Syriza nunca teve o projeto de se fundir organicamente à classe trabalhadora).

Nesse caso não deixa de ser uma lição sobre a esquerda historicamente tão conhecida nossa portanto: esquerda de palavra, de propaganda até marxista, socialista, mas que no fim se adapta à ordem, leva as lutas operárias à derrota. E a experiência Syriza deixa mais que claro que apenas com o voto não conseguimos mudar nada e, sobretudo, a outra face da mesma lição: seu programa era reformar o capitalismo grego e sua estratégia de gerenciar o capitalismo, eis a tradição que precisa ser superada.

A ideia fundamental que o PTS procura desenvolver como parte da frente de esquerda, da FIT, é a de levantar uma ferramenta política da classe trabalhadora que – na prática cotidiana - não concilie com o lugar de onde vêm os ataques contra os direitos trabalhistas e com todas as forças que, sendo da esquerda, oscilam e vacilam na defesa intransigente da classe trabalhadora em defesa das suas demandas, sejam do trabalho, sejam de gênero ou todo tipo de discriminação e opressão e contra qualquer ataque, na prática cotidiana, que seja de natureza anti-operária e anti-democrática.

Portanto, não se trata do voto. Mas do voto, neste caso, para o objetivo deforjar uma militância organicamente ligada às fábricas, às lutas sociais, às ocupações e greves, e que saiba usar o resultado e a localização eleitoral para arregimentar e agitar mais forças que lutem pela democracia de base [contra a burocracia sindical], e uma esquerda que trata de cumprir suas promessas de campanha, portanto nunca aceitando qualquer política de colaboração de classe e nem atribuindo ao parlamento qualquer papel revolucionário, que ele não pode ter.

Ou, nas palavras de Daniel Tupinambá: “Para verdadeiramente impedir os ataques que a burguesia precisa descarregar para recuperar-se da histórica crise econômica mundial em curso, para impedir que o desgaste de governos reformistas terminem em alternativas à direita, é necessário construir uma esquerda onde a projeção superestrutural – seja ela parlamentar ou sindical – esteja a serviço de forjar uma militância operária nas fábricas e serviços estratégicos que se coloque na vanguarda das grandes batalhas da luta de classes, não só em escala nacional mas também internacional.

Essa é uma pré-condição essencial para que as etapas preparatórias nos períodos não revolucionários possam estar a serviço dos combates decisivos entre a revolução e a contrarrevolução. As batalhas do PTS como parte da Frente de Esquerda buscam deixar lições para trilhar esse caminho”. [Ver texto A importância internacional das eleições na esquerda argentina de 30/7/15, aqui no Esquerda Diário]




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