Educação

RACISMO EM LIVRO DIDÁTICO

“Rap = Homem negro armado”, imagem racista em livro didático do Objetivo

A imagem de um homem negro armado é utilizada como ilustração de um Rap “pedagógico” em livro didático do Objetivo, um dos maiores expoentes do ensino privado no país. O que deveria servir para ensinar música, transmite uma visão profundamente racista e estereotipado da cultura negra, para alunos de escolas particulares, e, pior ainda, reforça a imagem do homem negro como perigoso e bandido, alvo “natural” da polícia racista e assassina.

Sergio Araujo

Professor da rede municipal de São Paulo e integrante do Movimento Nossa Classe Educação

sábado 17 de abril| Edição do dia

Imagem em circulação pela internet

“Rap = Homem negro armado”, essa é a visão absurdamente racista e estereotipada sobre o Rap, símbolo de resistência e enfrentamento do racismo, que o grupo Objetivo transmite para alunos de ensino fundamental em seus materiais didáticos. A imagem revoltante que podemos ver abaixo é a ilustração de um Rap “pedagógico” usado para ensinar teoria musical para alunos de 2º ao 5º do fundamental. De quebra transmite também uma visão profundamente racista e estereotipado da cultura negra, para alunos de escolas particulares, e, pior ainda, reforça a imagem do homem negro como perigoso e bandido, alvo “natural” da polícia racista e assassina.

O Objetivo é um conglomerado educacional que abrange desde a educação infantil até o ensino superior, e pertence ao empresário João Carlos Di Genio. Além de contar com colégios espalhados pelo Brasil, também fornece o material didático que é acessado por centenas de milhares de alunos em todo país e ainda engloba a Universidade Paulista (UNIP). Ou seja, estamos falando de um dos maiores conglomerados educacionais privados não só do país, mas de toda a América Latina. Com tamanha estrutura, a caricatura absurdamente racista em seus livros não pode ser considerada um simples “lapso”. Imagina a quantidade de alunos que acessaram um conteúdo racista como esse. E dá mais ódio ainda pensar como reagiram os, provavelmente, poucos alunos negros dos bancos das escolas privadas que acessaram esse material. Que já lidam cotidianamente com o racismo, ainda mais presentes em ambientes tão excludentes como as escolas particulares, onde nem os materiais didáticos ficam a salvo.

Mas não é de hoje que nos deparamos com absurdo scomo esses em materiais educacionais. Os livros didáticos não são neutros. E são muitas vezes utilizados para transmitir os valores e cultura da classe dominante. Em um país profundamente racista e machista como o Brasil não é de se estranhar encontrar um monte de exemplos de conteúdos racistas, machistas e LGBTfóbicos em livros didáticos. Não sem razão, depois de muita luta de educadoras e educadores pelo país, foram aprovadas leis que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena. Porém nos últimos tempos movimentos como o Escola Sem Partido, tem justamente atacado qualquer forma de combate ao racismo, machismo e LGBTfobia nas escolas. Escola Sem Partido que conta com o apoio de figuras do mais profundo esgoto ideológico do país como Bolsonaro, Damares Alves e o ministro da Educação Milton Ribeiro. Esse último que recentemente nomeouSandra Ramos, aliada do Escola sem Partido, para ser coordenadora de materiais didáticos no MEC. Escandaloso! Também recentemente vimos como a nova Base Nacional Comum curricular e a Reforma do Ensino Médio se trata de um profundo ataque ideológico à formação de nossos estudantes e às condições de trabalho dos educadores.

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Ao incluir um Rap como instrumento pedagógico em seus materiais didáticos, o Objetivo parece tentar se encaixar na tendência de “incluir” elementos da cultura negra, mas sempre despindo-os de seus elementos mais contestadores. O Objetivo é uma das principais empresas que atendem à educação dos filhos da burguesia, por isso está à serviço da manutenção da ideologia burguesa. O que fica evidente através desse conteúdo racista e de como ele contribui para a perpetuação do racismo na nossa sociedade.

No país em que negros são mortos pela polícia por portarem guarda-chuvas ou furadeiras, onde são espancados até a morte em estacionamentos de supermercados, em que crianças negras não têm segurança para passear ou mesmo ficar dentro de casa como Ágatha e João Pedro – mortos pelas balas policiais –, o racismo no livro didático do Objetivo é ainda mais inaceitável! Agora mesmo, cidades nos EUA estão inflamadas pelas chamas da luta antirracista contra o assassinato de Daunte Wright, mais um jovem negro morto pelas mãos da polícia racista. Que as chamas da luta negra nos EUA se espalhem por aqui!

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