Sociedade

CASO TAÍS ARAÚJO

Racistas não passarão: As manifestações racistas como traços da ideologia burguesa nacional

Leticia Parks

Brasília - DF

terça-feira 3 de novembro de 2015| Edição do dia

Os comentários sobre Taís: fatos da realidade brasileira

Ao postar uma foto em que seu cabelo afro tinha destaque, a atriz Taís Araújo foi, no domingo (1/11) fortemente hostilizada com comentários racistas em seu twitter. Os agressores diziam ofensas como “me empresta seu cabelo aí pra eu lavar louça”, “Pode ser mais clara?”, “pensava que facebook era para humanos e não para macaco”, “Já voltou da Senzala”, “Tanto negro feio e vocês vem falar da Taís Araújo”.
Taís Araújo, com muita personalidade e coragem, pois nós negros sabemos da dificuldade de nos expor com um conteúdo anti-racista, comprou a bronca e disse que não vai deixar passar essas agressões e que não deixará de fazer seu trabalho ou de expor sua imagem por conta do racismo que sofreu.
Em sua resposta publicada na mesma página onde foi agredida, Taís conclui: “E quero que esse episódio sirva de exemplo: sempre que você encontrar qualquer forma de discriminação, denuncie. Não se cale, mostre que você não tem vergonha de ser o que é e continue incomodando os covardes. Só assim vamos construir um Brasil mais civilizado. A minha única resposta pra isso é o amor!”.

Como revolucionária, me coloco lado a lado a Taís e a todos aqueles que sofrem cotidianamente do racismo sem igual com o qual somos obrigados a conviver no Brasil. Mais do que isso, me solidarizo aos que se revoltam contra ele, assim como o fez Taíz, mas principalmente aquelxs trabalhadorxs e jovens que por péssimas condições de trabalho, estudo e por uma vida precarizada, são obrigados a enfrentar um racismo ainda mais gritante, que é o do local de trabalho, onde recebem se homens, metade do salário de um homem branco e, se mulheres, 1/5. Estes, não contam o apoio midiático com os quais Taís pode contar, e para esses a polícia – que no caso de Taís Araújo se prontificou a investigar - serve apenas como um agregador de injúrias e maus tratos.

Não vivemos, afinal, na dita “Democracia Racial” ou não é só pelo cabelo
Diferente de muito o que se diz dentro das universidades e escolas brasileiras, o Brasil não vive hoje numa harmonia de raças, em que a questão negra se dissolveu na mestiçagem, e que todos compartilham diferentes aspectos de uma linda cultura moldada por diversas raças.

A verdade, escondida pelo precursor da tese da democracia racial, Gilberto Freyre, é que a dita mestiçagem é fruto das mais diversas violências contra mulheres e homens negros, que após serem sequestrados da África, são trazidos ao Brasil submetidos à uma elite branca que gozava de plenos direitos para fazer o que bem entendesse com suas propriedades.

Em sua nota, Taís Araújo diz “É muito chato, em 2015, ainda ter que falar sobre isso, mas não podemos nos calar”. Parece de fato absurdo que o nível de tecnologia e conhecimento que rondem o mundo não tenham sido suficientes para dissipar o racismo da mente das pessoas. Mas a verdade é que todo o capitalismo só se desenvolveu e toda a sua tecnologia só chegou onde chegou com base no racismo, tendo ele como pilar estruturante da super exploração e antes dela, da acumulação de capital. Como é desenvolvido no artigo publicado por Daniel Alfonso no Esquerda Diário em 13 de agosto de 2015, a velha forma da escravidão, no marco do capitalismo emergente da onda colonial no século XV, inventa o racismo como forma de afirmação da superioridade europeia sobre os outros povos, que caminha de justificação da escravidão para mecanismo de opressão dos povos e divisão da classe operária até os dias de hoje.

Por isso, ouvir dizeres como esses nos dias de hoje pode parecer anacrônico mas não é nada mais do que a aparência mais moderna do próprio capitalismo, que nasce, cresce e se mantém com base no racismo como mecanismo de divisão da classe operária entre nacionalidades e raças. Essa ideologia, responsável inclusive pelo genocídio de povos inteiros pelo mundo, não cabe aos revolucionários, e por isso, recuperando Trotsky e a tradição mais avançada do marxismo mundialmente, somos decididamente contra toda manifestação de racismo e cobramos de toda a esquerda um fortíssimo combate em cada sindicato e entidade estudantil contra o racismo e pelo protagonismo de negras e negros para que possam se sentir confiantes de denunciar cada um dos casos que sofrem, desmascarando esse Brasil falsamente propagandeado como democrático.

No título insisto: não é só pelo cabelo. No caso de Taís Araújo, uma atriz de sucesso e com uma conta bancária bastante recheada, o racismo se manifesta de maneira estética, com críticas ao seu cabelo, à sua cor de pele. Nós, jovens e trabalhadoras anônimas, sabemos que nosso cabelo sempre foi e seguirá sendo criticado pelos racistas, mas sabemos que o racismo se manifesta de maneira muito profunda em diversos aspectos de nossa vida. Seja na realidade de mãe solteira – ou vítima de estupro (somos 54% das vítimas de estupro registradas no Brasil) ou hiperssexualizadas pelo discurso da mulata “sensual”, propagado também por Freyre, que nos submete a uma situação de profundo desrespeito nos relacionamentos “amorosos” – ou de trabalho, onde ocupamos os cargos mais precários, como domésticas ou trabalhadoras terceirizadas, recebendo cerca de 1/5 do salário de um homem branco .

O governo PT, assim como sua base aliada da direita (PP, PMDB) e as variantes de direita que aparecem hoje “contra o PT” ou “pelo Impeachment” são as verdadeiras responsáveis pela manutenção desse fosso racial no Brasil, seja com medidas que completam décadas de vida, como o massacre do Carandiru (PP) e a entrada das tropas brasileiras no Haiti (PT), ou com medidas escusas que tentam enfiar goela abaixo da juventude e dos trabalhadores, como a flexibilização do trabalho presente na lei de terceirização que PT apoia junto aos setores de extrema direita, a PL 5069 que proíbe a pílula e criminaliza ainda mais o aborto – que mata em sua grande maioria mulheres negras – e a tentativa de reestruturação escolar que tenta implementar Geraldo Alckmin em São Paulo, apoiado pelo ministro petista da educação, Mercadante.

Contra a lógica de que essas agressões são manifestações individuais, isoladas e desconexas com a realidade, exaltamos a necessidade de que trabalhadores e juventude, negros e brancos, abracem a luta contra o racismo como parte de suas reivindicações de classe, situando-a como tema de suas greves de trabalhadores, como a efetivação dos terceirizados, e de estudantes, como a luta por cotas e pelo fim do vestibular, assim como em ambos os casos a conscientização da necessidade de fim das polícias, civis e militares, que são os cães de guarda dessa mesma burguesia, agentes portanto dela, e responsáveis pelos maiores índices de violência policial no mundo.

Hoje, no Estado de São Paulo e no Distrito Federal, jovens secundaristas, em sua maioria negros, se levantam contra a reestruturação escolar, que com a ameaça de fechamento de escolas aprofunda o fosso entre negros e brancos, garantindo que os últimos sigam tendo mais acesso ao ensino, a melhores empregos e a serem minoria no sistema prisional. É importantíssimo que toda a esquerda, movimentos negros e de mulheres se coloquem como parte do repúdio ao racismo contra Taís Araújo, mas também como parte de dar um grande exemplo de como os negros podem conquistar vitórias reais na luta contra sua opressão, como na luta de secundaristas.




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