Cultura

500 ANOS DE BOSCH

Quincentenário do pintor Hieronymus Bosch: a psicologia humana em trânsito

Em celebração dos 500 anos de um mestre da imaginação criadora na pintura, o Museu do Prado em Madri expõe a coletânea das obras do “Bosco”, como é conhecido no Estado espanhol. De onde vem o fascínio do pintor em cujas mãos se concentravam todos os fios dos temores e esperanças de uma geração às portas da Renascença?

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 15 de junho de 2016| Edição do dia

Hieronymus Bosch (145?-1516) cultivou a sua arte em Bois-le-Duc, pequena região isolada da Holanda. Bois-le-Duc era a quarta cidade do ducado de Brabante e havia enriquecido através do comércio. O clima que ali se vivia, se era provincial, não era no entanto desprovido de vida artística, apesar da distância que a separava de Haarlem, que era na altura o mais concorrido centro artístico holandês.

Pouco se sabe sobre a sua vida. No que diz respeito à obra, também não é possível estabelecer de maneira positiva uma evolução técnica do pintor. Toda a afirmação toca o campo da hipótese. Os seus quadros não são nunca datados e apenas cinco possuem assinatura. Até hoje a constatação é de que haja cerca de quarenta obras autênticas.

Muitos historiadores de arte insistem no papel que o mundo provincial onde viveu, ainda preso às fórmulas do gótico, terá tido na formação de Bosch. Nesse mundo provincial há um elemento permanente na obra do pintor: a importância da corrente mística na Flandres, atual Holanda (obsessão pelo Inferno, processos de bruxaria etc.) e em que muitos autores insistem, sobretudo depois dos estudos de Johann Huizinga (O outono da Idade Média).

Dentro desta corrente, a preocupação com o destino do humano depois da morte é a tônica de toda uma época. A morte era um fenômeno permanentemente presente na vida da imensa massa humana medieval. Com uma expectativa de vida que dificilmente ultrapassava os 30 anos, vulneráveis a epidemia de todo tipo (a maior delas, a Peste Negra, havia devastado um terço da população continental algumas décadas antes), a atmosfera de que a vida era um “curto intervalo” no caminho do além era a única certeza em meio à pobreza dos camponeses.

Dessa forma, o cuidado com as condições da alma segundo os preceitos cristãos e a preparação terrena para a morte iminente era o que restava. Isso jogava a vida e a morte de cada um no colo na Igreja Ortodoxa, habitualmente corrupta e espoliadora da fé dos fiéis.

Alguns pesquisadores, como Charles de Tolnay, definem que Bosch teria justamente estigmatizado desvios com respeito à Igreja oficial. Essa tese tem sólida fundação nas diversas pinturas de Bosch que mostram membros eclesiásticos envolvidos na “reprodução dos males temporais”, e mesmo dos pecados contra os quais o pintor advertia. Nada escapava da crítica, nem os próprios chefes da Igreja. Talvez os ataques que faz à Igreja Católica e suas cúpulas, muitas vezes ridicularizada abertamente, sejam o aspecto mais crítico de uma produção que buscava reverter a perversão moral que os próprios párocos, bispos, padres e a própria instituição católica, absolutamente corrupta, reproduziam, apesar dos discursos contrários aos fiéis.

É o caso da chamada A Nau dos Insensatos, por exemplo, obra situada por volta de 1500. O tema do quadro é o mesmo do poema de Sebastian Brandt, “Das Narrenshiff”, publicado em Basileia, no ano de 1494. Como formas de abordar o cotidiano e o que consideravam “absurdas perversões”, bispos são postos no centro da cena que ridiculariza a insensatez da luxúria e da gula.

Também aparece, dentre diversas outras, na cena O carro de feno, do famoso quadro O Jardim das delícias. A crítica recai sobre a vaidade humana, simbolizada no monte de feno, uma alegoria medieval a tudo de sem valor que os homens acumulam sem resultado algum.

Época de transtornos sociais históricos

A produção de Bosch se localiza entre os séculos XV e XVI, época de profunda crise religiosa e social na Europa. Viviam-se as premissas da Reforma Protestante nos estados germânicos (que influenciaram os pintores e escritores dos Países Baixos), e na região da Europa mediterrânea começava a emergir as primeiras manifestações do Renascimento, movimento artístico que marcou um ponto de inflexão na expressão do indivíduo humano em detrimento das tradições da Igreja Ortodoxa, que colocava as figuras religiosas no centro das preocupações medievais.

Na Itália emergiam os princípios do Renascimento, a partir do descobrimento da perspectiva e o conhecimento da anatomia, enquanto nos Países Baixos ainda se conservava uma estética ligada às tradições medievais, conforme atesta a obra de Bosch, marcada pela eterna luta entre “o Bem e o Mal”.

Ante as novas forças que ascendiam ao assalto da era medieval, Bosch tomou consciência dos novos valores que o rodeavam. Encontrava tanto no consciente coletivo, sempre atento ao diabólico, como no seu inconsciente individual, uma vontade para libertar a avidez das tentações.

O espetáculo ficava com as criaturas que só podem ser consideradas "imagináveis" porque Bosch as imaginou. Meio-humanos, utensílios de cozinha com pés e vontade própria, criaturas marítimas, orelhas vigilantes com punhais, "homens-árvore" e uma infinidade de demônios povoavam os retratos psicológicos do holandês.

As suas imagens refletem preocupações tipicamente medievais, mas não deixam de ser impressionantes frutos da imaginação criadora de um dos maiores retratistas da psicologia medieval em transição: pecados, tentações, histórias de santos, sendo as imagens infernais e seus suplícios o que ainda há de mais original e enigmático em toda a história da arte. São infinitos elementos pictóricos (muitas vezes indecifráveis para a mente do século XXI, tão distante materialmente da de Bosch) que dão significado a cada centímetro dos quadros, em que o pintor conseguia invejavelmente enfeixar a totalidade dos prazeres e suplícios que aguardariam a humanidade.

O “autor de verdadeiros pesadelos”, segundo os renascentistas que pouco se importavam com seus quadros, pintava a transição de uma época psíquica a outra de acordo com a transição sócio-econômica da velha sociedade, em que o livre comércio, as relações econômicas entre os burgos, as grandes explorações ultramarinas para as Américas e a Ásia por parte das potências ibéricas, e as descobertas científicas mudavam o panorama sombrio que embalava o pessimismo de fins da Idade Média (a exploração material e humana das populações do “Novo Mundo” está na base da riqueza e opulência demonstrada pelos pintores renascentistas e as grandes oligarquias européias). Exigindo atenção aos ideais do passado e chamando a atenção de maneira estupenda aos riscos de se abandonar os preceitos religiosos, Bosch abria os olhos do espectador ao declínio das mais poderosas instituições medievais, em primeiro lugar a Igreja, e à ascensão da burguesia mercantil.

Como uma lâmpada que, justamente antes de se apagar solta seus brilhos de luz mais fortes, o outono da Idade Média recebe uma figuração espetacular no pincel do “Bosco”.

Inspiração para os surrealistas e mesmo diversos mestres da pintura como Pietr Brueghel, Bosch foi um detonador da imaginação humana. Segundo João Garção, pintor e ensaísta português, foi ele o primeiro artista a sondar, com obsessiva curiosidade, o mundo obscuro, impreciso, sempre mergulhado em densas trevas, que é parte integrante deste momento histórico e que o define psicologicamente. Um mundo onde se debatem forças contraditórias, que tão depressa o podem elevar acima da sua condição de mortal dominado apenas por instintos primários, como torná-lo uma presa inconsciente desses instintos e, então, "o mais vil e cruel de todos os seres".

Como fixaram os surrealistas, “O que há de extraordinário no fantástico é que, vai-se a ver, e já não há fantástico – só o real existe”.

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