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Quem são os entregadores de Apps que estiveram na paralisação do 1J?

Daphnae Helena

Ilustração da capa: Bruno Portela

Quem são os entregadores de Apps que estiveram na paralisação do 1J?

Daphnae Helena

Na última quarta-feira, dia 1º de julho, os entregadores por aplicativos protagonizaram a maior mobilização internacional da categoria. No Brasil, houve atos pelas ruas de diversas cidades. Esta nova categoria vem se expandindo com força nacionalmente, em especial diante dos impactos da crise econômica que recai sobre os trabalhadores e deixa, segundo dados do IBGE, pelo menos 36 milhões de pessoas que gostariam de trabalhar, sem emprego. A organização desse setor de serviço essencial - característica que ficou evidente nos tempos de pandemia - tem como principal demanda melhores condições de trabalho e representa um enfrentamento às novas formas de trabalho por aplicativo que rasgam de vez direitos conquistados há séculos pela classe trabalhadora.

Para uma análise sobre a mobilização veja: A paralisação do entregador: o destino da uberização em disputa

Quem são os trabalhadores que participaram dessa mobilização? 

O Observatório da Precarização do Trabalho e da Reestruturação Produtiva do Esquerda Diário realizou uma pesquisa com 253 trabalhadores por aplicativos, que estiveram nas mobilizações da categoria no último 1º de julho, para responder a essa pergunta. A pesquisa foi realizada de forma presencial por meio da autodeclaração e abrangeu nove estados do país com concentração em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Dentre os temas abordados, além de características pessoais, estão as condições de trabalho (horas trabalhadas, remuneração, quilometragem rodada, acidentes de trabalho), os meios de trabalho (forma de locomoção e aplicativos) e temas da atualidade como a visão em relação ao governo Bolsonaro e os impactos da Covid-19. Seguem abaixo as principais conclusões. 

Entregadores homens, jovens e negros  

Os dados coletados mostram que, entre os entregadores por aplicativo que estiveram nas mobilizações, a esmagadora maioria é de homens (96%) e possuem idade de até 34 anos (82%). A grande maioria também é composta de negros que representam 67% dos entrevistados - na somatória dos que se reconhecem como pardos ou pretos [1]. Ao passo que 31% se reconhece como branco. A questão racial é marcante e em alguns casos ficou explícita com entregadores que colocavam cartazes em cima das bags de trabalho com os dizeres "as vidas negras importam".

Sobre a questão racial veja: A maior paralisação da história dos apps tem rosto negro, aponta pesquisa

Os dados coletados em campo mostram que 38% eram entregadores de até 24 anos. Este aspecto é interessante, uma vez que a pesquisa realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir), chega a conclusão de que 15% da categoria possui até 24 anos. A significativa diferença entre as duas pesquisas pode indicar a maior presença da juventude nas mobilizações da categoria. 

Unidos contra a precarização

Dentre os que estavam presentes nas mobilizações e atos realizados, a grande maioria disse não possuir outro trabalho com carteira assinada, nem realizar outro bico regularmente: 75% dos entregadores trabalham exclusivamente com os aplicativos de entrega. Em relação ao tempo de função, mais da metade dos entrevistados declararam trabalhar há mais de um ano nesse tipo de serviço por aplicativo. A imensa maioria trabalha em, pelo menos, dois aplicativos distintos, chegando a 70% dos entrevistados. Dentre os mais citados estiveram Ifood, Rappi e UberEats - correspondendo a uma parcela de 69, 53 e 54% dos entregadores, respectivamente. 

Do ponto de vista do meio de locomoção: a moto corresponde a 70%, ao passo que 28% utiliza bicicleta. No entanto, vale ressaltar que outras pesquisas realizadas apontam que a parcela de entregadores de bicicleta é maior do que um terço da categoria. Um dos elementos que podem justificar essa menor participação está relacionado com o próprio trajeto da mobilização escolhido nas principais capitais, que por percorrerem longas distâncias acabaram inibindo a participação direta daqueles com bicicleta. 

"Motoboys unidos contra a precarização" foi a faixa estendida na Avenida Bandeirantes de São Paulo. Em relação às condições de trabalho, 77% dos entrevistados apontaram que trabalham mais de 10 horas por dia, sendo que cerca de 40% trabalham mais de 12 horas diárias. Em relação à remuneração, 59% declara que ganha até R$ 2000 ou cerca de 2 salários mínimos, enquanto 21% declara que ganha menos de R$ 1000. Quanto a essa questão, é importante destacar o fato de que se trata da remuneração bruta, ou seja, não considera aqui os gastos que possuem com gasolina, nem tampouco a manutenção das motos e bicicletas. Além das horas diárias de trabalho e a baixa remuneração, cerca de 51% dos entrevistados declararam ter sofrido acidente durante sua jornada de trabalho. 

Dentre os trabalhadores que utilizam a bicicleta como meio de locomoção, a grande maioria (90%) percorre até 100 km por dia, sendo que a esmagadora maioria declara que ganha até 2000 reais e 50% declara até 1000 reais. O salário médio bruto está em cerca de 1600 reais e a média diária da distância rodada é de 52 km, o que significa o valor de R$ 1 por quilômetro rodado.

Dentre os entregadores que utilizam moto, a grande maioria percorre até 300 km por dia, sendo que 68% ganham entre R$ 1000 e R$ 3000. O salário médio bruto dos motoboys é de cerca de 2500 reais. A média diária de distância percorrida para as entregas é de 160 km. Sendo assim o valor por quilômetro rodado é de 0,52 centavos.

Além da remuneração que explicita uma brutal exploração do trabalho, os números de acidente de trabalho entre os motoqueiros são escandalosos: 57% declara que já sofreu algum acidente de trabalho. Nas entrevistas realizadas eram comuns os relatos de acidentes graves que levaram a fraturas de ossos, a perda de membros e que deixaram consequências corporais como amputação de membros, dificuldade de locomoção entre outras.

Sobre os acidentes veja: A profissão perigo: 51% dos entregadores grevistas sofreu acidente no trabalho

Com relação aos temas atuais, dentre os que estiveram na mobilização 37% declarou que conhecia pessoas que tiveram sintomas de Covid-19, e dentre esses 73% foram testados. No entanto, um elemento importante a ser considerado é que o protocolo instalado pelo Ministério da Saúde no Brasil é de testar apenas aqueles que apresentam sintomas graves da doença. Neste sentido, a subnotificação entre os que possuem sintomas leves da doença é significativa. O fato da categoria ser jovem pode ser um fator que explique os baixos índices de casos graves da doença e, como consequência, torna mais difícil identificar a contaminação. 

Nas opiniões em relação ao governo Bolsonaro (que analisamos melhor aqui), chama atenção que 40% dos entregadores que participaram das mobilizações disseram ser contrário. A minoria da categoria se posicionou favorável com apenas 17% e os indiferentes 20%.

Com essa pesquisa buscamos contribuir com essa categoria nova que começa a se organizar, a partir da geração de dados científicos, num processo que também ocorre em outros países, a exemplo da La Red de trabajadorxs precarizadxs conformada entre os trabalhadores entregadores na Argentina. A escassez de dados relacionados a estes setores nos deixa refém das estatísticas divulgadas pelas próprias empresas que possuem um claro interesse em manter esse setor em condições ainda mais precarizadas.

Num momento de crise histórica do capitalismo, a saída do capital é o aumento da exploração do trabalho para transformar essa classe em verdadeiros escravos modernos. Os mais mínimos direitos trabalhistas conquistados pela luta e organização da classe trabalhadora estão sendo retirados. No Brasil, isso se aprofunda com a aprovação da reforma trabalhista e a expansão da uberização do trabalho. Por isso, que esses setores como os entregadores de aplicativos comecem a se organizar é uma enorme fortaleza para toda a classe trabalhadora e o Observatório do Esquerda Diário colocará todas as suas forças para contribuir com essa mobilização.

A nossa pesquisa envolveu o trabalho de dezenas de entrevistadores, além dos próprios pesquisadores do Observatório da Precarização do Trabalho e da Reestruturação Produtiva. Registramos aqui um agradecimento especial a equipe de entrevistadores nos distintos lugares do país que realizaram a coleta de dados.

Equipe Técnica:

Coordenadores de Pesquisa: Daphnae Helena e Iuri Tonelo
Organização Geral: Tatiane Lima
Analistas: Vitória Camargo, Bianca Coelho, Weckson Vinícius e Isa Santos
Material gráfico: Matheus Correia e Gabriel Biro

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FOOTNOTES

[1Segundo critérios adotados pelo Estatuto da Igualdade Racial que reúne como negros aqueles que se declaram como pretos e pardos.
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Daphnae Helena

Economista e mestranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp
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