Opinião

29M RECIFE

Quem deu as ordens em Recife?

Não há dúvida quanto às expressões fascistizantes do bolsonarismo dentro das polícias. Mas é cada vez mais difícil acreditar na hipótese de que a repressão em Recife pelo 29M foi ação deliberada desses grupos. Não houve quebra de comando ou motim. Houve uma repressão deliberada pelo governo estadual de Paulo Câmara, do PSB, que nos fez lembrar o nível de sadismo bolsonarista que os policiais são capazes de usar contra manifestantes, trabalhadores, sobretudo se forem jovens negros pedalando para sobreviver.

Ítalo Dias

Sociólogo

quarta-feira 2 de junho| Edição do dia

Foto: Agência JC/Mazela

O fato do próprio secretário de justiça de Pernambuco, Pedro Eurico, ter afirmado nessa segunda-feira que “nós [o governo] acompanhamos a operação desde a praça do Derby [concentração do ato]”, coloca em cheque o que a Globo e a Folha estão alardeando. Paulo Câmara estava com seu secretário acompanhando as câmeras, espalhadas pelas ruas de Recife, duas pessoas sendo cegadas, uma vereadora recebendo spray de pimenta. Afastou os policiais do spray de pimenta e o comandante para “averiguar”, e até hoje presos na manifestação continuam sendo processados.

A ordem de reprimir foi baseada no decreto de Paulo Câmara para as medidas de restrição social da pandemia (que mantém ônibus lotados todos os dias e até agora não impediu um ato do bolsonarismo), e reforçada pelo Ministério Público estadual.

Obviamente que algum setor mais bolsonarista dentre os policiais levou a situação ao extremo da barbárie, e o resultado fugiu do controle. O que era para demonstrar “ordem” às elites dominantes, por parte do PSB e do PCdoB (com a vice-governadora Luciana Santos), um importante partido do chamado “centro democrático”, poderia resultar no seu contrário. Junho de 2013 passou a generalizar manifestações pelo país depois das cenas brutais de repressão em São Paulo. Na Colômbia, no Chile, a repressão violenta da polícia (essa transpassa fronteiras) alentou as manifestações que inclusive passaram a rechaçar a instituição, através de jovens embebidos do espírito do Black Lives Matter.

O comentário do ministro do supremo, Gilmar Mendes, expressa esse temor

Essas manifestações podem ser mais frequentes no futuro próximo. Diante disso que todo espectro político de “opositores” a Bolsonaro, que encabeçam o que chamamos de bonapartismo institucional, como o STF, a Globo, os políticos do Centrão etc, buscam preventivamente se apresentarem como garantidores da “normalidade democrática”. Justo eles que foram parte da manipulação das eleições de 2018 que deu lugar a Bolsonaro, e que apoiam cada reforma contra os trabalhadores e a juventude que ele aprova. Os agentes do golpismo, responsável pelo fortalecimento do aparato policial, querem aparecer como quem está contra os “excessos” da polícia, deixando que caia na conta exclusivamente de Bolsonaro. Preventivamente alimentam a tese que o problema são os elementos bolsonaristas da polícia, que eles mesmos são parte de forjar.

Não é de agora que a polícia usa desses métodos. A polícia é a polícia, e no regime do golpe ela vai mostrando como ela está acostumada a atuar. Ou a polícia de São Paulo nunca chegou a cegar um repórter da Folha de São Paulo que cobria manifestações? Há duas semanas atrás ocorreu a maior chacina do Rio de Janeiro, em Jacarezinho, que nenhum policial foi punido. A linha da Globo alí também foi “condenar os excessos”, não sem defender a morte de “bandidos”.

Os elementos bolsonaristas sempre estiveram inscritos dentro da polícia, e passaram a se manifestar mais claramente com o golpe. Toda vez que um governador investe milhões em “segurança pública”, contrata policiais, armas, aumenta salários, está alentando cada vez mais esses elementos. Eles se expressam na repressão contra a população negra, contra as manifestações políticas e democráticas da juventude e dos trabalhadores. Quando é passeata de Bolsonaro, 1000 policiais “escoltam” o presidente, fazendo parte da marcha de motocicletas.

O PSB e o PCdoB mostram novamente é inimigo dos trabalhadores e da juventude, em especial em Recife hoje. Em 2013, era o partido do vice-governador de Geraldo Alckmin, do PSDB, através de Márcio França. Portanto, não é novidade que o PSB faça o que fez no último sábado. Nessa época, a prefeitura de São Paulo na época estava nas mãos de Haddad do PT, correponsável pela truculência da polícia. Além disso, o PSB em 2016, grande parte da sua bancada votou pelo golpe, depois tendo sido parte de aprovar a agenda neoliberal nos seus governos.

É com esse PSB que, tanto o bonapartismo institucional, que busca conformar um candidato de “centro” para a 2022, vê como aliado importante, como também o PT, que o próprio Lula batalha para apoiar sua candidatura. O próprio Paulo Câmara negocia ser o vice da chapa do petista, e tem uma relação bastante próxima. O PCdoB, por sua vez, aliado histórico do PT, além de aprovar ataques nos seus estados, se utiliza da CTB e da UJS para dividir a força da classe trabalhadora e da juventude no último dia 29M, ao lado da CUT e das organizações estudantis do PT.

Essa aliança com setores responsáveis por alentar as forças repressivas que são base de Bolsonaro hoje é apresentada como via para derrotar a extrema-direita, sendo que são organizações que inclusive atuam contra a massificação da luta nas ruas, as greves e paralisações, o verdadeiro caminho para impor essa derrota.

Não esqueçamos que o PT é também responsável por fortalecer esse aparato. Nos estados que governa, não há um concurso para professor, mas para policial nunca falta. A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, além de ter feito uma parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública de Bolsonaro para criar um centro de inteligência da repressão, chegou a homenagear o aniversário da PM. Em 2020, Camilo Santana do PT quem impediu a realização de um ato antirracista em Fortaleza, em meio ao breque dos trabalhadores de app, com uso de bombas da policia.

Os que deram as ordens para a repressão em Recife foram novamente, não só Paulo Câmara e o MP, mas os únicos interessados em garantir a paz em meio a um morticínio da pandemia de Bolsonaro, ao desemprego record, em particular no Nordeste, assim como a fome: os grandes setores da burguesia nacional e internacional, aliado às oligarquias familiares (políticas e econômicas) regionais.É para eles que a polícia “trabalha” (ou melhor, mata e reprime), a serviço de proteger a sua propriedade privada frente a uma enorme crise social e econômica, que só pode ser resolvida de fato se enfrentando contra ela, suas reformas, privatizações e cortes na educação e saúde.

Não vai ser o “centro democrático” dos golpistas da Globo, do STF ou do PSB prometendo “humanizar” a sua polícia que vai mudar essa situação. A policia precisa ser enfrentada de conjunto, em primeiro lugar através da luta pela libertação de todos os presos por essa manifestação, e a punição por parte do Estado de todos os policiais envolvidos nesse caso, no da prisão e tortura do militante Rodrigo Pilha, e por Jacarezinho. Uma luta que precisa ser contra o Estado em seu conjunto, que não existe sem a polícia e suas forças repressivas, por isso impondo uma comissão de investigação independente e o julgamento por júri popular de cada um dos crimes cometidos por ações policiais, que acompanhe e tenha acesso a todas as investigações do Estado.

Essa luta precisa impor que se fortaleçam os métodos de organização da nossa luta para batalhar pelo fim da polícia, como parte da batalha pelo Fora Bolsonaro e Mourão, mas também cada juiz, político e militar que é parte desse regime golpista e que alimentam as forças bolsonaristas da polícia. Dependem desse aparato de repressão, para seguir impondo seus ataques com a garantia de que terão sempre os cães de guarda dos interesses capitalistas por trás desses agentes políticos, para impor à ordem por quaisquer que sejam os métodos.




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