Internacional

NICOLÁS DEL CAÑO DO PTS ARGENTINO VISITOU O BRASIL

Quais os ensinamentos da esquerda argentina para enfrentar a crise no Brasil?

Em sua viagem ao Brasil, o ex-candidato a presidente pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores nas eleições argentinas e dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), Nicolás Del Caño, debateu as experiências da esquerda argentina que nos ajudam a encarar a crise no Brasil na atividade do Esquerda Diário "Lições da Esquerda Argentina", que reuniu 350 pessoas no Sindicato dos Metroviários. Apresentamos as cinco principais lições.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 9 de dezembro de 2015| Edição do dia

1) Uma esquerda da luta de classes: o Partido dos Trabalhadores Socialistas, desde sua fundação no início da década de 1990, escolheu construir-se nas principais concentrações operárias através da luta de classes. Esta estratégia levou o partido a participar das principais experiências da luta de classes na década kirchnerista, ser protagonista do fenômeno do “sindicalismo de base” antiburocrático e tirar as lições de grandes conflitos de classe, fortalecendo uma tradição da luta independente dos trabalhadores junto à esquerda.

É impossível construir um terceiro campo independente dos governos e da direita sem uma estratégia vinculada à experiência da luta dos trabalhadores. Foi somente através deste método e estratégia que o PTS se tornou a principal organização da esquerda argentina, buscando não um papel testemunhal e sim uma influência decisiva na política nacional.

2) O peso na luta de classes possibilita emergir como terceiro campo independente: a FIT, surgida em 2011, longe de um “fenômeno eleitoral” é produto de uma década de luta dos trabalhadores na Argentina, atravessada por experiências de recuperação de comissões internas fabris e ocupações de fábricas desde 2001, como Zanon e a gráfica MadyGraf (ex-Donnelley), e grandes batalhas contra a burocracia sindical para recuperar os sindicatos como instrumentos de luta dos trabalhadores. Representa o “salto” de uma enorme camada de trabalhadores, mulheres e jovens, das lutas sindicais para a militância política anticapitalista, e a preparação concreta de uma terceira força independente. Uma mostra disso são os 1500 candidatos operários, os principais referentes da luta de classes na Argentina, que militaram com um programa anticapitalista nos locais de trabalho junto a Nicolás Del Caño.

No Brasil, o PSTU (pelo seu sindicalismo separado das lutas políticas) e o PSOL (pelo seu eleitoralismo descolado da classe trabalhadora) estão na contramão de avançar a construção de uma alternativa política independente dos trabalhadores porque não destinam todas as suas forças partidárias e militantes à luta de classes e a atuação no terreno eleitoral ligada a ela.

3) É possível conquistar peso em setores de massas sem rebaixar o programa: A experiência do PTS na FIT contradiz a hipótese deste amplo arco de organizações, inclusive que se reivindicam “trotskistas”, que justifica o rebaixamento do programa revolucionário em função de “chegar às massas”. O PTS fez da atividade parlamentar e da intervenção na luta de classes dois momentos de um mesmo programa anticapitalista. Essa experiência internacional, em meio à bancarrota de organizações reformistas como Syriza e Podemos, mostra que é possível conquistar peso em setores de massas sem abandonar a luta para que o movimento operário se transforme em sujeito político, avance das lutas sindicais à militância política, e construa um partido com independência de classe para acabar com o capitalismo.

A esquerda brasileira tem a aprender com essa tradição, por um lado, o PSOL coloca todo centro na atuação parlamentar, rebaixando o programa para ganhar votos e tem escolhido atuar como “sócio menor” do PT. O PSTU nem se coloca seriamente a tarefa de disputar efetivamente setores de massa no terreno político.

4) Um governo dos trabalhadores só pode ser fruto da mobilização revolucionária das massas exploradas e oprimidas: quanto mais avança a FIT eleitoralmente, mais relevante se faz reafirmar o sentido antiburguês e anticapitalista que tem nossa posição de “governo dos trabalhadores e do povo”. É preciso deixar claro que a classe trabalhadora não pode simplesmente se valer do Estado burguês para perseguir seus próprios objetivos, mas deve destruir esta máquina estatal da burguesia e colocar de pé seu próprio poder. Toda a experiência do século XX, em relação aos governos chamados de “Frente Popular”, inclusive o governo de Allende no Chile dos anos 70, deixou mostras de sobra sobre esta questão.

No Brasil, o PSOL nem sequer vislumbra a perspectiva de um governo dos trabalhadores e, por sua vez, o PSTU não deixa claro que isso não pode ser conquistado através do triunfo pacífico da esquerda nas eleições.

5) É preciso construir uma força internacional dos trabalhadores na América Latina: deparamo-nos com um novo cenário estratégico latinoamericano. A eleição de Macri na Argentina e a vitória da direita nas legislativas venezuelanas é um passo importante no giro à direita da superestrutura política da região. Fortalece os representantes mais direitistas da burguesia latinoamericana como o PSDB no Brasil ou Capriles na Venezuela, e empurra os governos até então considerados reformistas como o de Dilma a adotar a agenda de ajustes da direita neoliberal.

Enquanto no passado a maior parte da esquerda se adaptou aos chamados governos “progressistas”, nossa corrente internacional, a FT-QI, teve o mérito de manter a independência de classe e a necessidade da revolução. As lições sobre o fracasso dessas estratégias de conciliação de classes, assim como a delimitação política das correntes populistas latinoamericanas como o chavismo e o petismo, são da maior importância para os trabalhadores e para a esquerda. Temos colocado diante de nós o desafio e a oportunidade de, na resistência às tentativas de ataque, fortalecer uma esquerda em toda a região que seja parte dos setores mais combativos da classe trabalhadora e levante um programa anticapitalista para enfrentar as crises econômicas e políticas que começam a se fazer cada vez mais presentes em nossos países.

Precisamos acreditar que os combates e os avanços na organização da esquerda revolucionária que ocorrerem em cada país fortaleçam a luta e a organização nos demais. Essa é a perspectiva da rede internacional de diários digitais Esquerda Diário (no Brasil impulsionado pelo MRT), que desde sua fundação em 2014 conta com mais de 10 milhões de acessos, a maior parte das quais no La Izquierda Diario da Argentina, mas se estendeu com novos diários digitais no Brasil, Chile, México, França e Estado Espanhol, além de seções próprias na Bolívia, Alemanha, Venezuela e Uruguai.




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