Mundo Operário

GREVE PROFESSORES

Professores de todo o país na vanguarda das lutas contra os ajustes

O ano de 2015 se iniciou com uma histórica greve, protagonizada pelos professores do Paraná. As cenas dos professores cercando a Assembleia Legislativa paranaense, e obrigando os políticos que pretendiam votar um pacote de ataques a saírem de camburão, foi um sopro de inspiração para os educadores e trabalhadores de todo o país.

Danilo Paris

Professor de sociologia da rede pública

quarta-feira 3 de junho de 2015| Edição do dia

O governo de Beto Richa do PSDB, pouco depois, de maneira absolutamente intransigente, votou a portas fechadas os ataques à aposentadoria. E para garantir isso desferiu uma brutal repressão contra os professores, que comoveu os educadores de todo o país. Mas, mesmo assim os professores do Paraná não se curvaram, e a determinação da base obrigou o seu sindicato a APP, cuja direção majoritária está nas mãos do PT e da CUT a não recuar da mobilização, mantendo-se em greve até hoje. E que atuou como uma plataforma para que outros setores do funcionalismo público, como os trabalhadores da Saúde, também deflagrassem greve.

Desde então, os professores estão sendo a vanguarda da luta contra os ajustes impostos pelos governos, tanto em âmbito federal, que cortou 9,42 bilhões de reais, quanto nos estados e municípios. Desde o início do ano deram-se greves em São Paulo, Pará, Pernambuco, Sergipe, Santa Catarina, entre outros estados e em diversas cidades.

Nestas, se demonstra uma importante disposição de luta, com os professores tendo protagonizado cortes de rodovia, ocupações, atos públicos, e colocando em pauta o desmascaramento da falácia da “Pátria Educadora”. Isso porque atacar a Educação tornou-se um objetivo da mais ampla gama dos partidos da classe dominante para manter suas leis de “responsabilidade fiscal”. E isso não se restringiu apenas aos governos dos partidos tradicionais, como ainda chegou a atingir a cidade de Macapá, governada por Clécio do PSOL.

Após 46 dias de greve, os professores do Macapá não tiveram suas justas demandas atendidas pelo prefeito do PSOL. Tal como na maioria dos municípios governados pelo PSDB, PMDB e PT, na prefeitura do PSOL a lei salarial do piso dos professores é descumprida. Para que essa fosse respeitada haveria que se ter um reajuste de 13%, enquanto Clécio Luis ofereceu apenas 4%.

Em meio a uma conjuntura de ataques aos professores e à Educação, Clécio e o PSOL poderiam ter atendido as reivindicações dos educadores, e ainda ter estendido uma ponte com os demais setores em luta, constituindo um exemplo. Mas não. Preferiu governar de acordo com os ditames clássicos do capitalismo, usar o interdito proibitório contra a greve e arrochar os salários dos trabalhadores. A determinação do prefeito Clécio do PSOL em ignorar os professores os obrigou a acampar e trancar os portões do prédio da prefeitura. Após o encerramento da greve em 01 de junho, os educadores terão que recorrer à ação judicial para obrigar a prefeitura pagar o que deve.

Todas essas greves são a demonstração de que uma política de unidade e coordenação das lutas é não apenas concreta, como urgente. E para isso é preciso que se realizem encontros e ações unitárias desde a base dos setores que lutam. Uma central sindical como a Conlutas, deveria ter assumido essa política para si, e organizado ações nesse sentido. Isso poderia criar condições para que se impusesse à CUT, que dirige diversos sindicatos de professores que protagonizaram greves, uma política capaz de levar essas lutas a vencerem.

A 80 dias da greve de São Paulo: um caso emblemático

Os professores da rede estadual paulista protagonizam uma das greves mais longas do último período. Escancarou-se diante os olhos de todo o país as terríveis condições de trabalho a que estamos submetidos, e a absurda precarização da educação pública. Rompemos o cerco midiático da grande imprensa e denunciamos a superlotação de salas de aulas, as jornadas estafantes e os salários arrochados. A resposta de Geraldo Alckmin seguiu sendo a mesma: a intransigência. Cortou o ponto dos educadores simplesmente por fazerem uso de seu direito e greve. Mas o governo tucano não é o único obstáculo para a vitória.

A direção majoritária do sindicato nas mãos da CUT, com PT e PCdoB à frente, está realizando uma verdadeira bravata contra os professores. Enquanto posa de radical, discursando no carro de som que “não tem arrego”, na verdade entrega a luta. Primeiramente, se negou a dar voz nas assembleias aos comandos de greve, composto pelos professores de base, que carregaram essa greve nas costas.

Invocando o estatuto da Apeoesp, negou também a proposta de que representantes dos comandos de greve pudessem fazer parte das negociações com o governo. Ou que essas negociações fossem transmitidas ao vivo. Não preparou um fundo de greve. Numa encenação teatral, colocou membros de sua chapa para se acorrentar em frente à Secretaria da Educação, enquanto fazia vista grossa para os seus conselheiros sindicais que furaram greve. Seguiu seu roteiro de assembleias-comício e atos-procissão, que só servem para cansar os professores.

E as oposições tampouco estão respondendo à altura. O PSTU, a Conspiração Socialista, e as correntes do PSOL tampouco assumiram para si a defesa de que os comandos de greve dirigissem a nossa luta. Todos formalmente reconhecem que o grande ganho dessa greve foi o surgimento de um novo ativismo de base. Porém, na hora de lutar contra a estrutura burocratizada da Apeoesp, ou ceder alguma fala sua nas assembleias para esse novo setor de luta, composto em grande parte por professores em estágio probatório, se negam. Esse combate foi dado apenas pelos comandos de greve, nos quais os Professores pela Base interviemos conjuntamente, sem o apoio ativo das demais forças da oposição.

Essa passividade das oposições tem que ser superadas. Há que organizar encontros de base, que reúnam e coordenem os setores em luta, para que a base decida e articule um plano de mobilização. Isso é necessário já que para mudar de fato a Educação será necessária uma luta contínua. As oposições devem tomar a dianteira dessa política. Só assim a imensa disposição de lutas da Educação não será desperdiçada.




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