Sociedade

TRAGÉDIA EM MINAS GERAIS

Professores de Contagem mobilizados junto a alunos em repúdio à tragédia e seus responsáveis

Flavia Valle

Professora, Minas Gerais

quinta-feira 19 de novembro de 2015| Edição do dia

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A semana da consciência negra na Escola Estadual do Bairro Carajás, no Nacional, Contagem, contou com o lançamento da campanha de arrecadação aos atingidos pelo rompimento da barragem Fundão e Santarém em Mariana, organizada por professoras da escola. Como convidados estiveram professores de Contagem organizados ao redor da solidariedade operário e popular aos moradores e trabalhadores das regiões atingidas.

Juntando todos os alunos do regular e do EJA da escola e após debates em sala de aula iniciando a campanha de arrecadação para compra de água mineral para as cidades atingidas pela lama de rejeitos de minério da empresa Samarco, professores e alunos conversaram sobre a tragédia, os impactos sociais e ambientais, os responsáveis e quais questionamentos seguem sem respostas.

A campanha de arrecadação ser lançada na semana da consciência negra não foi um acaso. Grande parcela da população atingida é a população negra, que vive nas áreas mais vulneráveis ao redor das gigantes mineradoras e suas barragens assassinas assim como em sua maioria são negras as vítimas da precarização do trabalho e da vida ao redor das minas.

Da força de trabalho negra que movia as riquezas do Brasil colonial escravizada pelos portugueses e pelas elites locais, à mão de obra superexplorada por gigantes da mineração como a Vale e a BHP (donas da Samarco), reféns dos desastres ambientais e da precarização da vida nas cidades movidas pela mineração, evidencia-se a essência de um país que carrega as heranças da escravidão e de uma elite que segue subordinada aos grandes interesses dos grandes capitalistas a revelia as necessidade da população.

Tragédia resultante da ganância de capitalistas que apenas na Samarco tem lucro líquido de mais de dois bilhões ao ano. Lucro que também serve para financiar políticos de todos os partidos da ordem. O PMDB, que comanda a pasta de Minas e Energia e é até então base aliada dos governos petistas; o PT do governo de Dilma e de Pimentel, responsável pelos avanços da privatização nos últimos anos como na Petrobrás, Usiminas e Vale e pela flexibilização das leis para as mineradoras; o PSDB, arautos da privatização. A favor das mineradoras também está a grande mídia, como a Rede Globo, uma das sócias da Vale por via da Bradespar que vergonhosamente parou de filmar um morador da região de Bento Rodrigues quando este passou a denunciar a Vale.

As populações indígenas e ribeirinhas também sofrem, disse um aluno. Mas não é possível reparar os danos, indagou outro. Quanta destruição viam os olhos compenetrados de jovens e adultos sem achar nas fotografias da tragédia alguma beleza sequer das terras mineiras. Apenas destruição. Distritos destruídos pela lama, um Rio Doce que não existe mais a não ser como uma sepultura de lama corrente a matar a natureza por onde passa até em breve desaguar no mar.

Como disseram os professores convidados, da área da educação física, estávamos tristes de estar falando de tudo aquilo. Mas como professoras e trabalhadores devemos explicar que a nossa solidariedade é carregada da prontidão na ajuda mais elementar, como arrecadar água, junto a certeza de que esse sistema capitalista está podre e que tragédias como essas não podem mais ser iminentes.

A contribuição dos professores convidados foi por via de uma solidariedade operário e popular buscando uma saída racional frente a tamanha irracionalidade que serve ao lucro dos ricos e poderosos. Tamanha a tragédia que começou em Bento Rodrigues e se alastrou para dezenas de cidades em dois estados precisa de uma saída viável para atender às necessidades das populações atingidas junto ao estrago social e ambiental causado. Uma saída que aponte o confisco dos bens das empresas para serem revertidos para a população atingida e para recuperação do Rio Doce e áreas afetadas e a reestatização da Vale sob controle operário e popular, pois nem as mineradoras nem o governo Pimentel podem seguir acabando com a vida das pessoas e de todo meio ambiente.

Construa essa campanha em sua escola.

Flavia Vale é professora da E.E. do Bairro Carajás




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