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SAÚDE

Privatização da medicina no Brasil: pior a cada dia

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 4 de dezembro de 2015| Edição do dia

Para quem tenha dúvida do quanto a medicina brasileira se converteu em um amplo balcão de negócios, basta avaliar as estatísticas divulgadas nesta semana pela Faculdade de Medicina da USP: o setor privado já conta com três vezes mais médicos do que o SUS.

No país da pobreza e de uma ampla maioria de famílias que vivem com baixa renda, é uma tragédia que a consulta médica assim como os demais serviços e insumos de saúde estejam sendo transformados, a cada governo, em mercadoria. Maioria dos médicos estão no mercado, mais gente tem que pagar por uma consulta médica e cada dia paga mais caro: este é o retrato do Brasil nas estatísticas divulgadas nos jornais desta semana [O Globo 1/12/15].

A situação é ainda mais complicada em outro terreno: do total de quase 400 mil médicos brasileiros, quase 2/3, isto é, 72%, se concentram nas regiões mais ricas, Sul e Sudeste. Os médicos se concentram nas cidades e regiões mais ricas e se mercantilizam em grande escala.

A privatização da medicina funciona como um elemento de degradação da assistência médica no Brasil.

Já sabemos que muitos médicos da rede pública também trabalham na privada, o que também complica mais ainda a situação, pela relação incestuosa entre o atendimento em local público e ao mesmo tempo no privado [surge a tentação de induzir paciente do SUS a ir para o hospital privado onde aquele médico também trabalha, por exemplo]. Mas o fato é que tudo isso vem se somar ao descalabro do SUS em termos de qualidade. Os planos de saúde privados já sabemos da sua natureza caça-níqueis. Volta e meia saem no noticiário pela sua permanente política de lucrar o mais que podem e atender com qualidade o menos que possam [para cortarem custos].

Nunca como hoje a medicina veio se impondo como mercadoria cara e elitizada. E isso em um país capitalista onde as condições de trabalho são insalubres, a qualidade de vida nas grandes cidades é estressante e a carga de contaminantes tóxicos inunda nossas águas, nossos alimentos, terra e ares.

E quanto ao fato do médico se concentrar nas grandes cidades [as capitais e regiões metropolitanas concentram 24% da população, mas é nelas que estão 53% dos médicos] o presidente do Conselho Regional de Medicina do estado de São Paulo foi contundente: “O médico demora 12 anos para se formar. Não vai trabalhar em qualquer cidadezinha, sem perspectiva”. Sem comentários.

Quanto ao SUS, este sistema, que foi uma conquista dos movimentos sociais nos anos 1980, vem sendo transformado em sucata, empurrando os pacientes, sem opções, para o famigerado sistema privado, que cresceu horrores. O que prova duas coisas: que a medicina pública não pode funcionar lado a lado com a grande medicina privada e que sem o controle dos trabalhadores da saúde e dos usuários, o SUS não vai a lugar algum além da degradação e progressiva contaminação e, finalmente, substituição, na prática, pela mercenarização da medicina.




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