Educação

CRISE NO RJ

Primeiras lições de mais de um mês da greve da Educação no Rio de Janeiro

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT em 2016, é estudante da UERJ e professora da rede estadual.

Ronaldo Filho

Professor da rede estadual do RJ

sexta-feira 8 de abril de 2016| Edição do dia

O estado do Rio de Janeiro está sendo palco de diversas greves e mobilizações. Cerca de 33 categorias do funcionalismo público declararam que já estão, ou entrarão em greve, nos próximos dias. Os professores da rede estadual estão em greve há 36 dias. E já são 13 escolas ocupadas pelos estudantes, em apoio à greve dos professores e em defesa da Educação. Todo esse potencial precisa se unir e coordenar tendo em vista organizar ações combativas, para barrar os ajustes do governo do PMDB, que aplica à risca a mesma cartilha que o governo do PT em âmbito nacional. É preciso parar a cidade do Rio de Janeiro, e superar o rotineirismo das direções sindicais! Os trabalhadores e a juventude não vão pagar pela crise!

Essas lutas acontecem tendo como pano de fundo um cenário político e econômico nacional convulsionado pela tentativa da direita de impor um golpe institucional, que se alterna entre a tentativa de impeachment e pelo clamor às eleições gerais, e pela continuidade dos ajustes contra os trabalhadores e a juventude dos governos e do PT. Na semana passada o governo do PT cortou mais R$ 4,2 bilhões da Educação nacionalmente. Como continuidade disso, no Rio de Janeiro os trabalhadores do setor público estão sem receber salários, ou recebendo-os parcelados. E enquanto os trabalhadores, a juventude e o povo sofrem o peso dos ataques, soube-se que entre os anos de 2008 e 2013 favoreceu empresas de diversos setores com uma isenção de impostos que totaliza nada menos que R$ 138 bilhões de reais.

O contexto político e econômico no qual se dão, faz com que as greves e lutas do Rio de Janeiro assumam outro nível de importância nacional. Poderiam ser uma concretização de uma saída independente dos trabalhadores e da juventude contra o impeachment, as manobras da direita e os ajustes do governo do PMDB e do PT, a ser seguida como exemplo por todo o país. Que impusesse o não pagamento da dívida pública, e mais verba para Educação e Saúde. Que avançasse para barrar a direita, desatando um movimento para questionar essa democracia dos ricos, que além de garantir absurdos privilégios aos seus políticos, assassina negros, pobres e trabalhadores todos os dias. Em suma, que abrisse caminho para impor uma Assembleia Livre e Soberana.

Mas para isso teria que superar suas direções. Há que romper o rotineirismo do Sepe, MUSPE, e buscar uma unidade combativa que dê uma perspectiva a essas lutas. Ainda há tempo.

Organizar comandos de greve pela base, e assembleias em que esses dirijam

Para avançar no sentido acima posto, é necessário subverter a lógica segundo a qual a direção do Sepe toma todas as decisões, e os professores apenas marcham em atos. Os professores da rede estadual e de vários municípios em greve há mais de um mês demonstraram grande disposição de luta. No entanto, apesar de construírem a greve todos os dias, não contam com um organismo em que realmente se expresse sua organização de base, e que organize ações para vencer. Ficam reféns da política de atos rotineiros, pacíficos, e assembleias em que os comandos de greve não se expressam, dinâmica que é imposta pela direção do Sepe.

Nas assembleias as intervenções são sorteadas. O que faz com que não importe se um professor que atua numa região mais mobilizada tenha uma proposta muito importante a fazer, se fala em nome de um comando de greve, se foi eleito pela base. Esse professor terá que contar com a sorte para poder se expressar na assembleia. Da mesma forma, os comandos de greve tais como existem não foram pensados para massificar a luta, e expressar a auto-organização da base. Estão organizados com peso desproporcional da direção do sindicato, que não impulsionam e abrem espaço para que a base determine os rumos da greve.

É evidente que a direção do Sepe deve participar dos comandos de greve. Mas esses, como quaisquer outros membros do comando, devem ser controlados pela base, sendo eleitos nas suas escolas e revogáveis, caso não levem adiante as resoluções debatidas em suas bases. Organizar os comandos dessa forma, não é apenas uma questão de mais democracia nas decisões, o que em si já é fundamental. É uma questão de massificar a luta, pois quanto mais os comandos e assembleias expressarem o que ocorre nas escolas, mais adesão ativa a greve terá.

Ademais, nas assembleias gerais as propostas trazidas por esses comandos de greve e o que for indicado nas assembleias de base regionais devem ter espaço para o debate e a votação. Não pode ser que nas assembleias gerais os professores se limitem a debater a data da próxima assembleia. Não se discute quem comporá as comissões de negociação, e o que dirão. Não se discute seriamente como está a mobilização nas regiões. Não se debatem seriamente quais ações devem ser feitas para realização de uma unidade combativa com os demais setores em luta, como os estudantes que estão ocupando as escolas.

Superar a rotina da direção do Sepe, MUSPE e organizar ações combativas

Na última assembleia fizemos uma proposta de “realizar cortes de rua, que parem o Rio de Janeiro, como fizeram os taxistas recentemente. Uma ação desse tipo, construída em unidade com os estudantes das escolas, das universidades, e demais setores em luta, poderia romper o cerco midiático à qual a Globo e demais meios da grande imprensa condenam as lutas. Poderia demonstrar a força que os trabalhadores e a juventude têm quando se unem. E ser um exemplo para os demais setores que sofrem na pele o peso dos ataques”. Porém, a direção do Sepe que conduzia a assembleia sequer leu a proposta corretamente, claramente buscando impedir que ganhasse algum peso na votação.

Ao contrário disso, a conclusão que Marta Moraes, diretora do Sepe, dissemina deliberadamente ilusões no governo do estado. Após reunião com o governador em exercício, Francisco Dorneles, e o secretário de governo, Affonso Monnerat, a conclusão de Marta Moraes é de que os representantes do governo do estado, o mesmo que parcela salários, ou simplesmente não os paga, enquanto garante bilhões para empresas é...de “que acham que a luta dos servidores é justa, e fariam a mesma coisa se estivessem no nosso lugar”, de acordo com suas declarações em matéria do Globo. Como uma direção sindical que dissemina tais ilusões naqueles que nos atacam pode conduzir-nos a uma vitória?

Isso conduz a outra questão. Muito se fala em unificar as lutas. Mas a unidade deve servir para arrancar conquistas. E numa situação como a do Rio de Janeiro, em que a dívida pública deve superar os R$ 3 trilhões em 2016, enquanto o país está imerso em uma crise econômica cada vez maior há que saber que a unidade deve tomar a forma de ações combativas. Não adianta seguir pacificamente acreditando, como quer Marta Moraes, que o governador concederá nossas demandas por “achar justo”.

É preciso ter clara a necessidade de ações que saiam do script. Uma unidade que construa um dia de cortes das principais avenidas da cidade. Que paralise o estado. Que se dê a partir da unidade da base do Sepe, e do conjunto do funcionalismo que está na base do MUSPE, para superar essas direções, e que a base se coordene e determine os rumos dessa greve. Que mostre que a cidade só está sendo maravilhosa para os patrões e os governos, enquanto para os trabalhadores e a juventude falta tudo. E para que isso os verdadeiros aliados dos trabalhadores não são as direções sindicais acomodadas, que estão sem entrar no local de trabalho muitas vezes há décadas, mas hoje concretamente no Rio de Janeiro são os estudantes, que ocupam escolas em defesa da greve dos professores e por uma Educação pública, gratuita e de qualidade para todos.




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