Sociedade

PARASITA

Porque a chuva de SP e “Parasita” dizem mais sobre o capitalismo do que Guedes jamais sonhou

Em entrevista, o diretor de Parasita Bong Joon-Ho afirma que “enquanto eu dirigia o filme, tentei expressar um sentimento específico à cultura coreana, e pensei que estava cheio de “coreanismo”, visível à vista de quem olha de fora, mas quando foi exibido após a finalização, todas as respostas de diferentes audiências foram mais ou menos as mesmas, o que me fez perceber que esse tema era universal, na verdade. Essencialmente, todos vivemos num mesmo país, chamado Capitalismo, o que pode explicar a universalidade das respostas”.

segunda-feira 10 de fevereiro| Edição do dia

O ganhador do Oscar de melhor filme – o primeiro ganhador não estado-unidense e europeu – tem a agilidade de explicitar quem são as verdadeiras parasitas da sociedade. A família Parks, que vive de renda bancária num país preenchido de desigualdades, é capaz de comemorar a chuva torrencial que desabriga milhares de pobres e trabalhadores, os construtores da vida no capitalismo que moram nos precários subterrâneos.

Há alguns dias, na sexta-feira (7) era a vez de Guedes opinar sobre o que considera parasitagem. Como ultra neoliberal anti-pobre, acha que o que realmente está errado no país é que algumas pessoas tenham direitos trabalhistas e salariais preservados – um direito que deveria ser de massas mas que hoje se preserva quase que exclusivamente a algum poucos trabalhadores de empresas e serviços públicos.

Guedes foi contribuidor da venda de toda a economia chilena ao capital imperialista, fazendo com que até mesmo a água fosse privada e propriedade de empresas gringas, enquanto a população via seus trabalhos se tornando em salto informais e mal pagos. Seu projeto para o Brasil é o mesmo: um exército de “empreendedores” de bicicleta, sob o permanente risco da morte precoce por exaustão e fome. Enquanto produzimos, garantimos a circulação de produtos e atendemos as diversas necessidades sociais com serviços de diversos tipos, somos a todo tempo sugados de nosso trabalho pelo que são as verdadeiras parasitas que Guedes jamais poderia nomear.

No dia a dia da produção, após o valor que sai para nosso salário, todo o excedente da nossa força de trabalho é roubado pelo capitalista no que nós marxistas chamamos de mais-valia. Depois, nas contas de aluguel, saúde, educação, produtos consumidos, gasolina, etc. pagamos mais uma enorme parcela de impostos que se tornam verba pública, da qual apenas um valor minoritário volta para nós em direitos sociais e a grande maioria é destinada para o pagamento da dívida pública, uma verdadeira bolsa banqueiro.

Os banqueiros, parasitas do nosso trabalho duplamente, já que muitos são também os acionistas das empresas que roubam nosso suor na fonte, são o destino de grande parte da verba pública que poderia estar sendo destinada à prevenção de enchentes, socorro de vítimas, recuperação de casas e outras medidas de emergência como as listadas nesse artigo.

No caso de SP, que vive hoje uma enorme catástrofe social devido às intensas chuvas – uma cena internacional de crime contra as massas trabalhadoras e pobres, como revela Bong Joon-Ho – é possível ver essa parasitagem em prática. Em 2019, menos da metade do orçamento público destinado à prevenção de enchentes foi utilizado pela prefeitura, e mesmo sob esse dado, o Secretário Estadual de Infraestrutura e Meio-Ambiente tem coragem de afirmar que a culpa é da impermeabilização da cidade. Os projetos de canalização de córregos e outras medidas também não foram executados. No que tange aos cofres do estado de São Paulo, outra surpresa: apenas 60% do orçamento foi investido pela gestão Dória.

É por essa via que as chuvas são símbolo do capitalismo. Enquanto simbolizam uma enorme e permanente preocupação nas massas mais pobres, moradoras de morros deslizantes e porões inabitáveis, os patrões e ricos permanecem de olhos fechados, e talvez como a patroa Parks de Parasita, comemoram a umidade sem sequer imaginar a destruição provocada na vida de milhões, fruto de seu roubo sistemático.

As enchentes e a destruição que não se pode ver

Além da dor da perda de bens dificilmente conquistados – dano esse que deve ser reparado pelo Estado imediatamente – as enchentes revelam uma destruição por vezes invisível. Há décadas somos alertados por cientistas e pesquisadores dos danos climáticos já irremediáveis produzidos pela destruição ambiental e pela ganância capitalista.

Muitos são também os que se referenciam em uma série de invenções já criadas e testadas que seriam capazes de mover veículos e produzir energia de forma limpa, eliminando os danos causados pelos lucrativos combustíveis fósseis. As grandes cidades seguem se impermeabilizando também em nome do lucro, dessa vez das construtoras e das extratoras de minérios que são matéria-prima da construção civil, como o aço, o cobre e a calcita (utilizada na fabricação de cimento e argamassa). As petroleiras estão entre as 15 maiores indústrias do mundo lado a lado dos banqueiros – vários deles credores da dívida pública brasileira -, segundo a revista Forbes, enquanto as mineradoras e empresas de construção civil ocupam posições de destaque na economia mundial, em especial nos países do considerado terceiro mundo. No Brasil, a mineração na fonte já é responsável por distintos níveis de tragédia, tais como os rompimentos de barragens que tiraram centenas de vidas em Mariana e Brumadinho, o desalojamento de comunidades ribeirinhas, a poluição de territórios e águas por todo o território brasileiro e a verdadeira política genocida contra as populações nativas indígenas, que apesar da garantia constitucional, veem seus territórios dia a dia ocupados por latifúndios e pelos parasitas da mineração.

Uma saída ao problema das enchentes deve, em primeiro lugar, contar com distintas medidas de emergência para a população vítima do descaso dos governos:

1- Liberar todos os trabalhadores, efetivos e terceirizados, sem descontos de salários.

2- Liberação das catracas dos ônibus, trens e metrô para que a população possa retornar para suas casas.

3- Disponibilização imediata de prédios públicos para deslocamento de população em área de risco, além de garantia de meios seguros para deslocar todos os que estão em risco.

4- Que a população tenha acesso às informações sobre o aumento do nível dos rios e da quantidade de chuvas para evitar futuras tragédias.

5- Indenização imediata do governo a todas as famílias afetadas.

6- Revogação da MP 905 de Bolsonaro, que, entre outras medidas, desconsidera os acidentes de trajeto de ida e volta como parte dos acidentes de trabalho.

7- Impostos progressivos sobre as grandes fortunas e fim de isenções fiscais para poder destinar investimento público a uma reforma urbana radical.

É também preciso levar adiante um profundo questionamento das estruturas do capitalismo, com intelectuais e jovens estudantes dedicados a elaborar formas alternativas de construção das cidades, das moradias, assim como batalhando por medidas eficazes de subsistência urbana que revolucionem a produção e sejam capazes de proteger o meio-ambiente e inclusive regredir nos danos já causados a nível mundial.

De cima para baixo, da esquerda para a direita: Julho/2019, em Manchester, Reino Unido / Dezembro/2019, em Houston, EUA / Jakastar, Indonésia, em Janeiro/2020 / São Paulo, Brasil, Fevereiro/2020

É por causa das cenas do Brasil, da Indonésia, do sul dos Estados Unidos e em diversos outros pontos do mundo que as cenas de Parasita enquadram em seu retrato a tragédia do capitalismo em todo mundo. É preciso superar esse sistema, com a força da classe trabalhadora assumindo para si os dramas e as necessidades de todas as etnias, gêneros e povos pobres e oprimidos de todo o mundo.




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