Cultura

TROTSKI, BRETON E A ARTE

Por uma Arte Revolucionária Independente

1928. Ascensão de Joseph Stalin e da casta burocrática que traiu e afogou em sangue a Revolução Russa de 1917. Leon Trotsky, revolucionário russo e um dos principais dirigentes da Revolução foi deportado da Rússia burocratizada em 1929. As fronteiras estavam fechadas para o revolucionário russo. Passou pela Turquia, França, Noruega, fixando-se finalmente no México em 1937.

quarta-feira 29 de julho de 2015| Edição do dia

A burocracia stalinista e o nazi-fascismo atacam profundamente o movimento operário e a classe trabalhadora de conjunto. Stalin assassinou parte importante da geração revolucionária de 1917 e eliminou a Oposição de Esquerda russa. As forças reacionárias avançam. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é uma questão de tempo. Trotsky se esforça para lançar as bases da IV Internacional e elaborar "O Programa de Transição". Neste periodo também reflete os problemas da criação artística e intelectual às vésperas da carnificina imperialista.

André Breton, poeta surrealista francês, autor de "Amor Louco" e "Nadja", inimigo ferrenho de Stalin e do "realismo socialista" (arte oficial do stalinismo), vai para o México em abril de 1938 para encontrar Trotsky. Após inúmeras conversas e um intenso debate sobre a situação da arte e as perspectivas revolucionárias para a produção artística e intelectual, lançam o manifesto "Por Uma Arte Revolucionária Independente" em julho de 1938.

O manifesto faz o chamado à construção da "Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente", um agrupamento de artistas, intelectuais, cientistas e "amigos da arte" independentes do fascismo, da democracia imperialista e do stalinismo. Uma plataforma internacionalista com independência de classe na arte e na política. Trotsky e Breton alertam para a iminência do perigo. "Atualmente, é toda a civilização mundial, na unidade de seu destino histórico, que vacila sob a ameaça das forças reacionárias armadas com toda a técnica armada". Mas não tinham somente em vista a guerra imperialista que se aproximava. "Mesmo agora, em tempo de paz, a situação da ciência e da arte se tornou absolutamente intolerável".

O fascismo, a democracia imperialista e o stalinismo atacam profundamente a produção artística e intelectual justamente "naquilo que ela conserva de individualidade em sua gênese", deixando de aparecer "como o fruto de um acaso precioso, quer dizer, como uma manifestação mais ou menos espontânea da necessidade" para se tornar um ofício remunerado muitas vezes abjeto. E por isso, continuam os autores, "devemos "zelar para que seja garantido o respeito às leis específicas à que está sujeita a criação artística e intelectual". Combater a "violação cada vez mais geral dessas leis, violação à qual corresponde necessariamente um aviltamento cada vez mais patente, não somente da obra de arte, mas também da ’personalidade artística’".

Em 1938 a politica para as artes do Partido Nazista e da burocracia stalinista era eliminar os artistas que ousavam expressar em alguma medida "o amor pela liberdade" e transformar outros tantos em "lacaios" de Adolf Hitler e Joseph Stalin. Mas o manifesto da F.I.A.R.I. não se solidariza com a palavra de ordem: "Nem fascismo, nem comunismo", que corresponde às posições conservadoras e temerosas que tentam acreditar na democracia burguesa como uma saída para a catástrofe capitalista.

Para Trotsky e Breton, "a arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores da humanidade, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se à alturas que só os gênios isolados atingiram no passado". Mas reconhecem "que só a revolução social pode abrir a via para uma nova cultura" e combatem o stalinismo porque ele não "representa o comunismo, mas é o seu inimigo mais pérfido e mais perigoso".

A "surda reprovação" suscitada devido aos ataques à liberdade de criação "deve dar lugar à uma condenação implacável". A "oposição artística" é uma força que pode contribuir para desmoralizar e arruinar capitalistas e burocratas que destroem "o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana".

"A revolução comunista não teme a arte" e o artista pode se tornar em seu "aliado potencial", fundindo a necessidade de emancipação do espírito à necessidade de emancipação de toda a humanidade. A arte pode expressar a urgência de uma revolução social, pois curvar-se aos mandos e desmandos dos patrões e dos burocratas gera degradação. O manifesto considera importante retomar a ideia que o jovem Karl Marx tinha do papel do escritor. Para Marx, o escritor precisa ganhar dinheiro para poder viver mas não deve viver e escrever para ganhar dinheiro.

"Toda licença em arte", defendem Trotsky e Breton. O artista não pode ter um chefe ou burocrata que escolhe o tema, a forma e o conteúdo da obra. A liberdade de criação constitui um direito que ele deve reivindicar como inalienável. A imaginação não tem patrão e não perdoa.

Os autores reconhecem ao Estado revolucionário o direito de defender-se contra a reação política mesmo que ela venha disfarçada de ciência ou arte. Artistas reacionários que se colocam abertamente contra a revolução é um inimigo da classe trabalhadora assim como qualquer outro reacionário que não aceita o fim da exploração e opressão capitalistas. Mas, entre as medidas de defesa da revolução e a pretensão de submeter a liberdade de criação existe um abismo. "Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, cabe à revolução erigir um regime socialista de plano centralizado, para a criação intelectual ele deve já desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual".

Ao defenderem a liberdade de criação, Trotsky e Breton não pretendem justificar uma suposta "neutralidade" ou defender uma arte "pura", "que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação". Possuem um conceito elevado da função da arte para negar sua importância e influência nos rumos da sociedade. Consideram que a tarefa da arte é participar consciente e ativamente da preparação da revolução."No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior"

Milhares de artistas sofrem o cerco dos grandes meios de comunicação e estão dispersos pelo mundo entre o "realismo socialista" de Stalin e o individualismo brutal da pós-modernidade.

O manifesto quer encontrar um terreno para reunir "os defensores revolucionários da arte", artistas e intelectuais dispostos a lutar contra o estado deplorável das coisas, servir à revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade artistica. Trotsky e Breton estão convencidos de que é possível agrupar representantes de tendências estéticas, filosóficas e políticas razoavelmente divergentes, desde que rompam implacavelmente com qualquer espírito policialesco e mercenário. "Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (F.I.A.R.I.) que julgamos necessário criar".

"O que queremos:
a independência da arte - para a revolução
a revolução - para a liberação definitiva da arte"




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