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Por ser de lá e viver aqui: Os nordestinos no sudeste

Existe um grande quantitativo populacional de nordestinos na região sudeste do nosso país. Dentre esses números estou eu e parte significativa da minha família, espalhada pelos bairros, favelas e periferias do Rio de Janeiro e São Paulo. Poderia ser somente um relato pessoal de uma jovem negra nordestina, mas é a história de milhares e milhares de nordestinos espalhados pelo sudeste.

domingo 11 de abril| Edição do dia

Foto:Divulgação

Rio de Janeiro e São Paulo são as principais cidades da região sudeste, ambas tem peso político e econômico para burguesia nacional. Porém, o que é pouco dito e precisa ser sempre lembrado é que São Paulo e Rio Janeiro foram erguidos por mãos de trabalhadores negros e nordestinos. Por trás dessa lógica de grandes cidades, existe uma massa gigantesca de trabalhadores oprimidos e humilhados em condições deploráveis de trabalhos.

Dia 18 de novembro de 2003. Pela primeira vez deixo a Bahia para no dia seguinte chegar no Rio de Janeiro. Russo Passapusso, vocalista do Baiana System, em entrevista a Caetano Veloso contou sobre a sua primeira experiência como jovem do interior da Bahia no centro de Salvador, segundo ele, teve impressão de duas cidades, a alta e a baixa. Assim que pisei no Rio de Janeiro essa foi a minha primeira impressão, cidade alta e cidade baixa. E vi que de fato a lei da babilônia aqui é diferente e não sei dizer em qual dessas duas cidades eu me encaixo.

Enquanto o São Paulo ganharia fama de grande cidade industrial do nosso país e o Rio de Janeiro como principal cidade turística, os nordestinos ocupavam os postos de trabalhos mais escassos, com salários mais reduzidos e sem direito a folga ou descanso. Tantas e várias nordestinas saíram de sua terra de origem e foram direto para o quartinho de empregada no fundo da casa dos patrões. Além das condições de trabalhos semelhantes ao período da escravidão, essas mulheres trabalhadoras foram e são obrigadas a passarem por situações de constrangimentos pela sua origem nordestina.

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Luiz Gonzaga, saiu de Exu, Pernambuco e veio para o Rio de Janeiro tentar a sorte na cidade grande, só voltou para sua terra dezoito anos depois. Tenho uma tia, que passa pelo mesma situação. Faz exatamente dezoito anos em que ela sobrevive no Rio de Janeiro sem nunca mais ter voltado a Bahia. Segundo ela, perdeu a vontade de voltar para o nordeste quando o seu patrão a obrigou entre escolher o emprego ou o desejo de enterrar o próprio pai. Os mil quilômetros de distância não são apenas marcados por espaços geográficos vazios, são marcados por uma realidade de opressão e exploração que impedem os nordestinos terem o direito e orgulho da sua própria terra de origem.

Os ricos, os patrões, os grandes políticos se esforçam em várias tentativas para colocar a região do nordeste como uma região naturalmente miserável e empobrecida. Por inúmeras vias inferiorizam a multiculturalidade que existe no nordeste, zombam dos sotaques e da nossa cor, com o objetivo de diminuir a importância dos nordestinos para classe trabalhadora brasileira. Além disso, essa opressão de classe contra os nordestinos é parte do medo da burguesia de emergir no nordeste as revoltas que já ocorreram do passado.




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