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ENTIDADES ESTUDANTIS | Por que precisamos de eleições no Centro Acadêmico da Faculdade de Educação da USP?

Já são duas gerações de calouros da Faculdade de Educação da USP que não puderam votar e que não passaram pelos processos eleitorais de um centro acadêmico que os representa e organiza. As universidades sofrem ataques e os estudantes estão incertos com seu futuro. Qual a importância, afinal, de organizar eleições dentro de um contexto tão sensível?

segunda-feira 21 de junho | Edição do dia

A Faculdade de Educação da USP, composta pelo curso de Pedagogia e as Licenciaturas da USP se encontram frente a novas eleições para seu centro acadêmico, o CAPPF. Diante dos cortes às universidades federais que representam um ataque à educação de conjunto, as condições na permanência estudantil, com atraso da bolsa e dificuldade com o ensino remoto, além da pandemia que segue ceifando vidas, há setores do curso, compostos pelos movimentos políticos do Afronte (PSOL) e Correnteza (UP), que hoje constroem a chapa Esperançar para CAPPF 2021, que questionam sobre ocorrer o processo de eleições dentro desse contexto de ataques e incerteza. Nós, da juventude Faísca, junto a estudantes independentes da FEUSP, estamos construindo a chapa Transformar a Dor em Luta e mesmo sendo continuidade da gestão atual, Pra Poder Contra-Atacar, achamos que as eleições do CAPPF são necessárias nesse momento para garantir a democracia na nossa entidade.

As eleições não devem ser e não são um momento de desgaste. Não são um processo meramente burocrático ou formal. Os esforços medidos para mobilizar os estudantes, promover debates e discussões sobre programas e objetivos de chapas não são obstáculos que ficam no caminho da construção de atos (como os do dia 29M e 19J) e no caminho da construção de uma oposição ao governo de Bolsonaro e Mourão, como questionado pelos companheiros. Pelo contrário, esses processos de eleições das entidades estudantis, na verdade, são momentos de forte debate político e representam uma discussão política viva diante do momento político que nos encontramos. São momentos como esse que os estudantes refletem ativamente sobre a sua atuação como movimento estudantil e debatem as formas concretas de se organizar e lutar como um organismo vivo contra a reitoria, os governos e todo o sistema que nos ataca.

Debater as diferenças entre os programas das chapas, pensar quais propostas mais atendem às demandas estudantis são parte do processo de eleições de centro acadêmico, tornando o curso mais vivo, com os estudantes se colocando para pensar o que defendem, debatendo qual caminho devemos apostar. Diante de tantos ataques à permanência, moradia estudantil do CRUSP, fragilidade da saúde mental dos estudantes, ensino remoto e cobranças produtivistas e excludentes, ataques ao futuro da juventude com reformas e ajustes econômicos por parte dos governos, enfim, diante de tantas demandas, é fundamental pensarmos juntos os caminhos que a entidade deve seguir e, portanto, qual o programa que está a altura dos grandes desafios de organizar e fortalecer todos os estudantes.

Os processos de eleição promovem espaços únicos em que chapas de diferentes rostos e concepções podem discutir e envolver estudantes no movimento estudantil, sendo debates fraternais que tornam o curso vivo, e não picuinhas entre as chapas e movimentos políticos, pelo contrário. São espaços onde alunes podem pensar energicamente e efetivamente que rumos devem tomar e com que política devem agir os centros acadêmicos. Inclusive,

Os companheiros do Afronte e Correnteza, um dia antes do processo de campanha começar, questionaram a manutenção do calendário eleitoral definido democraticamente pelos estudantes da FEUSP na última assembleia eleitoral do dia 10 de maio, alegando que a atual gestão provisória Pra Poder Contra-Atacar, estava mais preocupada com essas eleições do CAPPF do que com a construção do dia 19 de junho, dia nacional chamado para defender a educação pública e lutar contra o governo Bolsonaro e todos seus ataques. Entretanto, como dissemos também acima, as eleições não são processos que desgastam a luta, pelo contrário, fortalecem os centros acadêmicos que são renovados por uma nova convicção política que dá sentido à atuação dos estudantes, é um momento propício para se debater os rumos da entidade e quais bandeiras levantar.

A maioria dos CAs da USP, muitos deles dirigidos por correntes de esquerda como o Afronte do PSOL, não tem realizado eleições estudantis, muitas vezes sequer assembleias eleitorais para que os estudantes definam os rumos da entidade que os representa. Nós não concordamos com a ideia de que as gestões têm que se manter eternamente nas entidades por fora de eleições. Essa é inclusive a concepção da majoritária da UNE (do PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude), que essas correntes de oposição de esquerda também levam adiante, de organizar um Congresso da UNE às pressas que sequer tenha votação de delegados e apenas troque os nomes da diretoria por força de uma votação.

O debate político guia a nossa atuação e é preciso que seja sempre mantido vivo, com espaços constantes de auto-organização dos estudantes que promovem a politização da vida estudantil. Essas discussões não podem ser deixadas apenas em momentos de ataque, mas devem ocorrer sempre para que os centros acadêmicos se tornem uma entidade de organização, uma entidade viva que envolve os estudantes e está sempre pronta para a luta.

Que tipo de entidade deve ser, afinal, o centro acadêmico? Que tipo de organização ela deve promover?

Os centros acadêmicos são historicamente entidades de luta: foram foco de resistência contra a Reforma Universitária no Brasil durante a ditadura, projeto que tornava o ensino uma mercadoria e colocava a universidade a serviço do imperialismo e da exploração. Foram foco de resistência contra a repressão militar contra os trabalhadores e a juventude que torturaram e tiraram vidas. Hoje, cumprem e devem cumprir um papel fundamental em meio à pandemia, que além de precarizar nossa educação, com o ensino remoto imposto, tem aprofundado a miséria, com aumento do desemprego, de empregos informais, estágios precários, atraso no pagamento das bolsas de permanência que são ainda mais necessárias para nos mantermos, apesar de seus valores insuficientes.

Nossa luta não deve ser por menos: para nós, o centro acadêmico tem que ser um verdadeiro instrumento de luta e organização, que unifique estudantes, trabalhadores e professores como um verdadeiro instrumento para resistir e lutar contra Bolsonaro, Mourão e os militares que estão no governo, para construir uma alternativa que organize a nossa revolta agora, não para canalizar nossa luta para uma via institucional como é o impeachment que coloca Mourão na presidência. Precisamos lutar agora, não podemos esperar até 2022 como quer o PT, que pela via de Lula repete as mesmas alianças com a direita golpista que nos ataca todos os dias.

É por isso que para conseguir fortalecer o CAPPF, defendemos uma gestão proporcional, que seja capaz de representar o conjunto das chapas participantes, de maneira proporcional ao número de votos.

Uma entidade que de fato organize os estudantes deve estar fortalecida, deve ter a confiança daqueles que a constroem e devem ter a sua convicção. As eleições para centros acadêmicos são momentos que permitem aos estudantes renovar essa confiança e, portanto, revigorar e solidificar a sua atuação, se vendo como sujeitos que tomam em suas mãos os rumos do próprio curso, do caminho para atender suas próprias demandas. Uma entidade consolidada é linha de frente contra o projeto de incerteza e precarização que o capitalismo reserva para a juventude, e é instrumento de luta contra o regime que tenta nos escravizar.

Diante do questionamento dos companheiros, a gestão provisória do CAPPF chamou uma nova Assembleia Eleitoral, pois devem ser os estudantes do curso a definir conjuntamente o calendário eleitoral da entidade que representa a todes alunes e não um ou outro grupo. Esta assembleia acontecerá nesta segunda-feira, 21, às 18h definindo se a campanha e processo de eleição de nova gestão para o CAPPF se mantém em curso, com votação nos dias 29/06, 30/06 e 01/07, ou se adia para o segundo semestre.




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