Mundo Operário

SÃO PAULO

Por que para a USP, o livro de uma trabalhadora da Universidade não é produção intelectual e tem que ser descadastrado da biblioteca?

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 8 de outubro de 2015| Edição do dia

É inadmissível e tem que ser denunciado o fato de que uma trabalhadora de nível básico da mais importante universidade do país não possa ter seus vários livros e prefácios de livros considerados como “produção intelectual”, pela biblioteca da faculdade de Educação da USP, onde esta companheira trabalha. Toda sua produção foi sumariamente descadastrada da condição de “produção intelectual”.

Nem vou mencionar que se trata de livros de alto nível de argumentação e de perspectiva [li todos eles e os recomendo]. As regras burocráticas que tentam cassar sua classificação como produção intelectual na biblioteca é que estão erradas. Em primeiro lugar são regras elitistas, antidemocráticas, mas ao mesmo tempo são uma forma retrógrada de ocultar as vozes e a narrativa dos oprimidos, dos trabalhadores de “nível básico” para nem falarmos dos terceirizados. Se fosse uma terceirizada da USP, que fizesse um livro relatando os métodos desumanos da reitoria e do governo com relação a elas, algum de vocês imagina que seria considerado “produção intelectual” e que iria ser aceito pela honorável biblioteca da USP?

Mas tem mais: não esqueçamos que a maior parte da “produção intelectual” não apenas da USP, mas também aqui da UnB [Brasília] e do resto do país, são obras de reprodução do status quo. Muita gente boa tem denunciado que as universidades brasileiras são instituições ultra-burocratizadas, dominadas pelo alpinismo acadêmico, pelo sistema de compadrio e pelo obscurantismo; e cuja alta burocracia trabalha contra o ativismo dos seus estudantes e trabalhadores e em defesa de manter a instituição sem direito a voz deliberativa para seus funcionários, professores e estudantes.

O ataque contra Diana Assunção tem que ser entendido como ela mesma denunciou: um ataque discriminatório, mas também político, contra todos os trabalhadores/as das universidades, não apenas da USP. É preciso tomar a coisa dessa forma e denunciar esse ataque publicamente e internacionalmente.

Não há nada de “excelência” nessa postura, o que existe é uma postura de classe: as castas acadêmicas, majoritariamente, não querem que a história seja contada pelos de baixo. Por isso a desclassificação acadêmica. E não interessa se são textos produzidos sem a chancela burocrática da USP: são textos de uma trabalhadora da USP e ponto. Quando a reitoria quer demitir terceirizadas da UnB faz isso sem qualquer burocracia, demite em massa por telefone. Portanto, a burocracia tem um objetivo de classe, não tem nada de neutro. E se hoje tenta escamotear uma produção intelectual, desclassificando livros de uma trabalhadora, sim, essa mesma burocracia pode fazer sumir pessoas; fui preso político e sei disso, sei o quanto a direção da UnB foi cúmplice da ditadura militar para sumir livros [autores marxistas não podiam entrar na biblioteca fisicamente e formalmente] e para prender pessoas [meu caso] e para sumir pessoas.

Portanto, juntemos as forças para que a produção intelectual de todas as Dianas sejam consideradas como são: produção intelectual. E, portanto, que voltem ao cadastro nesta condição, e que nenhuma Universidade possa ter esse direito inquisitorial de excluir a classe trabalhadora da produção intelectual através de formas discriminatórias de cadastramento .

Não deixem a situação passar: o livro é apenas o começo. Tanto para eles quanto para nós, que lutamos pelo livro, pelo pão e pelo sonho de varrer todo tipo de iniquidade.

À luta companheiros,

Gilson Dantas,
Doutor em sociologia pela UnB
Brasília 8/10/15




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