Educação

MILITARIZAÇÃO DAS ESCOLAS EM GOIÁS

Por que o governo precisa arrebentar com o ensino do segundo grau, precarizar os professores e militarizar as escolas?

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 23 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Em versão curta, a resposta para esta pergunta tem a ver com o objetivo do grande capital, incrustrado no Estado e no governo brasileiro, de continuar comprometendo metade do orçamento nacional – que é arrecadado em impostos sobre nós trabalhadores – no pagamento da dívida pública para o capital financeiro. A “mãe de todas as políticas públicas” dos diferentes governos é cevar banqueiros e o capital internacional em geral com o orçamento do Estado brasileiro. Com base nos nossos recursos assim espoliados, eles acumulam capital e eventualmente podem levantar escolas de qualidade lá nas suas metrópoles, na Alemanha, na França, na Finlândia. E depois saírem se gabando que “eles” se preocupam com educação e os brasileiros “não”.

Toda a movimentação do governo e especialmente de estados como Goiás, São Paulo, Paraná e também outros vai na mesma direção: eles precisam gastar menos com educação para poupar orçamento – os tais cortes orçamentários, o tal contingenciamento dos recursos públicos, a DRU [Desvinculação de Receita da União] etc – que é uma forma a mais de jogar sobre o estudante pobre a crise econômica deles, dos burgueses que mandam no Estado brasileiro.

E agora o governo direitista de Goiás nos chega com a novidade política de entregar escolas públicas diretamente para as mãos da polícia. Militarizar e privatizar, essa é sua agenda. Sua “reforma educacional” agora passa a incluir a entrega, em Goiás, de 24 escolas à polícia; diretamente para a Policia Militar, que passará a ser responsável por segurança, disciplina e gestão daquelas escolas. Exatamente: a mesma polícia que está batendo, torturando e prendendo estudantes secundaristas país afora, a mesma que massacrou os professores do segundo grau no Paraná, em Brasília, em todo lado, agora vem plasmar o “ensino” com sua “pedagogia”.

E não nos impressionemos: quando eles são capazes de colocar polícia dirigindo escola é porque sua irresponsabilidade com a educação da juventude brasileira não tem limites. O Estado é um instrumento de coação, já sabemos disso; na cabeça da “pátria educadora” cassetete está sendo entendido como educação.

***
O fato é que os interesses do Estado capitalista são de seguir adiante com sua barbárie privatizante. As Organizações Sociais [OS] são propagandeadas como um meio para uma gestão “mais ágil” das escolas. Nesta política concreta – mas também nas demais, tipo Alckmin etc – fica claro o sentido dessa movimentação toda de parte desses fantoches do capitalismo: além de gastar menos com educação, o mínimo do mínimo, o objetivo fundamental para o governo é impedir que os estudantes e professores tenham voz, impedir que a verdadeira revolução na gestão das escolas – anunciada pela mobilização dos secundas – possa se desenvolver, tomar formas mais avançadas [por exemplo de aliança com as greves operárias como está acontecendo na fábrica Mabe em Campinas] .

Sua estratégia, portanto, é a de que todos, a começar pelos professores rebelados, sejam enquadrados de forma policial, assim como já vinham sendo através do terror do desemprego, da precarização. Agora tiram a máscara: querem trazer as forças de repressão direta para dentro da escola. A educação da bala.

Esse é o sonho deles. E vem a ser a essência das Organizações Sociais, dessa política de afastar a escola do local de moradia, da política da precarização do professor e de todo o resto. É uma política de classe: a de garantir que as famílias ricas continuem tendo educação elitista, enquanto a família trabalhadora e pobre continue com educação de segunda classe, agora militarizada. Enquanto isso o governo faz de conta que está preocupado com o ensino. E vai levando adiante sua privatização branca, das escolas, das rodovias, dos aeroportos, da medicina e da vida.

Não há futuro com o capitalismo.

Na contramão desses interesses espúrios, a grande novidade é que a juventude do segundo grau resolveu dizer não e por isso explodiram ocupações de escola em Goiás, Campinas e São Paulo, para começar. A juventude mais combativa sentiu que se ela não for ouvida, e mais que isso, se ela não tomar a iniciativa como sujeito social e político, nada vai acontecer a favor da educação da classe trabalhadora e do povo pobre.

Esta novidade “incendiária” é o único elemento que não apenas pode barrar esse sinistro projeto de privatizar amplamente a educação, precarizar totalmente o professorado, como tem o potencial de forjar uma nova juventude que, aliando-se à classe trabalhadora, comece a demolir a casta política do nosso país. E promover transformações sociais.

Os secundaristas estão gritando a plenos pulmões: vocês não estão legitimados a falar em nosso nome, vocês nada têm nada a ver com educação, vocês são os culpados da falência da educação brasileira! O fato é esse: a educação inclusiva, universal, gratuita e de qualidade para a família trabalhadora, baseada em professores não-precarizados e na qual, nós, professores e alunos planejemos os destinos da educação jamais virá da casta política capitalista. Aliás, não há nenhuma razão para um político ganhar mais que um professor! E nem para que essa concepção vigente - autocrática, burocrática e formal - de educação siga de pé.

Os melhores sistemas educacionais do mundo, com todas as suas contradições, são públicos e não privados. A educação em Cuba, antes da sua atual burocratização, era a melhor da América Latina. Sendo Cuba um país pobre, a liquidação do capitalismo permitiu um passo gigante adiante, e não somente na educação. O passo seguinte, a gestão pública das escolas e da vida social, não foi dado, por conta da burocracia política dos irmãos Casto [que copiou e colou também naquele país, o modelo stalinista, corrompendo a revolução pela raiz].

Em todo caso nada que não possamos corrigir por aqui se levantarmos uma força política independente, fundada nos trabalhadores e estudantes. E mais: aqui estamos começando pelo bom começo: os secundaristas estão sinalizando que querem dirigir seu próprio destino, ocupam escolas, aprendem a elementar lição da política revolucionária: a emancipação dos estudantes e trabalhadores deve ser obra deles mesmos, com seus partidos e seus órgãos de massa, comitês de escola e de empresa. Na perspectiva da aliança operário-estudantil.

A saída contra aquela pauta do capitalismo para a educação começa pela rebelião dos trabalhadores, suas lutas e alianças mais e mais estreitas, programáticas com os estudantes em luta, com os secundaristas, em aliança com o professorado combativo, com os bairros e bases sindicais, na luta pela construção de uma terceira força política nacional, independente, contra o regime e o capitalismo.




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