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Por que celebramos a vida de Leon Trótski?

Laura Sandoval

Por que celebramos a vida de Leon Trótski?

Laura Sandoval

Um relato de uma jovem militante, estudante de Letras e trabalhadora.

Em 07 de novembro de 1879 nascia Liev Davidovich Bronstein. Mais conhecido como Leon Trótski. Um dos revolucionários da Revolução Russa, dirigente do Exército Vermelho, que morreu assassinado a mando de Stalin no México. Não sem antes dar os mais intensos combates à burocratização stalinista do primeiro estado operário existente, defendendo até a morte a experiência revolucionária mais avançada da classe trabalhadora.

Mas o que significa tudo isso?

Diversas frases esvaziadas podem ser escritas em homenagem a esse revolucionário. Por isso, me dou o desafio de preenchê-las com o profundo significado que elas têm, mesmo que faça tão pouco tempo desde que comecei a comemorar a vida desse camarada. Para que os leitores desse texto, quando lerem que dia “sete do onze” é aniversário do Trótski, se lembrem a que essa vida foi dedicada. E a celebrem, trazendo para si a construção de seu legado.

A verdade é que vim descobrindo que significa que ele amou profundamente a humanidade, e por isso defendeu até a morte a classe trabalhadora, lutou lado a lado com ela e a dirigiu na tomada do poder. Pois os trabalhadores organizados são o único sujeito capaz de finalmente libertar a humanidade, destruindo o sistema de classes.

Só um amor descomunal, que compreendia toda a potencialidade dos trabalhadores organizados, pode explicar toda a convicção que teve esse revolucionário, até o momento de seu assassinato. Ele sonhava; e lutou para construir em cada batalha, cada posição, a materialização de uma sociedade livre do aprisionamento, do sofrimento, da opressão e da exploração capitalista. Mesmo depois de ver o stalinismo sendo responsável pelo retrocesso de várias conquistas da Revolução Russa, derrotando-a, assim como diversos outros processos revolucionários internacionalmente, Leon Trótski manteve sua convicção inabalável na classe trabalhadora, batalhando pela construção da Quarta Internacional para defender o legado do marxismo e o estado operário como sua realização concreta contra a deturpação da burocracia de Stalin.

Essa última, foi traidora. Foi a responsável pela degeneração de tanto do que os trabalhadores revolucionários russos construíram na experiência mais avançada de liberdade que tivemos até agora. Contra essa traição da classe operária, Trótski lutou. Pelas mãos dela, foi assassinado. Por isso, recuperemos, então, o mais profundo do que significou essa vida, em contraposição à narrativa falsificadora que contam os contra-revolucionários.

Eu acho que já posso discorrer um pouco sobre isso. Esse amor que Trótski tinha pela humanidade, já comecei a sentir há uns anos, sem saber nem mesmo explicar. Há um ano vim descobrindo que ele, na verdade, também era e tinha que ser um amor profundo pela classe trabalhadora. E hoje compreendo que o que eu sinto, e que desde já inunda e transborda o peito, talvez não seja nem um centésimo do que esse grande revolucionário sentia. Que o convencia de continuar dando batalhas para construir a revolução até o dia de sua morte. Mas eu sei que todos os dias meu amor cresce.

E ele vai crescer ainda mais. A cada luta operária que eu, como estudante e trabalhadora, militante de uma juventude trotskista, me coloco à serviço junto com meus camaradas. A cada contato com a ideologia marxista, que me forja para compreender a realidade em cada um de seus aspectos, respondê-la na prática, levantando uma estratégia revolucionária. Toda vez que, em meio a todo o sofrimento e exploração que o capitalismo nos impõe, consigo sentir que a vida é bela, e desejar com todo meu âmago que todas as pessoas possam constantemente e plenamente sentir e experienciar toda sua beleza, como merecem. Ou, nas palavras de Trótski, no final de seu testamento: “A vida é bela. Que as futuras gerações a livrem de todo mal e opressão, e possam desfrutá-la em toda sua plenitude.”. Meu amor cresce.

Interlúdio:

há alguns meses, escrevi sobre um caso que me aconteceu.
“Um passarinho morreu na minha frente hoje. Bateu na porta de vidro de um supermercado. Foi pego nas mãos por um empacotador, que massageou o peito frágil dele. O coraçãozinho_ podia facilmente ser o meu. Assim como as mãos calejadas do moço_ também poderiam ser as minhas.
Todos os passantes se amontoaram em torno do cadaverzinho. Nesse cerco fúnebre, alguém soltou: é uma andorinha.
[andorinha-andorinha-andorinha]
Na volta pra casa, eu pensei no enterro indigno que ela teria.
Embrulhada numa sacola do Carrefour.
Ainda que_ tenha sido mais digno que o de vários mortos durante essa pandemia; do que o de vários mortos pelas mãos da polícia assassina e racista; do que o de vários mortos pelo capitalismo, que nos adoece e nos esgota.
Será que eu já tinha visto uma andorinha na minha vida?
Não sei dizer. Mas o mundo é tão vasto, tão belo. Queria ter visto andorinhas no céu, migrando e regressando. É o que todas elas mereciam. É o que todos nós, espectadores, merecíamos também: momentos de paz - que não existem na rotina de exploração - para poder observar as andorinhas no céu.”

E já cresceu aos saltos, desde esse caso, e desde que conheci o trotskismo, com o Movimento Revolucionário de Trabalhadores. Isso porque toda a experiência que tive e que foi capaz de me apaixonar só foi possível com a organização em partido. Um partido que se dedicou desde o início e se dedica todos os dias para me forjar, me preparar para essa enorme tarefa que temos. E, dialeticamente, eu me dedico todos os dias para construí-lo. Posso dizer que encaro a vida com outros olhos: eles brilham diante de ser sujeito de construir a revolução. Sou militante, fiz essa escolha porque é a única que vale a pena ser feita. Porque as elaborações de Marx e de Trótski, como legado do marxismo, correspondem a nada mais e nada menos que colocar em palavras tudo que sente, vive, e sonha a classe trabalhadora. E, a partir das experiências práticas de lutas dessa classe, a estratégia que vai ser o caminho para libertá-la.

Uso as palavras emocionantes do próprio camarada que celebramos, na fundação da Quarta Internacional, para reivindicar o partido que queremos ser:
“Queridos amigos, não somos um partido igual aos outros. Nossa ambição não se limita a ter mais filiados, mais jornais, mais dinheiro, mais deputados. Tudo isso faz falta, mas não é mais que um meio. Nosso objetivo é a total libertação material e espiritual dos trabalhadores e dos explorados através da revolução socialista (...) Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão.”

Assim, responder o motivo de celebrarmos a vida de Trótski, também é responder o que leva cada militante, cada camarada a dedicar sua vida ao mesmo objetivo.

Esse relato não pode ser, portanto, tão somente meu. Ele é de todos os meus camaradas, com quem compartilho esse projeto de vida todos os dias. É de todos os camaradas que constroem internacionalmente a Fração Trotskista. É de todos os camaradas que morreram defendendo a estratégia para a vitória revolucionária da classe trabalhadora, e construíram um legado a ser reivindicado neste texto. E que, neste aniversário, ele possa incendiar a vida de tantos outros. Celebremos a vida de Leon Trótski, dirigente revolucionário preenchido pela convicção de lutar por um futuro em que todos nós possamos celebrar a vida todos os dias, sem sofrimento, não só nos aniversários.

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Laura Sandoval

Estudante da Letras - USP
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