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Por que Trótski foi o maior defensor da URSS? Parte 5: As Consequências do Socialismo em um só país no plano internacional

Gabriel Girão

imagem: Macaco do Sul

Por que Trótski foi o maior defensor da URSS? Parte 5: As Consequências do Socialismo em um só país no plano internacional

Gabriel Girão

Nesta parte final do texto buscaremos discutir os impactos da teoria do socialismo em um só país na política internacional da URSS e também na orientação da Internacional Comunista

Engana-se quem acha que a teoria do socialismo em um só país ficou restrita às questões da URSS. Pelo contrário, o VI Congresso da IC em 1928 aprovou essa teoria no programa da IC. E isso teve consequências terríveis.

Se, pela teoria do socialismo em um só país, para alcançar a vitória do socialismo em um só país bastava evitar intervenções militares, o problema era transferido da luta de classes para a geopolítica e a diplomacia, a política da revolução internacional era substituída pela política de Estados nações. A Internacional Comunista, criado por Lênin para reagrupar os comunistas revolucionários em torno das experiências e balanços da Revolução Russa (e também das experiências subsequentes da luta de classes no mundo), com o objetivo de ser um “Estado-Maior da Revolução Mundial” é transformada num mero apêndice da diplomacia soviética. No entanto, o que pode a URSS oferecer para a burguesia com a IC? Bom, nada mais do que impedir a revolução internacional enquanto “pressiona” os burgueses para “neutralizá-los”.

Nesse período, a IC revive a tese menchevique da revolução por etapa, em que para os países coloniais e atrasados não estava posto uma revolução proletária e sim uma revolução democrático-burguesa contra o imperialismo encabeçada pela burguesia nacional e estabelecendo um período de desenvolvimento capitalista para que então se colocasse a questão da revolução proletária. No entanto, como mostrado pela Revolução Russa, a burguesia já era débil demais para levar essas tarefas à frente, apenas o proletariado poderia fazer, sendo esses um dos pilares da teoria da revolução permanente. Na prática, o etapismo significou abrir mão do objetivo socialista e da independência de classe, com os PCs ficando atrelados às burguesias nacionais ocasionando diversas derrotas. A falência dessa teoria é apontada hoje pelo fato que, mesmo depois de várias experiências de governos burgueses “anti-imperialistas”, os países de terceiro mundo continuam dependentes do imperialismo. Nos países da África e Ásia que eram colônias, o que ocorreu foi que, apesar de terem conquistado a independência política, a economia desses países ainda é totalmente atrelada e dependente dos imperialismos (em muitos casos das antigas metrópoles) e os problemas estruturais persistem.

Conforme a burocratização avança na URSS e na IC, o objetivo de impedir revoluções, além de ser usado diplomaticamente para negociar com a burguesia, começa a se tornar um elemento de autopreservação da burocracia. Outras revoluções vitoriosas poderiam impulsionar revoluções políticas no interior da URSS, como vimos nos levantes de 68, onde a Primavera de Praga ocorreu fortemente influenciada pelo cenário internacional. Além disso, poderia ameaçar a hegemonia da URSS no plano internacional.

O exemplo mais claro disso se deu nos acordos de Ialta e Postsdam, onde Stálin se compromete a colaborar com o imperialismo para pacificar a Europa em troca da garantia dos territórios no Leste Europeu. Vale dizer que na época a IC já tinha sido dissolvida fruto de acordos com os países do bloco aliado, mas a URSS ainda influenciava os PCs. Isso vai significar: na França, que o PCF vai chamar os partisans, que detinham parte do poder do Estado após a decomposição do regime colaboracionista de Vichy, a entregar as armas e ajuda a reconstrução do país; na Itália, após os operários lutarem contra o fascismo de Mussolini e a invasão Alemã, a direção do PCI, sob os auspícios de Palmiro Togliatti, também desarmou os mesmos e ajudou a Democracia Cristã a construir seu governo de união nacional; na Iugoslávia, após o Partido Comunista tomar o poder, Stálin se colocou contra e chegou a tentar matar Tito; na Grécia, onde não conseguiram desarmar pacificamente os operários, atuaram diretamente na repressão, inclusive perseguindo fortemente os integrantes da IV Internacional, como no depoimento abaixo do ex-militante do PC Grego Dimitris Anagnostopoulos que viveu no Brasil nos anos 70:

– Eu fuzilei trotskistas! (...) Ele perguntara ao oficial o que eram “trotskistas”. Colaboradores contrarrevolucionários dos ingleses, respondeu seu superior. Dimitris me disse que, na hora e por longo tempo, seguiu se perguntando por que contrarrevolucionários a serviços dos ingleses morreriam de braço erguido, de punho cerrado, cantando a Internacional que eles …. também cantavam! [1]

A participação de Stálin nesses acordos é uma das maiores mostras da lógica de atuação da burocracia no campo internacional. Enquanto a URSS estava sob a liderança de Lênin e Trótski, se manteve fiel aos seus princípios de uma paz sem anexação e indenização e nunca aceitou nenhuma das “recompensas” que os países imperialistas vencedores da primeira Guerra a ofereceram no Tratado de Versalhes como forma de tentar suborná-la. Além disso, não reconheceu as dívidas contraídas pelo Czar com os países imperialistas, mas também perdoou as dívidas que outros países tinham contraído com o czar. Sabiam que a melhor defesa da Revolução Russa era a expansão internacional da revolução e que nesse sentido era importante que o proletariado do mundo todo visse na prática, ou seja, a frente de um Estado Operário, a firmeza nos princípios dos revolucionários frente a todos os assédios do imperialismo.

Muito diferente de Stálin nos pactos de Ialta e Postsdam. Ali, a URSS atua quase como uma potência imperialista, participando na divisão dos países entre as potências

Com Kruschov, a teoria do socialismo em um só país ganha novos contornos sob o manto da “convivência pacífica” [2]. Além disso, os Estados operários burocratizados surgidos após a segunda guerra mundial, como China e Iugoslávia, vão seguir essa mesma lógica de política externa. Isso vai ser muito utilizado pelo imperialismo para jogar um Estado contra o outro. A Iugoslávia, por exemplo, vai se manter nos “Estados neutros” durante a Guerra Fria e irá receber financiamento do Plano Marshall. Os EUA se aproveitaram da ruptura sino-soviética para usar a China contra a URSS. Após a reaproximação com os EUA na década de 70, a China, junto com o Camboja sob a liderança de Pol-Pot, invadiram o Vietnã em aliança com os EUA! A China também apoiou os EUA a treinar os guerrilheiros mujahideen que lutaram contra a ocupação soviética no Afeganistão e deram origem ao Talibã!

Outra consequência do socialismo em um só país foi que o discurso oficial dessas burocracias governantes foi cada vez mais se afastando de qualquer traço de classe ou comunista para uma retórica cada vez mais nacionalista. Ao invés de ser apresentado como uma guerra para defender o primeiro Estado operário da história, o regime stalinista tentou apresentar sua apresentação na Segunda Guerra Mundial como a “Grande Guerra Patriótica”. A Coreia do Norte adotou a filosofia Juche que é uma ideologia nacionalista e militarista. O Juche chegou até mesmo a substituir o marxismo-leninismo na própria constituição. Isso para não falar do discurso nacionalista do PCCh à frente da China capitalista atual.

Essa lógica de pensar ainda hoje é repetida por muitos stalinistas, que ao fazer o balanço do “socialismo real” o faz analisando cada experiência de forma individual e as formas mais críticas se limitam a ver seus “acertos e erros”. Apesar de muitas vezes defenderem as ações das conduções burocráticas desses países como “o que era possível na prática” sob o manto de um suposto materialismo, na verdade essas análises nada têm a ver com a dialética materialista de Marx. Pois aqui, não se trata de analisar uma ação ou outra isoladamente, no marco de analisar essas experiências de forma individual como um fim em si mesmas, como “modelos alternativos de sociedade”. É claro que essas revoluções triunfantes, e principalmente a Revolução Russa, têm um importante papel em mostrar que sim, o proletariado pode triunfar sobre a burguesia e moldar uma economia planificada sem propriedade privada, sendo essa economia mais eficiente que a própria economia capitalista. No entanto, não se trata de fazer um balanço dessas experiências de forma idealista, como modelos a serem comparados e sim pensando todos esses processos de forma integradas pelo prisma da luta de classes internacional. E nesse sentido, o trotskismo Teoria da Revolução Permanente como a grande estratégia, como já delineamos nas partes anteriores desse artigo, continuam sendo a única teoria capaz de analisar corretamente esse fenômeno e dar uma resposta revolucionária. Portanto, longe de ser uma disputa “pessoal” como querem pintar alguns - algo que discutiremos em futuros artigos - se trata da defesa do legado do marxismo e dos ideais revolucionários contra sua deturpação burocrática.

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FOOTNOTES

[2Teoria que preconizava abertamente que seria possível a convivência pacífica do bloco da URSS com os países capitalistas, e que o triunfo do socialismo não deveria ser à força, e sim pacificamente mostrando sua superioridade sobre o capitalismo. Se tornou a doutrina oficial da URSS sob Kruschov.
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