Teoria

TEORIA

Por que Max Weber é tão importante para a universidade brasileira?

Ao entrar na universidade, o estudante brasileiro, ao menos na área de sociais, se vê na obrigação de ler Max Weber, sociólogo alemão. Será isto um sinal de excelência acadêmica e, na perspectiva dos departamentos de ciências sociais, um sinal , de abertura ao grande conhecimento sociológico? Por outra: por que M. Weber é elogiado como um clássico, como boa sociologia e por que jamais se faz o debate crítico das suas ideias?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 9 de janeiro de 2016| Edição do dia

Em primeiro lugar é importante entender que a universidade aqui e lá fora, de uma maneira geral, atravessou tempos conservadores, através dos quais foram se consolidando camadas de docentes na área das chamadas ciências humanas caracterizados por um perfil claramente liberal ou apenas esquerda-de-fachada, com as raras e honrosas exceções conhecidas de todos nós. Foram décadas e décadas de demolição, desconstrução, desvio e recuo em relação ao pensamento marxista, em especial o marxismo revolucionário. O que ficou mais conhecido no meio universitário foi, sobretudo, um marxismo domesticado, portanto mutilado, acadêmico por definição. Foram tempos de fim da história, de história sem sujeito, de “adeus proletariado”, de marxismos “analíticos” e que tais. O ambiente, com a queda do muro ou daquilo que chamavam de comunismo [na verdade revoluções deformadas, desviadas], parecia terra arrasada, tinha o sabor de triunfo do pensamento liberal-democrático capitalista.

Não por acaso floresceram autores pós-modernos, e autores como J. Habermas e Max Weber – mantidas as diferenças – se tornaram referências em departamentos das chamadas ciências sociais. Em universidades elitizadas – como aqui na UnB e em outras – tomaram corpo departamentos weberianos. Weber é apenas um exemplo, naturalmente, autores de perfil muito pior também ganharam status de referências teóricas.

A rigor, M. Weber é um autor do nosso tempo, um intelectual do capitalismo em sua fase dos oligopólios internacionais, um intelectual orgânico do imperialismo alemão e, não seria em tempos de profunda crise do imperialismo que ele sairia de cena, ao menos não em tempos de elitização das universidades e de hegemonia do neoliberalismo. M. Weber continua adequado para tempos conservadores [Ver: http://www.esquerdadiario.com.br/Max-Weber-um-sociologo-para-todas-as-estacoes ] e seu perfil particular ainda se encaixa nesses tempos. Trata-se de um intelectual, por exemplo, dotado de uma vasta erudição [e com contribuições no tema da história das religiões, da burocracia de Estado etc], que consegue, ao contrário dos seus antecessores tipo Durkheim [que acreditava que a “solidariedade orgânica” – seja lá o que isso signifique – corrigiria tudo no final] e mais ainda Auguste Comte, consegue desenvolver uma defesa do capitalismo sem se tornar um apologista ingênuo; seu pensamento é mais sofisticado, sua análise do regime alemão encontra o palavreado sociológico complexo para ao final, resumidas contas, defender um regime estável para o agressivo imperialismo alemão. Nele também se destaca uma postura aparentemente instigante ou com nuances mais contraditórias que seus pares, de crítica ao sistema, na base do seu conhecido desencanto acomodado com o “racionalismo capitalista”.

E ele desponta também como mais vinculado à historiografia e à economia que outros. Sua análise de vários temas, como o do papel da ética protestante nas origens do capitalismo –cuja ideia seminal e mais profunda, em todo caso, já consta em Engels –, seus “tipos ideais”, sua tentativa de recolocar um sentido [ou o elemento subjetivo] na sociologia, esses e outros são elementos que fazem de Weber uma conveniente “referência acadêmica”. Giddens, por exemplo, reivindica o M. Weber que quer preservar a subjetividade na análise sociológica e levantar tipologias.

O problema é que tais classificações e tipologias não possuem gênese ou explicação de por que ocorrem no mundo real, de classe. Ele busca regularidades [na economia, na sociedade] mas nas alturas – sem enraizá-las no terreno das lutas sociais - e eternizando estruturas, como a da burocracia.

São elementos que padecem de incorrigível idealismo, só que na academia do jeito que está, isso passa basicamente inadvertido, usualmente não é questionado pela raiz. Weber vai até o fim em sua obsoleta defesa de que o sociólogo pode se despir de juízo de valor, pode ser neutro, digamos assim. Ele admite, diante dos processos sociais, que suas perguntas são resultado dos seus valores e de sua cultura, mas que a resposta que encontrará será “inteiramente livre de juízos de valor, objetiva, empírica e deve ser aceita por qualquer outro investigador”. Ele não diz diretamente que “os fatos falam por si” como o positivismo em estado bruto que o antecedeu, mas está convencido de que não há relação lógica entre os valores prévios do estudioso e o conhecimento que resulta da sua pesquisa, e neste ponto ele retrocede ao positivismo metodológico, não está essencialmente em choque com aquela ideia dos “fatos falando por si mesmos”.

O fato é que as determinações idealistas [indeterminadas] atravessam toda sua obra. Sua definição de burocracia é formal. A de Estado, embora inclua, o que é relevante, a ideia do monopólio legal da violência – e até cite Trotski sobre isso – mas não vai além da ideia de Estado como “uma relação de dominação do homem sobre o homem, fundada no instrumento da violência legítima”. Qual a fonte deste poder? Como ele se estabelece? Que contradições de classe e de relações de força ele encarna?

Para a academia é importante a dimensão de Weber como crítico do materialismo histórico [na verdade ele escolhe uma determinada caricatura do materialismo histórico e a critica], também como herdeiro de tradições racionais e inconformistas. Sua aceitação da sociedade inclui aquele elemento crítico [do “desencanto”, de quem percebe sua sociedade com profunda insegurança sobre suas bases e seu futuro], inclui uma percepção da incontrolabilidade humana, sua irracionalidade, que, sejamos objetivos, ao final ele termina naturalizando na miragem da “racionalidade” capitalista. Seu pessimismo é insanável. J. Freund (estudioso de Weber) destaca uma ideia mestra de Weber: a visão de uma racionalização social crescente, na qual o irracional vai sendo reforçado em intensidade a cada tempo. Freund também destaca que para Weber, os fenômenos coletivos, ou de massa, não seriam mais racionais ou mais objetivos do que as reações individuais.

São concepções problemáticas, mais ainda nos marcos de um pensamento dilacerado por uma tensão interna insolúvel: resignado com o avanço e a universalização da “racionalidade burocrática”, ele não se sente senhor de um sistema que tenha futuro [ele viveu a época da revolução russa triunfante e da derrota do imperialismo alemão na I Guerra Mundial por exemplo]; e cai refém, na percepção de Lukács, do pessimismo: “Ao voltar seu olhar para a essência da vida social, não vê por toda parte nada além de trevas”.

Seu pensamento é estático, na contramão da realidade, que além de dinâmica é contraditória.
Justamente tudo isso o torna, vale repetir, adequado para tempos de incerteza e onde a revolução tenha sido desterrada, por assim dizer, como veio acontecendo depois das derrotas de revoluções proletárias como Portugal em 1974 e tantas outras

Também é relevante lembrar que quando a universidade assume o weberianismo como uma referência sociológica, trata de deixar de lado quem realmente foi Weber, sua vida política por exemplo. Nacionalista insanável, inimigo mortal de R. Luxemburgo, a quem se referia com profunda repulsa, quadro de confiança da cúpula imperialista alemã para negociar o acordo de paz terminada a I Guerra Mundial, cesarista declarado e defensor da pátria alemã, não há nada de qualitativo em suas perspectivas políticas que se possa chamar de progressista; muito menos pode ser encontrado no seu pensamento, sobre a dominação política, por exemplo, as determinações sociais que explicam a reprodução e muito menos a transformação do sistema [2000].

Seu nacionalismo imperialista aparece em um evento registrado na biografia de sua viúva, ali onde ela conta sobre a conversa entre Weber e o general Ludendorff [chefe de Estado alemão] quando Weber retorna das negociações do tratado de Versalhes, em 1919, onde tinha ido como membro da delegação alemã. Weber assinalou a Ludendorff a que tipo de democracia ele se referia, isto é, “Na democracia, o povo elege um líder, em quem deposita sua confiança. Em seguida o eleito declara: ´Agora tratem de se unir e me obedeçam!` A partir dali nem o povo e nem os partidos têm mais direito a lhe cobrar prestação de contas ... Mais tarde o povo emitirá seu julgamento, e se o Führer se equivocou, à forca com ele!”. Diante dessa declaração de Weber, Ludendorff lhe respondeu: “Ah, bom, uma democracia assim conta com minha aprovação”...

Existe termo de comparação com a biografia de uma R. Luxemburgo, sua contemporânea ou Karl Liebknecht?
É preciso que haja uma época de rebaixamento do pensamento crítico-revolucionário, de refluxo da luta de classes, para que autores como M. Weber venham a se tornar referência acadêmica.

No entanto, como se trata de tempos históricos que parecem atravessar um limiar de superação, especialmente no Brasil pós-junho de 2013 e vivendo lutas de trabalhadores/as muito fortes, há esperança de que essa situação viva uma reviravolta e a nova juventude possa se apropriar do pensamento insurgente, objetivo, sociologicamente revolucionário, que passa ao largo de autores como ele. A ocupação das escolas pelos secundaristas neste momento, aponta rumos. E nos chama para uma ofensiva no sentido de pôr de pé núcleos de estudos marxistas, cátedras livres, associações e sindicatos que se solidarizem com lutas vigorosas como essa, da juventude do segundo grau de São Paulo, Goiânia, Campinas, e se fundam à luta social, varrendo essa poeira conservadora que domina as universidades, sob a forma de autores que se adequam a qualquer estação liberal/conservadora.

Referências –
ALBAMONTE, Emilio, CASTILLO, Christian. Un contrapunto entre Trotsky y Weber em: Estrategia Internacional N° 16 Invierno (austral) de 2000 – Dossier: Homenaje a León Trotsky a 60 años de su asesinato.
FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. 3a.ed. Rio de Janeiro : Forense-Universitária. 1980.
URBANO, Edison, --- Guerra e revolução em Weber e Trotski, dissertação de mestrado em História Social, PUC-SP 2015.




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