Cultura

CRÍTICA

Por que Haddad separa a luta contra a barbárie nacional da barbárie imperialista em Bacurau?

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

terça-feira 1º de outubro| Edição do dia

Bacurau continua suscitando debates. Agora foi a vez de Fernando Haddad, que em um texto curto ofereceu suas reflexões, que chocam pela conclusão absolutamente interessada e forçada. Mas antes de tratar dela retomemos algumas ilustrações sobre o enredo do filme, para melhor localizar o leitor a respeito das observações críticas ao texto de Haddad. Cuidado, há spoilers inevitáveis.

O enredo retrata como o plano de um punhado de fascistas estadunidenses,devidamente arquitetado com a colaboração dedicada de representantes da burguesia local,em assassinar por esporte os moradores de uma pequena vila situada em Pernambuco, dá errado. Um a um tombam. O destino dos colaboradores nativos dos membros da gangue fascista estadunidense, seja o imprestável prefeito da cidade vizinha, ou os subservientes “brancos” do sudeste, é igualmente a morte. A tradição guerreira da população nordestina da minúscula Bacurau é mostrada paulatinamente ao espectador, e materializa-se no “Museu” dedicado a abrigar lembranças das lutas dos antepassados, dos tempos imemoriais, que se atualiza com a batalha do presente, abrigando a partir de então as marcas da resistência vitoriosa contra os brancos estadunidenses que ali chegaram para lhes matar.

Parte do sentimento de realização que aflora inevitavelmente enquanto rolam as cabeças dos fascistas ceifadas pelas mãos negras e justas dos moradores de Bacurau, remete-se ao anseio por ver derrotado o sentido de superioridade assassino tão palpável quanto o de Trump quando fala dos imigrantes. E isso inclui todos os seus colaboradores. Não apenas os imperialistas norte-americanos, para quem o resto do mundo é lixo,pagarão o preço de sua sanha de sangue à altura, como isso se dará pelas mãos humildes dos moradores de Bacurau. E também que os personagens que representam de forma alegórica a burguesia submissa nacional, que almeja ser mais aparentada com os imperialistas que com os seus, também pagará o preço pelo seu criminoso papel. Assim, um dos temas mais centrais do filme: a relação de subserviência patética e irrestrita da elite local para com o imperialismo.

Essa relação tão bem representada é justamente a que Haddad em sua crítica ao filme denomina como “simplória”. De acordo Haddad, Bacurau não seria sobre um filme “sobre o imperialismo, mas sobre a nossa barbárie”. Por que é justamente neste ponto que salta o incomodo indisfarçado de Haddad? E por que a necessidade de separar a “nossa” barbárie do imperialismo? O que Haddad teme?

Algumas breves hipóteses. Bacurau ataca impiedosamente a burguesia local, que vende e mata os seus crendo-se mais aparentada com o “primeiro mundo” que com a realidade de seu país, a quem despreza profundamente. São personagens mais ridículos, mas não menos odiosos ou assassinos que os estrangeiros que vem ao Nordeste matar por diversão. Ambos são partes constitutivas e complementares de uma mesma relação. Não há assassinos estrangeiros prestes a matar um povo, sem colaboração de setores deste mesmo povo, capaz de trair, roubar, entregar os seus. E esta é a natureza da burguesia brasileira, que desenvolveu-se ao longo de toda a sua história entregando as riquezas do país, guerreando contra seu próprio povo, anistiando generais torturadores, alimentando o racismo e escravismo que deixaram marcas estruturais na constituição do capitalismo brasileiro. E que enriquecem os de lá.

Bacurau é um soco no estomago em forma de cinema para os que acreditam que o avanço gradual, pacífico e negociado de um país como o Brasil pode se dar até que se rompa completamente a posição de subserviência e o saqueio imperialista. E mais, para os que acreditam que existe uma parcela dos capitalistas nativos que se preocupam com o seu povo, e são aliados. Politicamente, dentro do PT o ex-prefeito de SP sempre foi considerado o “mais tucano dentre todos os petistas”. E isso parece influir inclusive sobre suas opiniões cinematográficas. Separar a necessidade do combate anti-imperialista para lutar e vencer devidamente a “nossa barbárie” é uma falácia enorme. Sobretudo, em um momento em que a faceta mais abjeta, mas não a única, da “nossa barbárie” tem a cara do imperialismo igualmente mais repulsivo. Isso sim é simplório...e de consequências desastrosas, vide nossa história recente da qual alguns se recusam a aprender.

A crítica de Haddad a Bacurau deixa entrever a sua própria esperança de pactuar com os “bons capitalistas nativos” apoiados nos “bons capitalistas estrangeiros” para voltar aos “bons tempos normais”. Tudo para evitar que o povo se inspire em Bacurau e resolva pelas suas próprias mãos, e através da violência que lhes é imposta, encerrar a cadeia de misérias às quais elites internacionais e nacionais lhes condenam a submeterem-se. Bacurau é um filme sobre o imperialismo e sobre a nossa barbárie, pois essas dimensões estão unidas desde sempre. Não há barbárie de lá, que não chegue aqui. Não há barbárie aqui, que não esteja a serviço dos de lá. Os bacurauenses de todo o mundo precisam se levantar contra ambos.




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