Internacional

POLÍCIA E CLASSE

Policias: Racistas e dilaceradores de greves

Artigo escrito por Willian Lewis da Left Voice, seção estadunidense da Rede Esquerda Diário: Policiais não são trabalhadores; eles são ferramentas da opressão capitalista e, portanto, não têm nenhum lugar no movimento e na organização de trabalhadores. Sindicatos devem mobilizar junto aos manifestantes contra a violência racista da polícia.

sábado 30 de maio| Edição do dia

Com a revolta que se ergueu em Minneapolis depois que a polícia matou George Floyd e a repercussão da mídia capitalista e da direita, é provável que exista muito desnorteamento quanto a quem são nossos amigos e quem são nossos inimigos.

Sei que alguns membros do sindicato estão confusos sobre a natureza da polícia e podem se colocar do lado errado frente à esta questão. Afinal, não existem sindicatos policiais? Os agentes penitenciários são um dos setores mais sindicalizados dos Estado Unidos. Eles não são apenas trabalhadores do setor público, como bombeiros ou professores? As diferenças decorrem de suas funções.

Como o lema, a polícia de fato "protege e serve": protege a propriedade e serve aos ricos. Esse é o papel dela. As origens da polícia remontam aos apanhadores de escravos e aos aniquiladores de greves.

A primeira força policial moderna foi formada quando comerciantes britânicos juntaram dinheiro para contratar guardas profissionais para impedir o roubo e controlar as dezenas de milhares de trabalhadores nas docas. Nos Estados Unidos, os proprietários de escravos do sul precisavam de uma força para rastrear "suas propriedades” que haviam escapado para o Norte - uma força que mais tarde seria usada contra os trabalhadores quando eles começaram a se organizar e a fazer greves após a Guerra Civil.

O policiamento apareceu durante a revolução industrial porque o capitalismo necessita de um corpo de pessoas armadas que garanta que o número crescente de pessoas despossuídas peguem o que precisam dos ricos. No sistema capitalista racista dos Estados Unidos, a camada mais baixa desses despossuídos são os trabalhadores negros. Isso é uma conseqüência dos centenas de anos de escravidão, do uso da Décima Terceira Emenda para manter condições semelhantes às dos escravos através do complexo industrial-prisional, o uso do terror do tipo da Ku Klux Klan, etc. O terror policial contra os negros não é novidade - é uma função deste sistema.

Polícia contra piquetes

A confusão de alguns membros do sindicato em geral resulta de sua própria experiência. Com décadas de docilidade no movimento trabalhista, a experiência média da linha de piquetes- geralmente algo chamado de piquete informativo em que o objetivo é apenas conscientizar e não de fato bloquear fisicamente a entrada no local de trabalho - envolve alguns policiais que supervisionam o protesto à distância. Algumas vezes, se fica mais um pouco turbulento, os policiais podem intervir para mover a linha para outra parte da calçada ou direcionar o tráfego. Mas na maioria das vezes eles desempenham o papel de manter as coisas seguras e inofensivas. Às vezes, eles até apoiam as demandas dos trabalhadores - embora o digam em voz baixa para o organizador da ação ou para quem quer que esteja designado para falar com a polícia. Durante os protestos de 2011 em Wisconsin contra ataques aos acordos coletivos, não houve prisões e muita confraternização, já que a polícia também “trabalha” tecnicamente no setor público.

Tudo isso obscurece sua natureza repressiva.

Se voltarmos algumas décadas, poucos trabalhadores tinham essas ilusões. Durante o auge do movimento trabalhista nos Estados Unidos, a polícia matou trabalhadores com impunidade. Nesta nesta semana, oitenta e três anos atrás, datava-se o Massacre do Memorial Day.

Em 30 de maio de 1937, a Polícia de Chicago atirou contra uma multidão de grevistas e apoiadores da greve da Little Steel. E continuaram atirando contra as massas em fuga até matar dez pessoas, incapacitando permanentemente nove e ferindo outras 28. Muitas das vítimas foram baleadas nas costas. Os assassinatos foram declarados como "homicídio justificável". O presidente Roosevelt, que hoje muitos socialistas reformistas veem como modelo, em resposta ao massacre, culpabilizou ambos os lados. Nenhum policial jamais foi preso.

Alguns anos antes, em julho de 1934, ocorreram dois dias sangrentos: "Quinta-feira sangrenta" na orla de São Francisco e "Sexta-feira sangrenta" em Minneapolis. Em São Francisco, depois que a polícia utilizou gás lacrimogêneo e montou acusações, viraram suas espingardas contra a multidão. No cruzamento das ruas Steuart e Mission, Howard Sperry e Nick Bordoise foram assassinados. Naquela noite, a polícia continuou sua ofensiva atirando no salão do sindicato cheio de grevistas e apoiadores feridos. Também desta vez, nenhum policial foi preso.

Durante a Greve dos Teamsters [Nota da tradução: sindicato de caminhoneiros] em Minneapolis, em 1934, os trabalhadores realizavam piquetes móveis onde eles se amontoavam em um caminhão e corriam para qualquer lugar onde houvesse fura-greves. Em 20 de julho, a polícia atraiu os grevistas com dois caminhões descarregando mercadorias. Quando um caminhão-piquete apareceu, eles dispararam suas espingardas contra ele, ferindo 67 e matando John Belor e Henry Ness. Uma investigação ordenada pelo governador de Minnesota determinou que “a polícia mirou diretamente os piquetes e atirou para matar. A segurança física da polícia nunca esteve ameaçada”. Mais uma vez, nenhum policial foi preso.

Mais recentemente - há apenas 20 anos - a polícia de Charleston, na Carolina do Sul, entrou com acusação contra os estivadores que realizavam piquete, prendeu a maioria da liderança do sindicato Negro e os ameaçou com até dez anos de prisão. O vídeo é chocante devido à enorme repressão contra trabalhadores em greve. Somente um movimento internacional sustentado foi capaz de defender os Charleston Five de anos de prisão.

Recentemente, em 2011, quando a polícia estava confraternizando com manifestantes em Madison, a polícia e os estivadores da ILWU lutavam contra ela em Longview, Washington. A polícia não apenas trouxe carros blindados e barcos blindados, como também prendeu dirigentes sindicais na cidade, nem mesmo no próprio piquete.

Estes são apenas alguns exemplos da história real entre policiais e trabalhadores sindicais. Sabendo disso, não deveríamos estar lutando ao lado de nossas irmãs, irmãos e familiares negros que estão sendo assassinados nas ruas pelos bandidos armados do estado?

Como exemplo final: Philando Castile, um membro Teamster, foi baleado e morto na frente de sua namorada e de sua filha de quatro anos por um policial que havia o ordenado a parar o carro. Este assassinato foi transmitido ao vivo no Facebook para todos verem. No entanto, o assassino foi absolvido de todas as acusações. O máximo que o sindicato pode fazer foi escrever uma carta. Eles nunca mobilizaram seus membros para qualquer tipo de ação. E como poderiam, já que organizam policiais em sua afiliada Liga Teamster de Detentores da Lei?

Depois de todos esses assassinatos, o mínimo que podemos fazer é lutar para expulsar a polícia do movimento sindical. Além disso, devemos nos organizar dentro de nossos sindicatos para liderar a luta contra a violência policial. Podemos parar o terror racista com ações massivas de trabalhadores em greve, mas apenas se nos organizarmos para fazer isso.




Tópicos relacionados

Greve   /    Repressão   /    Violência policial   /    Internacional

Comentários

Comentar