Mundo Operário

DENÚNCIAS OPERÁRIAS

“Petrobras não está se importando com vidas dos petroleiros não, se estivesse reduzia metas”

Publicamos denúncia anônima de petroleiro embarcado em plataforma da Petrobras.

quarta-feira 14 de abril| Edição do dia

Imagem: Fábio Motta

As unidades operacionais da Petrobras são um verdadeiro foco de infecção de COVID. No ano passado a FIOCRUZ publicou estudo mostrando nexo causal entre embarcar e pegar coronavírus já que as unidades apresentam índices de contágio muitas vezes maiores que o restante do país. Isso se deve a descaso que a empresa pratica, fazendo, se tanto, testes 3 dias antes do embarque, que podem apresentar falsos negativos, e ainda lotam as unidades com paradas de manutenção, acoplam hotéis flutuantes (“flóteis”) para terceirizados não-permanentes para realizar obras (as paradas de manutenção). O reflexo disso é mensurável, a cada semana uma nova plataforma de uma diferente bacia de produção tem um surto com dezenas de contaminados.

A situação nas plataformas é ainda mais grave do que nas refinarias que também estão passando por surtos de COVID devido a paradas de manutenção e descaso sanitário da Petrobras, como a REPAR que está em greve nesse momento para conseguir impor o adiamento da parada de manutenção, o mesmo que os petroleiros da REGAP conquistaram com greve.
As plataformas têm características operacionais e de habitabilidade que geram maior aglomeração e exposição permanente (afinal são pelo menos duas semanas em alto mar, trabalhando do lado de outras pessoas, compartilhando cabines, refeitórios, salas de controle, etc) e um contaminado pode gerar dezenas de contaminações, internações, riscos de morte. Como aconteceu recentemente na P-54 e o foco, que segundo reportagem da TV Record foi o gerente da plataforma que permaneceu abordo mesmo sintomático.

Publicamos a seguir denúncia de trabalhador embarcado, guardamos anonimato para segurança do trabalhador. Ele mostra como a Petrobras agora diz estar se preocupando com os trabalhadores, reduzindo o número de embarcados, mas na verdade seguirá expondo os trabalhadores e aproveitando essa crise pandêmica para aumentar e muito a exploração, aumentando o cansaço e os riscos operacionais de quem está à bordo: “o pior de tudo é que estão diminuindo gente mas estão aumentando a carga de serviço. Como não vai mais “subir” uma pessoa, o que eles estão fazendo pra cumprir os índices estão colocando serviços que essas pessoas iam fazer, estão colocando pras pessoas que estão embarcadas fazerem de toda forma. Essa história que vão reduzir os serviços é só falácia deles.

Ou seja, menos pessoas embarcando (“subindo” no jargão offshore) mas com as mesmas metas de produção e manutenção, significa um trabalho muito mais extenuante e seguir colocando dezenas ao risco de contaminação, tudo para garantir o lucro e benefícios dos chefes como ele também afirma:

Na realidade vai aumentar os serviços porque não vai ter gente para embarcar e eles vão ter que cumprir os indicadores e manter o PPP [benefício vinculado a metas] do GEPLAT [gerente da plataforma] e outros chefes. E assim eles também querem agradar e enriquecer os acionistas privados da empresa.

O trabalhador também mostra o vínculo desse aumento do trabalho com uma série de medidas adotadas unilateralmente pela empresa, sem negociação com os trabalhadores e negando as contra-propostas de assembleia. Diz ele: “primeiro começaram com uma pressão imensa para todo mundo mudar de plano de cargos, sair do antigo PCAC para um novo PCR que permite a empresa trocar a função exercida pela pessoa, passar de operação para manutenção e vice-versa. Falam que é em benefício do trabalhador mas não é não, é para cada um trabalhar muito mais e o lucro não parar de subir. O trabalhador fica com uma cenoura na frente achando que vai melhorar a carreira, mas só vai trabalhar sem parar, vai entregar uma parte maior de sua saúde lá na plataforma.

O trabalhador também expõe a falcatrua da empresa se importar com a saúde dos petroleiros, ele continuou seu relato dizendo: “Tem uma total discrepância sabe, tem muito rigor no confinamento que temos que fazer em hotel antes de embarcar, mas aí termina esse rigor no último dia, colocam mais gente na aeronave do que o MPT recomenda. O que adianta confinar dias e depois aglomerar no embarque? Dá uma sensação de medidas para inglês ver sabe. Agora falam que estão preocupados com nossa saúde e resolveram mudar a escala de embarque. Vamos trocar os 14 dias embarcados, pelos 21 fora por 21 embarcado 28 fora, 21 embarcado 35 fora e de novo 21 por 28. Só alguém no conforto de sua poltrona de casa planeja a vida de alguém 21 dias seguidos em alto-mar, longe da família, trabalhando 12horas por dia cada um desses 21 dias. Como que isso pode fazer bem à saúde de alguém? Claro que não né. 21 dias no mesmo ar-condicionado que outras pessoas e sem aumentar testes nem nada, só vai aumentar o contágio. É uma palhaçada, querem é reduzir os custos com helicópteros e o total do pessoal embarcado porque nesse modelo precisam de menos gente. É tudo pelo lucro nada pela vida. E mais essa medida desrespeitou o que a maioria das assembleias propuseram que era 14 por 28, diminuindo o tempo embarcado, diminuindo a exposição.

Além de muito maior rigor sanitário, testagem permanente a bordo e outras medidas que os trabalhadores controlassem para garantir segurança de cada embarcado o petroleiro afirma:

Na realidade o que tinha que se fazer, tinha que se pensar o sistema como um todo e rebaixar os índices, porque se não rebaixar os índices e as campanhas de produção, de manutenção, de inspeção, se não rebaixar isso é balela. Tinha que fazer só o que é crítico mesmo de segurança operacional para manter o mínimo possível, assim reduziria os riscos das pessoas, mas não querem parar, querem manter o maior lucro possível. E isso mostra como a Petrobras não está se importando com as vidas dos petroleiros não, porque se estivesse, como eu disse, reduziria as metas.

O trabalhador conclui apontando os riscos operacionais e metas que desgastam quem está embarcado: “veja tem o UMS, o índice lá de unidade móvel de serviços, tudo que temos que fazer para que as plataformas do maior campo de produção do país extraia mais petróleo do que ele foi projetado. Projetaram as plataformas desse campo eram para produzir 150mil barris por dia só que estão fazendo a gente produzir 169mil por dia. Estão operando acima do projeto pela ganância deles. Para produzir mais que o projetado vão estressando a planta, tem que fazer um monte de mudanças para garantir o lucro, tem que ter ações de operação e manutenção, essas campanhas para garantir isso. É um desgaste todo dia devido essa ganância. Incentivam competição entre as plataformas prometendo bônus, que são principalmente para chefes, aí ficam fazendo você trabalhar mais e mais, qual plataforma não teve shut-down, qual não teve isso, qual não teve aquilo... E isso afeta a saúde sabe, afeta a imunidade. E é isso tudo pelo lucro. 19 mil barris a mais por dia multiplica isso por várias plataformas pelo preço do petróleo, pelo dólar, é uma fortuna a mais cada dia.”

A Petrobras como mostra o trabalhador não se importa com as vidas, mas com o lucro. E usa a própria COVID para aumentar os lucros. Tudo isso acontece em meio a um avanço imenso da privatização sobre todo o sistema Petrobras colocando medo de transferência e demissões nos petroleiros e facilitando que cada chefe adote essas medidas absurdas.

O Esquerda Diário apoia as mobilizações dos petroleiros em defesa de suas condições sanitárias e contra as privatizações. Embarcado ou em terra, próprio ou terceirizado, envie sua denúncia, garantimos o anonimato.

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