Cultura

Pequeno Memorial Prático das Revoluções Proletárias(Parte 1)

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 13 de março| Edição do dia

O Czar Nicolau II agarrou-se com todas as forças em seu trono no início de 1917. Ele apegava-se ao reflexo dos seus antepassados no espelho do czarismo. Para o último dos Romanov, a imagem imutável da Rússia deveria estender-se por todos os espelhos de todas as eras futuras. Pura ilusão. Sua família e sua corte já estavam embalsamados no Palácio de Inverno antes mesmo de serem varridos pela história. Nas frias noites do mês de fevereiro, a lembrança do rei francês Luiz XVI tornava-se um fantasma palpável que assombrava Nicolau II. O monarca francês, que teve sua cabeça arrancada durante o processo revolucionário iniciado em 1789 na França, procurava prevenir o Czar:

- Meu trono foi atirado pelos ares! Você também será chutado pelo povo... É chegada a hora de você abandonar o palco: não podemos enganar a história para sempre. Aqueles que desejam conservar o que é desigual, são sepultados pelas contradições, pelas contradições que nós, querido Nicolau, irmão de todos os luxos, geramos.

A explosão chegou: as massas de operários, soldados, marinheiros e camponeses convertiam-se num ser coletivo. Estes personagens iriam protagonizar de fato, no mês de Outubro, a primeira Revolução proletária vitoriosa da história. Portanto foi no feudal e aparentemente improvável solo russo que o chão se abriu em 1917: a Revolução tragou para as profundezas os séculos de servidão campesina e as décadas de exploração do operariado. O ensaio geral da Revolução de 1905, experiência política que embora fracassada acertou o queixo de pedra do czarismo, foi uma dura e útil aprendizagem para o proletariado russo. As massas foram fortalecendo a sua musculatura política nos anos subsequentes através dos sovietes e estavam prontas para tomar o poder. Não existe nenhuma ficção nisso: rolou pra valer! Portanto quem decide contar essa história, seja essa pessoa conservadora ou revolucionária, não pode omitir o desenvolvimento dos acontecimentos que explica o fato histórico.

Se os mencheviques embrulharam em Fevereiro o poder político para presente e em seguida o deram á uma burguesia frágil, politicamente incapaz e comprometida com a guerra imperialista, em Outubro os bolcheviques pegaram o leme político com as próprias mãos. A tempestade bolchevique representou não apenas um salto dialético na história da Rússia: foi o início da luta pela emancipação da humanidade, foi a criação de uma escola revolucionária para os trabalhadores de todos os países. É uma escola dura, sem títulos, sem paparicos e sem hora para o recreio. É uma escola de luta que enfrenta épocas conservadoras, como essa que vivemos no Brasil de hoje.

Você, que é trabalhador, nunca ouviu falar da Revolução russa de 1917? Você, que baseia os acontecimentos sociais e políticos do passado e do presente a partir das lições bíblicas, acha realmente que Deus escreveu o script de toda a história? Considera “ normal “ a sua pobreza e a pobreza das pessoas da sua família, do seu bairro, da sua cidade? Enquanto o pingo gelado da goteira do seu teto cai em queda livre sobre o nariz durante a noite, será que não existem outros “ czares “ dormindo numa cama quentinha? Ora, pegue o bisturi da dialética materialista para decifrar o corpo da história! A história das revoluções revela a anatomia das sociedades, ensina que tudo está em movimento, comprova que as massas/os trabalhadores são os protagonistas dos acontecimentos do nosso tempo.

Sim, existem trabalhadores que ficam cabreiros quando escutam a história de uma Revolução do século passado, ocorrida numa terra distante chamada Rússia. Encontramos muitas vezes aquele trabalhador que pensa que esse acontecimento não diz respeito a ele. Não é pra menos que esse trabalhador se desinteresse pelo assunto: muitos que escrevem, filmam ou falam sobre Outubro de 1917 não são revolucionários e também não estão muito preocupados com as condições de vida dos trabalhadores. A vida cultural anda saturada de historiadores que não acreditam na história e sujam as calças quando se deparam com insurreições populares, com revoluções que ameaçam encurtar o abismo entre trabalhadores e intelectuais.

Certo, nem todo historiador, escritor e artista possuem a obrigação de serem marxistas. Seria não apenas pedantismo mas pura ignorância pensar que toda a cultura deva se ajoelhar diante dos conceitos do materialismo histórico. Porém, separar de um lado o estudo/a representação da história e do outro a luta política, é algo que vem contribuindo com a ideologia dominante.

Reconhecer o fato de Outubro ter transformado não apenas um território que abrange a sexta parte do mundo, mas ter influenciado gerações dentro do movimento operário internacional, não significa necessariamente concordar com a tese bolchevique. A narrativa histórica pode puxar sardinha para qualquer lado, desde que não ocorra a distorção dos acontecimentos. O que isto quer dizer exatamente? Não podemos narrar um fato dentro de uma moral preestabelecida, ou seja, não se pode abrir mão da objetividade expressa no fio da dinâmica histórica. Entretanto, isto não significa imparcialidade diante dos acontecimentos históricos, precisamente porque a imparcialidade não existe. Logo pode-se exaltar ou condenar Outubro e mesmo que alguém deseje ficar em cima do muro, acaba sendo puxado pela lei da gravidade política.

Aquele que olha pela fechadura do tempo os fatos presentes entre os meses de Fevereiro e Outubro de 1917, não está acima deles. Diante das forças do proletariado e da classe dominante, perante personagens como Kerenski, Lenin, Trotski e Kornilov , inevitavelmente expressam-se simpatias, antipatias, adesões e condenações. Ao adotar uma posição política, ao tomar partido, investiga-se ao mesmo tempo quais personagens, partidos e instituições estão á altura dos acontecimentos no dialético enredo da história: os bolcheviques chegaram ao poder não por um golpe de sorte, mas pela leitura política correta das situações históricas que levaram as massas a reivindicar o seu irrefreável papel político revolucionário.

Caro leitor, deseja saber o significado histórico da Revolução russa? Se você quiser um ponto de vista revolucionário, é preciso tomar cuidado com acadêmicos receosos, jornalistas de aluguel e artistas comprometidos com o imperialismo. Aqui vão 3 dicas:

- O jornalista norte americano John Reed escreveu em sua obra Os Dez Dias que Abalaram o Mundo(1919):

“ Em assembleia conjunta, o Tsique e o Congresso Camponês declararam estar firmemente convencidos de que a união dos operários, soldados e camponeses- a união fraternal de todos os trabalhadores e de todos os explorados- garante a consolidação do poder, que as massas laboriosas acabam de conquistar , e a aplicação das medidas revolucionárias necessárias para acelerar idêntica conquista pelos obreiros de todos os países do mundo, assegurando, desse modo, a vitória definitiva da causa da Paz e do Socialismo “

- Leon Trotski, um dos principais dirigentes de Outubro, General do Exército Vermelho e escritor marxista, escreve em sua trilogia A História da Revolução Russa(1930-33):

(...) “ A Revolução de Outubro lançou as bases de uma nova cultura, concebida para servir a todos, e foi por isso mesmo que assumiu, imediatamente, importância internacional. Mesmo que, sob o efeito das circunstâncias desfavoráveis e sob os golpes do inimigo, o regime soviético - admitamo-lo por um minuto- fosse provisoriamente derrubado, a marca indelével da insurreição de Outubro permaneceria de qualquer maneira em qualquer evolução ulterior da humanidade “(..._).

- O cineasta Serguei Eisenstein realizou um ensaio cinematográfico da Revolução russa no filme Outubro(1928):


A Revolução russa não foi a primeira experiência revolucionária do proletariado. A Revolução de 1848 e a Comuna de Paris de 1871 são suas antecessoras, embora ambas tenham fracassado. Abordaremos estas revoluções num outro texto.




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