Internacional

HONG KONG

Pela primeira vez, Xi Jinping recua frente à pressão das ruas

O movimento democrático em Hong Kong no último fim de semana, obrigou o chefe de Governo a suspender os planos de extradição de seus cidadãos para a China continental.

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

segunda-feira 24 de junho| Edição do dia

A suspensão da extradição feito pelo chefe de Governo em Hong Kong, Carrie Lam, foi uma grande vitória para o movimento democrático do local. Frente às mobilizações multitudinárias da semana passada, Lam se viu obrigada a suspender os planos de tramitação da lei que teria permitido a extradição de seus cidadãos para a China continental.

Lembremos que a liderança chinesa Xi Jinping, não havia feito nenhum concessão depois da chamada “revolução dos guarda-chuvas” em 2014, que paralisou o centro da ex-colônia britânica durante mais de dois meses para exigir uma eleição democrática das autoridades do território semi-autônomo. Além disso, em 2017 havia alertado à população que toda tentativa de desafiar a autoridade do governo central seria como cruzar uma linha vermelha. Frente à enorme oposição da população, dos empresários locais e da crescente crítica internacional, especialmente com ameaças vindas dos EUA, Pequim pediu que Carrie Lam abandonasse o projeto. Lam, cuja imagem está profundamente desgastada, se desculpou na esperança de que a crescente multidão, estimada em mais de dois milhões de pessoas, voltasse para casa, intenção na qual não obteve sucesso até o momento de redação deste artigo.

A crescente absorção de Hong Kong por Pequim

Hong Kong é um dos centros financeiros mais importantes do mundo, um dos principais portos do mundo para o transporte de contêineres e a cabeça de praia da República Popular a nível político até o oeste. Segundo o modelo de “um país, dois sistemas” vigente até 2047, desfruta de um status político, econômico e social especial, que em comparação com o regime de partido único da República Popular, dispõe à população maiores direitos, incluindo por exemplo o livre acesso à internet.

Este esquema permitiu que a China continental se beneficiasse do consenso dos empresários e setores profissionais mais importantes da ex-colônia, mas a autonomia está cada vez mais restrita. A existência de um verdadeiro regime democrático colocaria em perigo a supremacia do PCCh e por consequência a estabilidade do país. Por conta disso, a derrota da “revolução dos guarda-chuvas” impediu que as autoridades deste território especial fossem eleitas por meio do sufrágio universal como era a demanda do movimento.

Para acabar até o final com as aspirações democráticas da população, Pequim recorreu a duas estratégias de longo prazo. A primeira consiste na intensificação da integração econômica e de infraestrutura da área mais ampla da baía do delta do rio Perla, que perpassa Hong Kong, Macau e nove cidades de Guangdong (Guangzhou, Shenzhen, Zhuhai, Foshan, Zhongshan, Dongguan, Huizhou, Jiangmen e Zhaoqing). O conglomerado deveria competir com os principais centros tecnológicos estrangeiros e dar suporte ao plano Made in China 2025, o qual a República Popular deseja montar em alta escala a nível industrial.

Por sua vez, a integração da infraestrutura facilita a transferência dos moradores de Hong Kong à China continental. 500 mil pessoas já renunciaram aos benefícios de Hong Kong, atraídos por propriedades mais baratas e mais amplas na China continental. No sentido contrário, os investimentos dos chineses ricos da República Popular Chinesa no porto também estão aumentando. Ambos os movimentos podem acabar debilitando o sentido de pertencimento da cidade e fortalecer a soberania de Pequim sobre ela, ou ao menos esta é a aposta da burocracia do PCCh. A segunda estratégia é relançar Hong Kong como um centro financeiro sob a iniciativa “Belt and Road” (B&R), iniciativa de infraestrutura e negócios promovida por Xi Jinping para aumentar as conexões entre a República Popular e a Eurásia.

O consenso da elite econômica local depende da prosperidade da região. Daí surge a necessidade de garantir a Hong Kong o status de “grande conexão” entre China e o resto do mundo. É preciso ter em conta que ainda que a importância do território tenha diminuído como consequência da integração das cidades da China continental na economia mundial, os “privilégios” dos quais ainda desfruta (negociar com regras mais flexíveis, absorver o capital estrangeiro de diferentes maneiras e permitir o movimento de cidadãos estrangeiros com maior facilidades que China) o convertem a uma ponte necessária entre China e o mundo, e perder este território significaria perder um canal chave para interagir com a economia global. Mas se a burocracia chinesa busca utilizar esses laços ao seu favor, o capital internacional ainda exerce uma enorme influência em Hong Kong. Algumas de suas instituições recicladas dos tempos da colônia buscam ou podem servir para disciplinar o Estado chinês e seus capitais no sentido de uma maior liberação como demanda o capital ocidental.

Neste marco, a forte oposição dos principais grandes capitalistas à lei de extradição, o que ameaçava a estabilidade capitalista da grande colônia, foi um forte alerta a Xi Jinping. Até o dia de hoje, as disputas entre uns e outros eram parte de uma disputa de poder que se dava nos bastidores. A aceleração das prerrogativas de Pequim abriu uma brecha na aliança do governo chinês com os grandes capitalistas e uma parte importante da classe média, aliança que vem governando Hong Kong desde a devolução ao domínio chinês em 1997. Se o interesse dos principais grupos locais como beneficiários do desenvolvimento capitalista de Hong Kong é mais propenso ao status quo, a consolidação do controle de Pequim beneficiará o Estado e os capitalistas chineses, mas não servirá ao mínimo dos interesses das massas trabalhadoras chinesas.

Os maiores protestos da história da ex-colônia

As mobilizações atuais superaram amplamente às de 2014, sendo as maiores da história da ex-colônia. As mesmas são uma continuação de certos aspectos da “revolução dos guarda-chuvas” como por exemplo sua radicalização, contando com vários ativistas e acadêmicos.

O ativista e analista Au Loong Yu fundamenta que: ”Neste movimento de 2019, estamos presenciando a continuação de uma tendência já muito visível em 2014, que foi o forte sentimento a favor de ações descentralizadas e sem líderes. A revolução da comunicação faz com que a coordenação seja muito mais fácil agora, e que uma organização rígida seja menos necessária. No entanto, existe uma espécie de fetichismo da espontaneidade entre os jovens ativistas. Muitos simplesmente veem a organização como supérflua ou necessariamente autoritária. Inclusive o relativamente novo Demosistō, fundado e dirigido por Joshua Wong (um ativista de vinte e dois anos que chegou à fama durante a revolução dos guarda-chuvas), parece não ser suficientemente atrativo para os jovens da atualidade. Hoje qualquer um pode ser um líder temporário e pedir ações radicais sem avaliar os prós e contras”.

Por sua vez, para Chun-Wing Lee, membro do grupo socialista Left 21 e editor do The Owl: “O aumento do regionalismo e da desconfiança das organizações, desde meu ponto de vista, são as principais consequências negativas do Movimento dos guarda-chuvas. Mas a experiência de confrontar a polícia nas ruas em 2014 claramente empoderou a muitos ativistas, e mais pessoas se mostraram receptivas às ações radicais nas ruas. Sem esta mudança, que é parte de um legado do movimento dos guarda-chuvas, os manifestantes provavelmente não haviam conseguido ocupar a área externa do Conselho Legislativo, forçando o cancelamento da reunião neste conselho”.

Mais distante ideologicamente dos outros, o corresponsável pelo diário francês Le Figaro faz a mesma constatação: “sem um líder, o movimento se apoia sobre o poder horizontal das redes sociais, incluindo o aplicativo de mensagens encriptado Telegram para compartilhar as informações e se organizar, para se despistar da polícia. Uma batalha high-tech tomada seriamente pelos hackers de Pequim que lançaram um ataque sem precedentes contra o aplicativo esta quarta-feira, quando os estudantes cercavam o edifício do conselho legislativo a fim de bloquear o tratamento do texto rejeitado. Uma ação determinada que provocou uma forte resposta por parte da polícia com uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Uma violência pouco comum na cidade que deixou o establishment impactado, até no coração do poder, alimentando o receio de um desfecho mortal. Esta forte resposta contrasta com o pacifismo defendido pelos líderes do ”movimento dos guarda-chuvas”... Os “guarda-chuvas” se endureceram, firmando nos bastidores a reconciliação entre “localistas” partidários dos métodos de choque que haviam ocorrido durante as mobilizações de 2016 e o núcleo pacifista do movimento. ‘Decidimos deixar de criticar uns aos outros. Somos complementares. Quando se trata de enfrentamento com a polícia, se põem na linha de frente. Enquanto isso, nós levamos a cabo as ações de abertura para extensão do apoio da opinião pública”, explica Poly”.

Neste marco, a ausência do menor organismo de auto organização como consequência do culto à espontaneidade, impede uma discussão democrática dos objetivos e ações do movimento, assim como sua capacidade de lutar contra as provocações tanto do governo de Hong Kong como de Pequim. A ação sobre o parlamento que nem mesmo estava em sessão tinha evidentemente um caráter aventureiro, e foi o que desencadeou a brutal repressão; mas o surpreendente desta ação radical é que foi bem recebida pela grande maioria das massas pela primeira vez em décadas. O rechaço contra a polícia também se generalizou. Mas em geral estamos assistindo ao nascimento de uma nova geração política que se politiza e radicaliza a passos largos. Como disse Au Loong Yu: “A geração dos guarda-chuvas representa uma ruptura com a geração anterior em termos de identidade cultural: agora é mais provável que se identifiquem como chineses de Hong Kong do que chineses, e por trás disso está o vínculo emocional com Hong Kong, do qual carece a geração anterior. O que faz com que a geração dos guarda-chuvas seja especial é o fato de terem começado a desenvolver tais compromissos e se politizaram quando o governo rejeitou sua demanda por sufrágio universal. Este ano, o projeto de lei de extradição de China politizou ainda mais a uma geração mais jovem. Lembro que no último dia do movimento dos guarda-chuvas, as pessoas penduraram um enorme cartaz que dizia: ‘voltaremos’. Esta profecia se realizou”.

Por trás da mobilização democrática, um temor social e existencial crescente

A chegada massiva de habitantes oriundos da China continental modificou profundamente a estrutura sociológica da população. Muitos chineses ricos compram imóveis em Hong Kong para obter uma permissão de residência e um passaporte que os permite viajar sem visto para o Ocidente. Hoje, ao menos uma em cada sete pessoas de Hong Kong nasceu na China continental. |Todos esses movimentos têm aprofundado a desigualdade social já presente na região. Como diz Frédéric Lemaître, correspondente em Pequim do Le Monde: “A aquisição de uma moradia se faz impossível para os filhos da classe média. A contrário do que transpassa a paisagem encantadora da baía de Hong Kong, a vida é muitas vezes difícil e o futuro, tanto política como economicamente, parece sombrio para muitos dos seus habitantes. A crise na qual vive Hong Kong é, então, bem existencial”. É que estes não têm os mesmos meios que as classes altas para buscar soluções por fora do território, dispondo por exemplo, de um segundo passaporte. O ativista socialista anteriormente citado confirma esta situação: “... a classe média mais jovem, especialmente os profissionais, ficou bastante descontente com o governo. Se é verdade que o temor de que o estilo de vida relativamente liberal em Hong Kong esteja sob uma ameaça seja uma razão importante, é inegável que o aumento dos custos de vida, especialmente de moradia, seja outro fator. Desde 2003, o governo chinês tem tratado de estabilizar essa relação aumentando os valores dos ativos de Hong Kong. O capital da China continental é uma das causas do crescimento do mercado imobiliário e do mercado de valores. Mas esta estratégia de governo claramente se mostrou contraproducente, já que que cada vez é mais difícil para os jovens comprar suas próprias casas. A jovem classe média e os estudantes se converteram na base das forças de oposição em Hong Kong”.

Dito isto, há um importante limite de classe no movimento atual. Como Au Loong Yu diz: “A mobilização de rua contra o projeto de lei de extradição da China é a principal preocupação deles. No entanto, se não conseguirem desenvolver sua política de maneira democrática e orientada para a esquerda e superar sua fragmentação, talvez não consigam se consolidar em uma força progressista forte. Em segundo lugar, a ênfase nas ações orientadas para a mídia, um legado dos pan-democratas (alinhamento político em Hong Kong que apoia o sufrágio universal do Chefe do Executivo e do Conselho Legislativo), ainda domina em grande parte entre os jovens ativistas, a ponto de não apenas os esforços organizacionais de longo prazo serem negligenciados, mas também há uma indiferença em relação à situação dos trabalhadores. Muitas pessoas agora chamam os trabalhadores para atacar, mas isso não foi bem-sucedido. Eles simplesmente tratam os trabalhadores como uma espécie de “fast food”; tudo o que é necessário é fazer um pedido e o garçom o entregará imediatamente. A trajetória histórica de Hong Kong torna uma cidade hostil em relação aos valores da solidariedade, fraternidade e igualdade. Uma cultura social darwiniana, o resultado de ser um porto livre por mais de 150 anos, penetrou tanto na população que é difícil para as forças da esquerda crescerem. Para que isso aconteça, jovens ativistas devem começar a resolver o problema da classe.”

Hong Kong: uma pedra no sapato bonapartista de Xi

Do ponto de vista do movimento de massas, as contradições são importantes, e para as autoridades de Pequim não têm nada fácil. Contra a visão interessada de seus líderes que transpiram um nacionalismo exultante, a China hoje está em uma posição muito diferente de uma década atrás. A crise mundial de 2008 enfraqueceu a posição da China como exportadora. Desde então, tem procurado aumentar o consumo interno, controlar seu sistema financeiro e administrar o crescimento mais lento sem criar uma grande crise política e social. O acúmulo de poderes e mudanças nas regras de sucessão - o que lhe permite governar indefinidamente - transformaram Xi Jinping no líder com mais poder e maior capacidade de impor sua vontade do que qualquer outro líder chinês desde Deng Xiaoping. Mas o bonapartismo chineses é uma expressão da dura transição que terá pela frente nos próximos anos, na qual será forçada a tomar uma série de decisões difíceis diante da acumulação desenfreada de dívida interna que eles vão colocar a prova, bem como o papel da China no mundo.

Visto deste ângulo, as mobilizações massivas do povo de Hong Kong são as primeiras reações significativas à sua virada autoritária desde sua chegada ao poder em 2012. Eles constituem uma pedra no sapato bonapartista de Xi. Como afirma Willy Lam, da Universidade de Hong Kong: "Xi Jinping tenta projetar a imagem de um supernacionalista. O caso de Hong Kong mostra essa imagem, que o líder de 1,4 bilhões de chineses não pode controlar um território de 7 milhões de habitantes.”. Em parte, os eventos em Hong Kong são promissores para o presidente do Partido Democrático Progressista, Tsai Ing-wen, em sua candidatura à reeleição no próximo ano em Taiwan. Na ausência de uma alternativa de classe, este partido é considerado por uma parte significativa da população como um mal menor e seu candidato - o atual presidente - é visto como a pessoa mais viável para resistir à China. Esse partido burguês experimentou uma derrota massiva nas eleições municipais como resultado de sua política anti-trabalhadores desde que assumiu o cargo, mas variantes populistas de direita como Han Kuo-yu e o CEO da Foxconn, Terry Guo, ambos considerados extremamente pro-China e altamente preferido pelo PCC, estão perdendo terreno. Uma segunda vitória eleitoral do PDP significaria outra derrota para a estratégia das autoridades de Pequim em relação a Taiwan.

No imediato e frente a crucial negociação comercial da próxima cúpula do G20 no Japão, os eventos inesperados em Hong Kong enfraquecem a posição da China em sua "guerra comercial" com os EUA. O novo uso da bandeira dos direitos humanos, bem como as concessões econômicas dos Estados Unidos. para este território, na medida em que mantém o status atual, foram brandidos pela administração Trump como novas ameaças contra uma potência chinesa cada vez mais sobrecarregada. Voltando a Hong Kong; é a maior crise política desde o seu retorno à China, e está longe de estar fechada. Pequim não pode permitir que a vitória parcial dos manifestantes estabeleça um precedente perigoso, demonstrando que uma mobilização massiva o suficiente pode empurrar o gigante asiático para trás. Em Hong Kong, as massas encorajadas querem tomar o governo.

Se apesar da suspensão da lei, a radicalização não parar como o esperado pelas autoridades chinesas e de Hong Kong, Pequim poderia se inclinar a uma saída fortemente repressiva, com conseqüências imprevisíveis tanto localmente, quanto no resto da China e internacionalmente. A demanda aberta pelo massacre da Praça da Paz Celestial, 30 anos após seu aniversário, deixa poucas dúvidas sobre a provável atitude das autoridades chinesas. Mas naquela época, o Ocidente realmente parecia interessado na abertura comercial chinesa. No novo contexto geopolítico de rivalidade estratégica entre Washington e Pequim, as equações obviamente não seriam as mesmas. Uma estratégia de trabalhador independente deve encontrar seu caminho no meio de todas essas contradições e interesses em jogo. A conjunção entre a resolução da questão de classe na mobilização das massas de Hong Kong, com o despertar democrático e operário das massas chinesas contra o bloqueio midiático de Pequim, será a única saída progressista.




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