Teoria

PRÉ-LANÇAMENTO: Leia a “Introdução’ à segunda edição de “A revolução e o negro”

Como parte do pré-lançamento de A revolução e o negro, publicamos aqui a “Introdução” de Marcello Pablito e Daniel Alfonso à segunda edição.

Daniel Alfonso

São Paulo

Marcello Pablito - Trabalhador do Bandejão da USP e diretor do SINTUSP

dirigente do MRT e fundador do Quilombo Vermelho

quarta-feira 13 de novembro| Edição do dia

Aos escrevermos estas linhas, a América Latina ingressa na rota que sacudiu França, Sudão, Argélia, Catalunha, Equador e Chile. Os ventos da luta de classes que sopraram pela primeira vez em anos após a Primavera Árabe se dispersaram pela Europa e chegaram em nosso continente. A crise econômica iniciada em 2008 deu à luz distintas expressões de crise orgânica, da qual fazem parte diferentes níveis de polarização social e política.

O esgotamento do projeto econômico e político da hegemonia neoliberal abre caminho a governos populistas de extrema-direita, porém traz à tona também expressões ideológicas de crítica progressistas e de esquerda a esta ordem social decadente sustentada sobre a exploração e a opressão. O ressurgir da luta de classes impõe na ordem do dia o rearme teórico, político e estratégico para transformar profundamente a sociedade. Esta é uma época para revolucionários.

Nesse cenário, as negras e os negros, bem como as e os imigrantes, estão entre os que mais sentem os terríveis efeitos do capitalismo e, como em toda a história, ocupam os postos mais destacados na luta de classes. Passados 11 anos do início da crise capitalista, o chamado “consenso globalizador” dá lugar ao recrudescimento dos discursos nacionalistas e xenófobos, anti-imigrantes e racistas, que ganham projeção internacional em figuras como Trump nos Estados Unidos, Salvini na Itália e Bolsonaro no Brasil. Os efeitos da crise capitalista se materializam em cenas terríveis de imigrantes mortos na travessia do Mar Mediterrâneo, na tentativa de cruzar as fronteiras do México com os Estados Unidos e na formação de campos de concentração para imigrantes na Europa. No coração do imperialismo, a polícia segue assassinando sistematicamente jovens negros, como Mike Brown, Eric Garner, Philando Castile e tantos outros. Naquele país, milhares de negros saíram às ruas gritando Black Lives Matter (As vidas negras importam), e suas vozes têm ecoado na cabeça e na alma dos setores oprimidos em todo o mundo. Na África do Sul, país do apartheid, o símbolo da opressão imperialista inglesa foi questionado de maneira frontal em uma das mobilizações estudantis mais importantes da década. “Rhodes must fall” (Rhodes deve cair), em seguida, “Fees must fall” (As taxas devem cair) foram as palavras de ordem de um movimento que radicalizou suas demandas questionando os símbolos do imperialismo (representado na estátua do colonialista inglês Cecil Rhodes) e conseguindo impor a contratação dos trabalhadores terceirizados da Universidade do Cabo. Foi também na cidade sul-africana de Marikana que centenas de mineiros enfrentaram a sede de lucro da mineradora britânica Lomnin, impondo heroicamente o atendimento de suas demandas depois de meses de protestos e dezenas de mortos e feridos. Ambos os processos foram respondidos com massacre por parte das forças de segurança, relembrando a todos que Sharperville não está em um passado distante. O belo texto de C. L. R. James, “Imperialismo na África”, escrito em meio aos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, deixa claro que os interesses do povo africano são diametralmente opostos aos dos imperialistas.

A execução da vereadora negra Marielle Franco, no Brasil, segue como uma ferida aberta do golpe institucional. O assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê foi um símbolo da ascensão de uma extrema-direita racista e herdeira do golpe institucional. A repressão estatal que leva a vida de jovens negras como Ágatha Félix de apenas 8 anos, os índices assustadores de desemprego e precarização do trabalho que atingem, sobretudo, a juventude negra no Brasil são emblemas de como o avanço do racismo se materializa no cotidiano em um contexto de crise econômica.

Aqueles que mantêm os olhos abertos e os sentidos minimamente alertas percebem que a sociedade capitalista na qual vivemos é incapaz de garantir as mínimas condições para uma vida digna para a imensa maioria da população. Uma das maiores expressões do descontentamento em relação ao capitalismo, ao presente e ao que o futuro promete é o ressurgir do socialismo como referência de uma sociedade distinta. O surgimento de novos processos da luta de classes internacionalmente abre caminho também ao questionamento do racismo, da xenofobia e do patriarcado com renovada força, em especial na juventude, ganhando espaço na sociedade – não raramente por fora dos sindicatos e partidos tradicionais da democracia capitalista.

Desde suas primeiras manifestações, há algumas centenas de anos, o desenvolvimento do capitalismo presenciou uma transformação das relações do homem com a natureza sem precedentes. Criação e destruição se combinaram de uma maneira inédita, dando corpo às classes sociais, diferenciando-as umas das outras no campo de batalha da história.
Uma das formas encontradas para a expansão das relações capitalistas de produção significou a violenta destruição das sociedades do continente africano. A transformação de mulheres e homens negros em mercadorias a cruzarem o horizonte até pouco desconhecido foi possível graças a um nível de violência e opressão que os números, em si impressionantes, são incapazes de expressar. O contínuo desenvolvimento das forças produtivas abriram caminho à combinação da utilização de avançadas técnicas com as mais brutais vias de dominação do homem pelo homem. Um dos artigos desta coleção, “Quando surgiu o preconceito contra o negro”, explora essa questão, e valendo-se de contribuições anteriores, relaciona o surgimento do racismo aos primeiros passos do capitalismo.

O racismo esteve no centro e a serviço da incansável busca da nascente burguesia por uma força política correspondente ao seu cada vez maior protagonismo econômico em relação à nobreza. Esta é uma das conclusões do artigo que abre e dá nome a este livro: “A revolução e o negro”, de CLR James. O leitor encontrará outras, mas adiantamos uma que nos parece essencial: negras e negros terão um papel decisivo na construção do socialismo, maior ainda do que a monumental influência sobre os rumos do próprio desenvolvimento capitalista.

Em meio à Revolução Francesa iniciada em 1789, a revolução burguesa de maior envergadura, os negros da ilha de São Domingos alcançaram sua liberdade livrando-se das amarras políticas da metrópole francesa. Em um momento de profundas transformações, os escravos da ilha de São Domingos deram um dos maiores exemplos de luta por liberdade que a humanidade conhece, ao abolir a escravidão e garantir sua liberdade política. Antes de qualquer outra elite regional descolar-se dos interesses imediatos de sua metrópole, os escravos liderados por Toussaint L’Ouverture e Jean-Jacques Dessalines compreenderam que viver sem as amarras da escravidão exigia lutar contra o império que bradava “liberdade, igualdade e fraternidade”, mas não lhes estendia essas palavras. E, assim, escravos insurretos impuseram a primeira derrota a Napoleão e seu exército, o mais poderoso da Europa. Surgia o Haiti como um grito de liberdade na América colonial.

Reduzir o papel de negras e negros no desenvolvimento do capitalismo ao trabalho escravo é uma operação tacanha, estimulada e difundida pela ideologia dominante para reservar às massas negras um lugar subordinado na história da humanidade. Entre tantos exemplos, acaso não foi imenso o impacto do surgimento do Haiti em meio à luta pela hegemonia das potências metropolitanas no Atlântico? As notícias de um país governado por negros e negras não espalharam pânico em todas as elites coloniais?
Os artigos deste livro foram escritos por revolucionários, a partir das lições dos escravos insurretos. Nas palavras de C. L. R. James

Antes da revolução eles haviam parecido sub-humanos. Muitos escravos eram chicoteados sob qualquer pretexto, até mesmo para se levantarem e se moverem de um lugar a outro. A revolução os transformou em heróis. [1]

Os herdeiros de Toussaint e Dessalines, Zumbi, Dandara, Harriet Tubman e de todos os anônimos desbravadores da liberdade se encontram entre os que lutam pela derrubada da burguesia, essa classe herdeira da Casa Grande, do chicote, do libambo, da tortura, do estupro sistemático, dos Códigos Negros.

Estamos chegando ao fim da segunda década do século XXI. Há mais de cem anos nos encontramos vivendo em uma época de crises, guerras e revoluções. As exigências do imperialismo levaram a horrores infligidos ao povo negro em todos os cantos do mundo. Em meio à barbárie da Primeira Guerra Mundial, a classe trabalhadora e seus aliados realizaram a maior experiência libertadora desde então, tomando o poder na Rússia em 1917, dispostos aos maiores sacrifícios para sentir o gosto de dominar seu próprio destino. Para isso, contaram com um partido de novo tipo, revolucionário e internacionalista, construído sob a égide de Marx, Engels, Lênin, Luxemburgo, Trótski.

A confiança na força revolucionária da classe trabalhadora e dos povos oprimidos é parte integral de toda a história do marxismo. Também o é a certeza da imperiosa necessidade de independência de classe e a utilização incansável dos recursos e da criatividade para a conquista do poder político e a possibilidade de construir o socialismo sobre as ruínas do capitalismo. Aqui nos referimos ao poder político real, baseado em organismos de auto-organização das massas, organização racional da produção e da economia, desarmamento da burguesia e armamento dos trabalhadores e do povo pobre.

Estes são alguns dos requisitos para a possibilidade de uma sociedade mais livre. Afinal, como imaginar, se não a sociedade de conjunto, mas um país, uma região livre se a polícia, o braço armado da burguesia racista, assassina sistematicamente negros e negras, joga-os na prisão, reprime e criminaliza a cultura negra? Somente um Estado controlado pelos trabalhadores e o povo pobre pode garantir que os negros andem nas ruas livremente, sem receio de serem assassinados. Sem o peso da opressão sistemática, as mais distintas expressões da cultura negra poderão aflorar, em explosão criativa e libertadora.

Um dos maiores desafios da luta pelo socialismo no século XXI é a constituição de uma política que seja capaz de responder às demandas de raça e classe em perspectiva revolucionária. Enganam—se os que fecham os olhos à tensão permanente do marxismo revolucionário a esse desafio. Os textos que fazem parte deste livro são uma pequena mostra de que a heroica luta do povo negro é parte inseparável da luta de classes e do papel inestimável do marxismo revolucionário para ambas. Foram escritos após a criação do primeiro Estado operário da história, em meio à luta da Oposição de Esquerda e da IV Internacional, lideradas por Trótski, contra os rumos que o stalinismo estava dando à maior experiência revolucionária do século XX.

A repressão sistemática a todos os críticos dos rumos que a burocracia stalinista impunha à revolução foi parte fundamental dos sucessivos esforços da burocracia stalinista para perpetuar-se no poder. A obsessão de Stálin pela morte do maior dirigente vivo da Revolução Russa, principal nome ao lado de Lênin, se realizou em 1940 com o assassinato de Trótski por Ramón Mercader.

Foi no processo vivo da busca por uma orientação revolucionária que fosse capaz de derrotar o imperialismo e nossos inimigos de classe que Trótski e seus aliados se confrontaram política, teórica e programaticamente com Stálin e sua “teoria” do socialismo em um só país. Essa concepção teórica e a orientação burocrática adotadas pela Internacional Comunista sob a orientação de Stálin tiveram impacto decisivo para o fracasso da expansão internacional da revolução, cobrando também das massas negras um preço pago em sangue. O reflexo dessa política no continente africano significará o retardamento em décadas dos processos de independência desses países. A política de “alianças estratégicas” com as burguesias nacionais (supostamente em prol de um combate ao imperialismo) defendida pelo stalinismo levará à subordinação da enorme energia das massas africanas aos estreitos limites impostos pela burguesia de seus próprios países, impedindo que esses processos avançassem à expropriação da propriedade privada dos meios de produção e, assim, abrissem um novo capítulo livre do jugo imperialista sobre esse continente.

Justamente por vivermos em uma época de crises, guerras e revoluções, a tarefa imperiosa da classe trabalhadora é a conquista do poder político. Essa tensão colocará no centro da reflexão dos marxistas revolucionários do século XXI a necessidade de uma estratégia para conectar as batalhas parciais, cotidianas, ao objetivo político da tomada do poder como meio necessário à construção de uma sociedade socialista e do comunismo, e os desafios da luta contra o racismo são parte integral dessa tensão. Nesse terreno, a Teoria da Revolução Permanente desenvolvida e aprimorada por Trótski no curso dos processos revolucionários também terá um valor inestimável.

Assim como os negros haitianos derrotaram Napoleão para conquistar sua independência e verem-se livres da escravidão, a classe trabalhadora do século XXI deve tomar o poder político e derrotar a burguesia racista, para que seja possível erigir uma nova sociedade.

Uma das premissas fundamentais da Oposição de Esquerda e da IV Internacional é a inexistência da separação entre países supostamente maduros e não maduros para a revolução socialista. O stalinismo transformou a Rússia em uma suposta exceção histórica e orientou a aliança dos partidos comunistas às burguesias nacionais ao redor do mundo. Nos processos agudos de luta de classes, essa orientação cobrou um preço terrível, abrindo caminho para a contrarrevolução. Em outros, como nos Estados Unidos da primeira metade do século XX, a linearidade histórica do stalinismo, que enxergou feudalismo em todos os cantos onde não havia capitalismo desenvolvido, transformou a política correta de direito à autodeterminação de povos oprimidos em uma política etapista carregada do ceticismo em relação ao papel do povo negro na construção do socialismo.
Para Trótski, ao contrário, a defesa do direito à autodeterminação se relaciona sempre com o objetivo de aumento da confiança revolucionária dos negras e negros em suas próprias forças, no combate ao chauvinismo burguês e sua influência nas fileiras operárias brancas e na derrubada revolucionária da burguesia.

No terreno da luta de classes não há resposta pronta; é o próprio movimento da história que oferece o material para a ação. Entretanto, o combate dos escravos insurretos, dos trabalhadores, do povo pobre e dos oprimidos nos ofereceu lições valiosas. Os textos a seguir são uma parte desse todo.
O mundo mudou bastante desde que os textos deste livro foram elaborados. Os centros urbanos ganharam ainda mais importância, recolocando questões centrais como falta de moradia e elementos básicos para uma vida digna. A classe trabalhadora se expandiu enormemente como nunca antes na história, ainda que muito mais fragmentada (entre efetivos e terceirizados, nativos e imigrantes) e precarizada (para o qual o racismo continua sendo um componente fundamental). Os sindicatos encontram-se cada vez mais integrados ao Estado, transformando-se de ferramentas de luta dos trabalhadores no seu contrário e sob o controle de burocracias que atuam conscientemente para controlar e dividir a classe trabalhadora, limitando o seu horizonte aos objetivos corporativos e parciais de cada categoria. Um momento marcado pela emergência de movimentos sociais por fora dos sindicatos e partidos tradicionais da democracia capitalista e onde a conquista de direitos parciais é utilizada pela própria burguesia como via de contenção para esvaziar de força e conteúdo o que há de mais subversivo na revolta explosiva das mulheres, dos negros e dos imigrantes e reafirmar as bases de uma ordem social de exploração.

Os efeitos dessa sociedade decadente deixam em nosso país, o maior país negro fora da África, suas marcas no corpo de uma juventude negra açoitada em supermercados por não poder consumir 4 barras de chocolate. Nas ruas, a alegria e a energia dessa juventude se perdem nas estatísticas de dezenas de milhões de desempregados, de um futuro incerto que se equilibra em cima de uma bicicleta, embaixo de enormes caixas decoradas com slogans de iFood, Rappi e Uber. Caixas de entrega muito maiores do que o horizonte oferecido pelos capitalistas a esses pequenos ombros negros, que carregam 12 horas por dia os lucros milionários das empresas em troca de um real por quilômetro rodado.

Mas nas ruas dos centros urbanos é também essa juventude que arranca seu futuro a cada dia, dando em rimas às velhas gerações um sopro de vida em uma sociedade que não nos deixa respirar. Uma juventude que desfila orgulhosamente sua identidade e sua cultura negra que pode fundir suas energias com a força social de uma poderosa classe trabalhadora negra, feminina e precarizada que, a exemplo dos garis do Rio de Janeiro, em 2014, podem fazer reviver nessas veias o sangue fervente dos guerreiros da liberdade.

Essa nova realidade torna ainda mais necessária e urgente a difusão dos textos que o leitor tem em mãos, pois coloca o desafio de que essas lições se plasmem em uma estratégia capaz de organizar e unir a classe trabalhadora (brancos e negros, homens e mulheres, imigrantes e nativos) com essa juventude. E, a partir dessa força, revolucionar os sindicatos, retomando-os para a luta de classes e assumindo para si demandas como aquelas levantadas pelo IV Congresso da Internacional Comunista (que mantém toda sua atualidade) como a luta pela igualdade salarial entre negros e brancos (que no caso das mulheres negras significa uma diferença de 60% em relação ao dos homens brancos) e para que os sindicatos organizassem o conjunto da classe trabalhadora. Esperamos que este livro possa ser lido e debatido por todos que sentem ou entendem o racismo como uma das mais perversas características do capitalismo, e que os exemplos das heroicas batalhas revolucionárias do povo negro encoraje novas gerações de mulheres, negros e jovens a trilharem esse caminho necessário, somando-se à urgente tarefa de construção de um partido revolucionário.

Por fim, não é possível saber ainda qual a dinâmica futura dos acontecimentos na América Latina, mas o ressurgir da luta de classes terá um impacto significativo na luta em nosso país. A confiança na força da classe trabalhadora passa pela politização do ódio contra o racismo. Nas palavras de Trótski, “os negros estão convocados a serem vanguarda da luta revolucionária”.

***

Conheça a segunda edição revisada e ampliada de A revolução e o negro – textos do trotskismo sobre a questão negra: http://esquerdadiario.com.br/PRE-LANCAMENTO-segunda-edicao-de-A-revolucao-e-o-negro-Confira-a-agenda-de-lancamentos

Leia a “As mulheres africanas na linha de frente da luta anti-apartheid de Letícia Parks para a segunda edição de A revolução e o negro.

Preço promocional de pré-lançamento e nas atividades: R$ 25,00. Para adquirir o seu, entre em contato com as Edições Iskra pelo Facebook: https://www.facebook.com/EdicoesISKRA/

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