DIA DAS MÃES NO JACAREZINHO

“Ouvi policiais dizerem que 20 mães chorando era pouco”: mãe de jovem morto no Jacarezinho

Hoje não teve dia das mães na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Após três dias da maior chacina já registrada na cidade, dezenas de mães sofrem e se revoltam com tamanha barbaridade cometida pelas polícias civil e militar do estado.

domingo 9 de maio| Edição do dia

Foto: Mães de Manguinhos / Facebook

Enquanto Mourão e o bolsonarismo seguem justificando a covardia assassina da polícia, parentes sentem o luto. Reunimos aqui alguns relatos de mães cujos filhos tiveram suas vidas ceifadas pelas mãos do Estado brasileiro. Os relatos foram feitos ao UOLe revelam que os ocorridos no Jacarezinho foram muito diferentes do que a narrativa feita pela polícia.

Muitas mães e parentes foram chamadas pelos próprios filhos pelo whatsapp no momento em que estavam encurralados pela polícia. A ideia era que a presença de algum familiar pudesse impedir com que ocorrece qualquer execução, mas não foi possível. A mãe do jovem Marlon Santana, de 23 anos, dá o seu relato sobre o dia:

“Meu filho me ligou às 8h e eu perguntei onde ele estava, para gente ir para lá ajudar. Tinha muito jovem sendo coagido, e a gente ia para lá, as mães, para poder tirar e levarem eles presos. Mãe nenhuma cria filho para ser bandido, eu não criei. Quando meu filho foi para se entregar, no Beco do Caboclo, junto com outros, mataram todo mundo. Foi a hora que meu filho parou de falar comigo. Eu fui até lá, tinha quatro coagidos. Falaram que meu filho estava na casa. Fiquei no beco esperando meu filho sair, mas ele não saiu.

Meu filho não vai voltar mais. Isso não foi operação, foi uma chacina. Isso vai ficar impune? Essas mães todas chorando vai ficar impune? A gente não cria filho pra ser bandido, não. Nunca vi uma operação dessas. Isso não foi uma operação, foi assassinato. Podiam ter levado preso. E eu ouvi os policiais dizerem que 20 mães chorando era pouco, que tinha que se f* e chorar mais, chorar mais mães ainda. Eu não vou comemorar mais Dia das Mães, Natal. Minha vida acabou. Eu preferia ser morta, mas enterrar um filho... Eu preferia morrer. Não foi uma operação, foi uma chacina.”

Algumas mães estão sofrendo o luto da perda de seus maridos, também covardemente assassinados pela polícia. Foi o caso da esposa de Cleiton da Silva de Freitas Lima, de 27 anos, que preferiu não se identificar e é mãe de um menino de 3 anos:

Meu marido ficou de pé, eles entraram na casa, colocaram meu marido de costas e atiraram. Os moradores da casa me contaram. Não tinha mais arma, não tinha mais nada. Eles estavam ajoelhados pedindo para não morrerem, e mataram mesmo assim. Eles foram para matar, não para prender. Não é porque a gente mora em comunidade, meu marido podia ser o que for, mas esse não devia ser o fim dele.

Foi covardia pura. Moro no Jacarezinho desde que nasci [há 26 anos], mas nunca vi uma operação desse tipo. Já vi troca de tiros, mas nada igual. Quando fui perguntar do meu esposo, falaram: ’Ou está preso ou está morto, se preso não está, a gente deve ter matado’. Eu vi. Isso ninguém me falou.”

A mãe de Cleiton também deu o seu relato sobre a morte do seu filho:

“Como meu domingo vai ser? Tomando calmante, tomando chá, remédio de pressão? Estou desde ontem sem dormir. Isso só vai dar em alguma coisa porque estão comentando lá fora [do Brasil]. Um bom trabalho seria prender, não matar. Eu sou mãe, o policial chegou na minha cara e não me deixou ver o corpo, dizendo que, se fosse meu filho, eu veria no cemitério.”

Por último, Pedro Donato de Santana, de 25 anos, levou um tiro no coração e deixou 2 filhos e uma esposa grávida. Sua mãe contou um pouco sobre como foi esperar para ver o corpo do filho no IML e os policiais ficarem gargalhando da situação de dentro da viatura:

“A gente olha para a cara dos policiais e eles estão rindo. Eles têm família, mas a gente também tem. Meu filho não morava no Jacarezinho, mas minha sobrinha procurou saber dele e não achou. Saiu buscando em hospitais. Encontrou ele no Souza Aguiar com um tiro no coração. Quando eu soube, aquilo me fez perder o chão. É uma hora que a gente até deixa de acreditar que Deus existe, porque sai coisa da nossa boca que a gente não sabe nem o que fala. Por enquanto eu estou calma, porque ainda não vi ele.

Eu quero enterrar logo, porque ele já foi mesmo, agora quero que ele descanse em paz. O que meu filho fazia, não interessava. Meu interesse é meus filhos, ele era o meu mais velho, eu tenho outras seis meninas e o meu caçula, de nove anos. Eu tinha oito filhos, agora só tenho sete. Meu filho tinha dois filhos e a mulher dele está grávida de outro. Não tenho a menor ideia do que vai ser do meu Dia das Mães, não tenho nem palavras.”

Esses são apenas alguns relatos de mães que tiveram a vida de seus filhos ceifadas pela polícia. Mas não traduzem por inteiro o luto e o sofrimento de todas que viveram a chacina. Como afirmou Carolina Cacau, do Quilombo Vermelho e do Esquerda Diário: “O estado lava a favela em sangue, enquanto a favela clama por comida, emprego e vacina. Cláudio Castro, Bolsonaro e toda a polícia são responsáveis por esse massacre. Que esse crime marque o país pra que a gente lute contra a impunidade, pelo fim das operações policiais, fim dos auto de resistências e por uma investigação Independente. Essa polícia precisa acabar e faremos isso com a força da nossa classe.” Veja o vídeo completo abaixo:




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