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Movimento estudantil e estratégia | Os “esforços” da unidade com a direita vão derrubar Bolsonaro? Um debate com o Juntos!

No último dia 11, o Juntos! (MES), um coletivo de juventude do Psol, publicou um editorial em que defende que “nossos esforços daqui em diante sejam pela construção de atos o mais unitários possíveis”. Por meio deste texto queremos fazer um debate com esse coletivo e com todos aqueles que desejam debater qual deve ser a estratégia para a construção de uma esquerda anticapitalista e revolucionária em nosso país, que seja realmente capaz de unificar as forças da nossa classe para derrotar Bolsonaro e responder a profunda crise capitalista que nos assola.

Luiza EineckEstudante de Serviço Social na UnB

Mafê MacedoEstudante de Psicologia da UFMG

quinta-feira 16 de setembro | Edição do dia

Foto: juntos.org

No editorial publicado pelo coletivo Juntos! é afirmado que seus militantes não iriam ao ato do dia 12, convocado pelo MBL, ainda que achem progressivo “iniciativas de unidade ampla que impulsionam a luta pelo impeachment.” Isso por acreditarem “ser necessário maior amplitude possível com todos os setores que defendem o Fora Bolsonaro.”.

Esses atos foram bastante fracassados, mostrando como a direita tradicional e os neoliberais do MBL estão com dificuldades não só na escolha de um candidato eleitoral para defender seu programa neoliberal de ajustes, mas também em mobilização. Isso sem contar o conteúdo que se expressou nas manifestações onde se via faixas escrito “volta Temer” e em Salvador e Porto Alegre até mesmo a direita arquirreacionária com bandeiras "Don’t Tread on Me" (as mesmas vistas na invasão ao Capitólio) estava presente.

É preciso batalhar hoje por unificar a nossa classe contra Bolsonaro, Mourão e todos os atores desse regime golpista que impõem uma série de profundos ataques, usando as suas instituições para defender os interesses da burguesia. Mas o que na prática significa colocar todos os esforços para construir a unidade com todos os setores que hoje são oposição ao Bolsonaro? Sem se importar com a classe que eles defendem. Isso na prática é unificar a luta ou na verdade a condição para se aliar com esses setores seria abandonar pautas essenciais da nossa classe?

Defender a “maior amplitude possível com todos os setores que defendem o Fora Bolsonaro” através da tática de unidade pelo impeachment, que inclui até mesmo reacionários como Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, na realidade significa não avançar no questionamento da direita e de golpistas que votaram por cada um dos ataques que nos fizeram chegar até esse situação calamitosa.

Quando dizem que se aliar com aqueles que querem nos atacar “independente do arco ideológico, independente de quando tenham se tornado oposição” não significaria uma adesão a um projeto liberal e da direita ou de conciliação de classes, cometem um enorme equívoco. Concentrar esforços para fazer unidade com esses setores seria, na verdade, optar por um caminho de conciliação.

Isso seria pedir para os indígenas que estão há semanas dando um exemplo de luta em pé de guerra contra a votação do marco temporal pelo STF e a PL 490 no Congresso, que agora eles precisam concentrar seus esforços em batalhar para estar nas ruas com os mesmo parlamentares que no congresso defendem os latifundiários e o agronegócio. Seria dizer para os trabalhadores que estão em duras greves contra os patrões e a justiça burguesa que agora a luta deles precisa ser ao lado dos mesmos setores que votaram as reformas que precarizam suas vidas, que fazem suas famílias passarem fome.

Quando falamos que essa política divide nossas lutas estamos falando disso, concentrar nossos esforços em se aliar com o mais amplo arco de setores que estão contra Bolsonaro, é na prática abrir mão de defender pautas essenciais, como o combate às reformas ou marco temporal, em nome do impeachment. A “maior amplitude possível”, que os militantes do Juntos! defendem, não passa de papel molhado quando o preço de incluir o MBL em nosso movimento é justamente deixar de fora dele as reivindicações mais sentidas pelos trabalhadores e pela maioria da população, demandas essas que são defendidas com unhas e dentes pelo MBL e toda a direita. A direita só defende essa saída por não estar conseguindo passar, com legitimidade, a quantidade de ataques contra a classe trabalhadora que gostaria.

Essa “unidade de ação” passa longe do reivindicado por revolucionários como Leon Trótski, cujo legado não é verdadeiramente apropriado pelo Juntos!, e sua política na prática se transforma apenas em uma “unidade” que termina por fortalecer a própria direita. A fórmula “golpear juntos, marchar separados” da tática de Frente Única Operária (que é a tática segundo a qual se pode conquistar a mais ampla unidade que precisamos, que é entre os trabalhadores, os movimentos sociais e todos os setores oprimidos, no qual não cabe a direita, que se colocam contra uma mesma demanda, como poderia ser a luta contra Bolsonaro) sempre está em função da atuação comum na luta de classes. Plataformas políticas comuns com a direita, como é o impeachment, é equivalente a “marchar junto” com nossos inimigos e, assim, “não golpear nunca”. Um desastre!

Não teria muito mais força efetiva contra Bolsonaro e seus aliados, concentrar todos os esforços em fortalecer as lutas em curso, que hoje estão isoladas e dividas pelas burocracias sindicais, para que elas sejam base de apoio para uma grande paralisação nacional? Imaginem o impacto que poderia ter se as bancadas parlamentares do Juntos! fizessem uma grande campanha para que as centrais sindicais da CUT, CTB e a entidades estudantis como a UNE, para que convoque uma paralisação nacional? Que ao mesmo tempo nas universidades, as entidades dirigidas pela esquerda e os militantes das correntes colocassem seus esforços em chamados para assembleias de base onde nós possamos votar um plano de lutas onde todos nós possamos decidir quando, de que forma e por quais pautas iremos as ruas?

Esses seriam passos importantes no sentido de fortalecer a luta por uma frente única operária, que é algo totalmente diferente da unidade ampla com todos os setores que na prática é a esquerda abrindo mão de pautas essenciais para se subordinar a direita. Batalhar para unificar as lutas em curso é uma tarefa importante da esquerda, de modo a unificar os trabalhadores, estudantes e movimentos sociais contra cada ataque na luta de classes, inclusive com manifestações onde tivéssemos liberdade para levantarmos nossas bandeiras, como a luta contra as privatizações, a carestia de vida e pelo Fora Bolsonaro, Mourão e militares.

Nós da Faísca Anticapitalista e Revolucionário acreditamos que essa força social poderia inclusive impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, impulsionando a auto-organização dos trabalhadores em aliança com os setores oprimidos em combate aos interesses capitalistas. Sabemos que nem todas as organizações e o conjunto dos trabalhadores e oprimidos concordam com esse programa, por isso colocamos em debate justamente para avançar na discussão a partir das experiências em curso, como forma de fortalecer nossa batalha por um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo, o único que pode de fato responder profundamente aos problemas sociais gerados pelo capitalismo.

É imprescindível que combatamos a visão de que o que precisamos é de uma frente ampla para “unidade de ação” que aceite e celebre a presença da direita nos atos da esquerda e fecha plataformas em comum com setores empresariais, como é o impeachment. Não é possível confiar que a resolução ou ainda, que a “atenuação” de nossos problemas se dará pela confiança no mesmo congresso e judiciário que atacam nossos direitos todos os dias e são base de sustentação do Bolsonaro justamente por causa disso. Levar adiante essa política, ao contrário de resolver os enormes problemas que vivemos, tende a ser um desvio atual e refluxo futuro da força capaz de protagonizar a saída dessa crise, que é a classe trabalhadora aliada aos setores oprimidos com seus métodos de luta, a começar por uma greve geral e plano de lutas que, como já dito, a esquerda deveria não só defender, mas empurrar as centrais sindicais e a UNE para convocá-las.

Acreditamos que essa visão do Juntos! está completamente ligada a enorme de adaptação deste coletivo às alas do STF e do Congresso, já que abertamente defendem que nossa mobilização nas ruas deveria ser para pressionar que o teatro da CPI da Covid leve o reacionário Congresso a abrir um impeachment. Ou seja, que toda a nossa força nas ruas deveria servir para canalizar o descontentamento articulado pelos próprios golpistas com a CPI da Covid, para, que através de uma saída institucional como é o impeachment, coloquemos o vice Mourão (PRTB) no lugar de Bolsonaro, um general do exército, que comemorou o golpe de 64 mais uma vez este ano e que quer reeditar a Reforma da Previdência, para atacar ainda mais os trabalhadores e preservar os salários dos militares e dos juízes.

A política equivocada que o coletivo defende hoje é uma clara continuidade da política de anos atrás. O MES/PSOL e a sua colateral de juventude, Juntos!, se adaptou a nada mais nada menos do que o golpe institucional no Brasil, apoiando, inclusive, a Lava Jato. Anos depois, sem tirar nenhuma lição deste erro gravíssimo, é possível ver Luciana Genro dizendo que essa corrente não é fanática da Lava Jato, mas que sim a defendeu e ainda defende a operação em nome de um combate à corrupção. Seria cômico se não fosse trágico que amplos setores de massas já tenham entendido por A mais B que nunca se tratou de combate à corrupção, e essa corrente, que agrupa alguns dos fundadores do PSOL, ainda estejam presos nesse “conto de fadas” em que Sérgio Moro supostamente cumpriu um papel progressista em algum momento.

É importante destacar que o objetivo eleitoral do PT, escancarado com a articulação dos pedidos de impeachment, aponta que a intenção é desgastar Bolsonaro, se aliando com setores da direita ex-bolsonarista, para se tornar viável para setores da burguesia e eleger Lula em 2022. Enquanto a central sindical que esse partido dirige, a CUT, mantém uma enorme paralisia, sem organizar a classe trabalhadora em nenhum dos milhares de sindicatos que dirige no Brasil. Isso sem falar do PCdoB, que dirige a CTB, que diretamente foi na manifestação fracassada do dia 12, se ajoelhar diante do MBL.

Quando o Juntos! defende que não podemos esperar 2022 e critica no editorial a realização de atos espaçados que não extrapolam “a uma massa de trabalhadores”, essas críticas não acontecem porque veem o absurdo papel das burocracias que impedem e freiam a luta, ou porque estão fazendo exigências concretas às centrais sindicais e estudantis para que de fato construam um paralisação nacional e assembleias de base - esse seria o esperado de uma organização que é parte da direção de importantes entidades estudantis do país. Na prática essas críticas vão contrárias a real política levada pelo Juntos!, que se concretiza em apenas desgastar o governo Bolsonaro visando 2022, o que infelizmente são funcionais para fortalecer sua conclusão de que a tarefa agora é concentrar esforços para convencer a direita a marchar com os indígenas e todos os trabalhadores para defender o impeachment.

O Juntos!, consentindo com que os calendários burocráticos ditem o sentido de nossas mobilizações e rumos políticos, vem mantendo uma prática bastante adaptada à política do PT e do PCdoB no movimento estudantil. Fazem isso não fomentando espaços de auto-organização dos estudantes para promover o amplo debate sobre quais seriam as pautas a se levantar nos atos e como, de fato, conquistar a unidade dos estudantes com a classe trabalhadora e os movimentos sociais para derrotar o bolsonarismo e o conjunto dos ataques desse regime. Ao contrário disso, vêm se posicionando nesses espaços defendendo que a unidade construída é somente em torno da pauta do Fora Bolsonaro para de forma alguma romper a ampla frente articulada. Já presenciamos isso em diversas reuniões na UFMG, na qual se contrapuseram a nossas propostas de exigência a UNE e as Centrais Sindicais por um plano de lutas. Ou de uma luta unificada entre estudantes trabalhadores na UnB pelo Fora Bolsonaro e Mourão.

Não existe espaço vazio na política. E essa máxima ilustra muito bem a situação em que se encontra a juventude no país, milhões que rechaçaram o golpe reacionário de 2016 e que também não confiam no PT, que passou ataques contra os trabalhadores e estudantes nos anos de seu governo, e que abriu portas para o golpe de 2016 e para Bolsonaro com sua política de conciliação de classes. E, agora, quer repetir essa mesma política de conciliação para continuar administrando o capitalismo brasileiro depois que o bolsonarismo e a direita passou inúmeros ataques contra os trabalhadores. Esse espaço precisa ser disputado por uma esquerda socialista e revolucionária com um programa de independência de classe.

É preciso unir a insatisfação e a combatividade dessa juventude com as ideias revolucionárias com uma política de independência de classe, não se adaptando a unidades falidas e aos conteúdos da direita que se fizeram presente nas ruas dia 7 com o bolsonarismo e dia 12 com MBL e cia. Essa deve ser a ambição de uma esquerda que leve a sério a tarefa de construir um partido revolucionário no Brasil.




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