Opinião

EXPANSÃO DO AGRONEGÓCIO E CRISE

Os “dois Nortes” do Brasil: o preço que se paga pelo império do agronegócio

No Brasil, sobrepõem-se muitas crises que, tanto pela intensidade real ou espaço na grande mídia, parecem ter seu primeiro estalo no Norte. No Amapá faltou luz e energia, no Amazonas faltou o oxigênio. Os motivos das faltas são os mesmos: a incompetência e sede de lucro da gestão privada combinada ao descaso dos governos e a debilidade estrutural da região. Manaus volta agora como a cidade onde mais agudiza a crise multifacetada que atravessa o Brasil, com os contornos não do vírus, mas do crime, da polícia e das cheias.

sexta-feira 11 de junho| Edição do dia

Um novo capítulo de uma mesma crise: a crise de segurança e crise sanitária em Manaus

São 455 mil pessoas impactadas pela cheia recorde do Rio Negro, que chegou aos 30 mentros (nível nunca atingido desde que começou a ser medido em 1902). Pelo menos, 15 bairros foram atingidos. Em certos pontos, as pessoas só podem circular pelas passarelas. Comerciantes e lojistas afirmam que sofrem prejuízos. Por todo o Amazonas ocorrem inundações. Das 62 cidades, 48 estão em estado de emergência.

Trabalhadores são obrigados a circular pela cidade que tem diversos pontos de alagamento, alguns continuam em suas casas, mesmo alagadas, um ambiente propício para infecção de doenças como a leptospirose. Outros, que evacuaram de seus lares deixando para trás seus pertences, reclamam que o auxílio aluguel do governo é insuficiente para conseguir manter-se com uma moradia.

Se não bastasse, uma crise de segurança pública eclodiu neste final de semana, após a PM matar uma liderança do Comando Vermelho, conhecido como “Dadinho”. 14 ônibus, 2 carros da polícia e uma ambulância foram incendiados, a semana começou com o fechamento de serviços públicos, paralisação da vacinação e comércio, que abriram novamente as portas pela quarta-feira, mas o clima de medo se mantém na população trabalhadora. Cidades do interior do Amazonas também foram alvo do conflito entre crime organizado e forças repressivas.

A Força Nacional foi convocada para intervir com os métodos repressivos, que preserva o crime organizado e seu domínio reacionário sob a população, mas atingem a população pobre, indígena e negra, como bem ocorre sistematicamente no RJ, onde 29 foram mortos em uma chacina da polícia. Vale lembrar que se em Manaus o CV domina, o PCC está envolvido nos ataques de garimperios contra os Yanomamis. Colocando a crise atual que atravessa o norte também na disputa do controle do crime organizado.

A Covid não desapareceu da cidade, tão pouco a fome, o desemprego e a inflação. Mas Manaus vem sendo, como foi o título do podcast da Globo desta última quarta-feira, a soma de todas as crises, que sobrepõem-se uma sobre a outra. Cármen Lúcia, ministra do STF, diante de tamanha crise, decidiu permitir o governador do Estado a não depor na CPI da Covid, provavelmente pensando que primeiro seja necessário manter a ordem e “paz social” no Amazonas e não o incremento de mais instabilidade, mais importante que o teatro da comissão.

Essas duas novas situações são expressões diretas da crise social, econômica e política que assola toda a região norte no último período, que não dá momento de descanso para os trabalhadores, indígenas e pobres, mas que por outro lado dá lucros para o agronegócio. Essa crise é a expressão direta da implementação do programa econômico e político do regime do golpe, e o Norte agoniza diante da expansão do agronegócio. Das crises que se acumulam na região, vemos o preço que se paga pelo império dos latifundiários no Brasil.

[Dossiê] O Norte agoniza: as consequências do regime do golpe

Agronegócio em expansão. Expansão da crise, fome e violência

A região Norte é controlada pelo agronegócio, com um grande peso dos militares e poderosas famílias oligárquicas, que em grande parte compõem o chamado centrão. Os índices de aprovação do governo Bolsonaro são maiores no Norte do que no centro-oeste, que é o atual bastião da produção agrícola e pecuária dos grandes concentradores de terras, um dos principais apoiadores do governo Bolsonaro.

O agronegócio busca uma expansão concentrada rumo ao norte, os mesmos que são proprietários de terra também são donos de garimpeiras e madeireiras, sob seu comando, e auxílio e cumplicidade dos governos locais e de Bolsonaro, estão os capatazes e mercenários que aterrorizam camponeses e indígenas. Em Roraima, essa combinação entre peso dos capitalistas rurais, militares e bolsonarismo, resulta na invasão territorial, assassinato e terror contra os povos Yanomamis.

As terras não diretamente exploradas pelos capitalistas, reservas ambientais e territórios indígenas, são o principal problema de Ricardo Salles e também dos militares, que buscam, através do desmonte e militarização de órgãos como a FUNAI e o IBAMA, além da flexibilização da legislação ambiental e sobre os direitos dos povos indígenas, dar as bases para essa expansão fulminante do agronegócio rumo ao Norte. A expectativa de um novo boom das commodities alimenta ainda mais o impulso expansionista.

Leia também: Os garimpeiros em Roraima se apoiam em Bolsonaro para perseguir os Yanomamis

A região, junto ao Nordeste, é onde os trabalhadores, camponeses e indígenas mais sofrem com o desemprego, inflação, a crise econômica, sanitária, e os problemas mais característicos do atrasado e subdesenvolvido capitalismo brasileiro. Manaus foi centro de duas ondas da crise sanitária, a última delas, entre janeiro e fevereiro deste ano, foi um prelúdio do que se espalharia pelo Brasil; hoje, a cidade é palco de uma crise de segurança pública sopreposta a uma crise de moradia, com a cheia recorde do rio negro, que impactou a moradia de mais de 455 mil pessoas. No Acre, também no início de 2021, ocorreram os mesmo problemas: pessoas corriam carregando galões de oxigênio, uma cheia afetou mais de 130 mil, além de um surto de dengue.

Por outro lado, o primeiro trimestre deste ano foi histórico para os lucros do agronegócio, o maior superávit registrado na história do país. Entre janeiro e abril de 2021, em comparação a igual período de 2020, o superávit é de US$ 18,26 bilhões, com crescimento de 106,4%. Fruto direto do que os analistas consideram um próximo boom das commodities, impulsionado em especial pela demanda chinesa, a tendência é que os latifundiários e grandes empresas do agronegócio atinjam novos recordes de um verdadeiro império econômico. Ano passado, seguiram superando suas taxas de crescimento e lucro, com as exportações terem alcançado a cifra de US$ 100,8 bilhões ano passado, segundo maior valor em 10 anos, com crescimento de 4,1% em relação a 2019, gerando balança comercial positiva com saldo recorde de US$ 87,8 bilhões.

Importante lembrar que em 2020 também ocorreram incêndios históricos no Brasil, em especial no Pantanal e na Amazônia, situação que chamou a atenção das potências imperialistas do mundo e de toda sua grande mídia. A riqueza do agronegócio e sua expansão ditada pela mão de uns poucos proprietários de terras é proporcional ao aumento da miséria, sofrimento, catástrofes contra a população urbana e os camponeses e indígenas.

O império do agronegócio

Das receitas nacionais de exportações em 2020, só o Agronegócio foi responsável por 48% do total, enquanto o desmatamento da Amazônia cresceu 30% no mesmo período. Ainda, enquanto isso, o preço dos alimentos teve um aumento de 14% e 116,8 milhões de brasileiros entraram em situação de insegurança alimentar. Isso é o capitalismo: lucro para poucos retirado em cima da exploração da nossa classe e do meio ambiente.

Veja mais: Recordes de desmatamento da Amazônia em nome do lucro do agronegócio: isso é o capitalismo

A produção agrícola brasileira alimentou em 2020 o equivalente a 10% da população mundial, cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo estudos da Embrapa, com crescimento de cerca de 11% da produção durante a pandemia. Enquanto isso, segundo levantamento mais recente, para novembro e dezembro do ano passado, 59% dos brasileiros passaram por algum tipo de insegurança alimentar no último trimestre do ano, sendo que cerca de 13% sofreram de insegurança grave, ou seja, fome.

A população pobre e trabalhadora do país inteiro é atingida por este império, que nunca passou perto de ser questionado nos séculos de expansão agrícola brasileira, que dependeu da escravização e do genocídio indígena como os grandes pilares de suas terras fertilizadas pela opressão e sangue. Mas no Norte, vemos a expressão aguda e prematura de crises que, no último período, se generalizaram pelo país.

A crise social, econômica e política no Norte se expressa, no momento, enquanto uma crise de segurança pública no Amazonas e a invasão de garimpeiros e madeireiros na região; por sua vez, o desenvolvimento débil estrutural, faz com que uma cheia tenha impacto na vida de centenas de milhares em Manaus. É trágico que no Amazonas o excesso de chuvas gere uma crise habitacional, enquanto que mais ao sul do país a falta dela resultará numa crise energética que será cobrada nas contas dos mais pobres. Contra essa catástrofe que faz o norte agonizar e se generaliza pelo país, é necessário lutar por uma alternativa anticapitalista, construída por e para os trabalhadores em aliança com todos os oprimidos.




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