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Ofensiva capitalista na Argentina: trabalhadores e esquerda no plano eleitoral

Shimenny Wanderley

Ofensiva capitalista na Argentina: trabalhadores e esquerda no plano eleitoral

Shimenny Wanderley

Conferência da Professora Paula Varela (UBA-IPS) na Paraíba

Por Shimenny Wanderley

Paula Varela, Licenciada em Ciência Política, Doutora em Ciências Sociais, professora nas áreas de Sociologia Política e Sociologia do Trabalho da Universidad de Buenos Aires (UBA), pesquisadora do Instituto do Pensamento Socialista – Karl Marx (IPS-KM) e faz parte do comitê editorial da Revista Ideas de Izquierda da Argentina, impulsionada pelo Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) da Argentina, realizou na semana passada um conjunto de atividades na Paraíba. Entre outras publicações é autora do libro “A disputa pela dignidade operária. Sindicalismo de base fabril na zona norte da grande Buenos Aires 2003-2014”, publicado em Buenos Aires, pela Editora Imago Mundi no ano de 2015 e organizadora do livro “O gigante fragmentado. Sindicatos, trabalhadores e política durante o kirchnerismo” publicado na Cidade Autônoma de Buenos Aires pela editora Final Aberto, no ano 2016.

Na quinta-feira, 09 de maio, na cidade de Campina Grande, na Universidade Federal de campina Grande (UFCG), ministrou uma conferência intitulada: “Ofensiva capitalista na Argentina: trabalhadores e esquerda no cenário eleitoral”, organizada por Esquerda Diário e participou de uma banca de dissertação sobre Parlamentarismo Revolucionário na Argentina, um estudo do caso do PTS, no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG). Na sexta-feira, 10 de maio, fez uma apresentação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na cidade de João Pessoa, intitulada: “Como pensar a classe operária hoje: debates teóricos e problemas de pesquisa desde uma perspectiva crítica”, organizada pelo Grupo Trabalho Desenvolvimento e Políticas Públicas (TDEPP).

Neste artigo focaremos na conferência ministrada na UFCG apresentando os principais eixos de sua intervenção na perspectiva de tirar lições da experiência de luta de classes do movimento operário na Argentina e sua situação, centralmente desde a década de 90 até atualidade. Foi realizada uma transmissão ao vivo no facebook de Esquerda Diário, quem esteja interessado pode ver na sua totalidade:

Em primeiro lugar destacou que a ofensiva capitalista se manifesta em toda a região, mas também a nível internacional, mesmo que de forma heterogênea tem elementos em comum: como a reforma das aposentadorias (aprovada em dezembro de 2017 na Argentina) e a reforma trabalhista, que ainda o governo do Presidente Mauricio Macri não conseguiu aprovar, o inverso que no Brasil com a reforma de Temer aprovada em julho de 2017. Mas há outro elemento que é comum entre a Argentina e o Brasil, e é importante destacar, que em ambos os países, sempre que os sindicatos e as organizações de trabalhadores chamaram para a luta, as massas saíram a lutar. No caso argentino em dezembro de 2017, dois meses após ter triunfado nas eleições de meio de mandato o no plano legislativo, foi o início da crise do governo de Macri na Argentina (crise que só tem se aprofundado neste ano e meio, e que faz colocar em risco sua reeleição nas eleições presidenciais de outubro deste ano, e aqui no Brasil esta conferência foi ministrada um dia depois das gigantescas manifestações em todo o país.

O balanço deixado por esses dias de luta é que as massas querem lutar contra esses governos de direita e extrema direita, mas as organizações de massas que dirigem as centrais sindicais não as chamam para lutar. No caso do Kirchnerismo na Argentina, a estratégia desde o minuto zero da chegada de Macri ao governo foi esperar a próxima eleição até 2019, para o qual o papel de contenção das centrais sindicais era central.

Os ataques aos trabalhadores são tão fortes que como o próprio Ministro da Fazenda da Argentina diz com orgulho: um ajuste desta magnitude nunca foi realizado em tão pouco tempo sem que o governo caísse. Então, no resumo, o contexto em que estamos é uma ofensiva capitalista contra as massas trabalhadoras, (não apenas assalariados, mas também desempregados e aposentados) que não foi respondida pelas lideranças e organizações sindicais, mas que tem sido suportado com base numa expectativa de "retorno eleitoral", que no caso do peronismo argentino se expressa numa música histórica: "Vamos a volver" (Voltaremos).

A primeira coisa a dizer é que esse "Vamos voltar" é uma falácia, porque mesmo que o Kirchnerismo ganhe as eleições deste ano, os trabalhadores não retornarão à situação de 2015, mas que a situação é pior. Tudo o que se perdeu em termos de direitos leva anos para recuperá-los no campo da luta de classes. Portanto, Paula Varela afirma que este é um ótimo momento para discutir o papel das burocracias sindicais.

A segunda coisa a dizer é que, embora nestes anos de governos neoliberais tenhamos perdido direitos e padrões de vida, isso não é o mesmo que uma derrota. O movimento de massa não está derrotado. O movimento de massas na Argentina é um movimento passivizado, conservador, que sofreu derrotas parciais, mas que não está derrotado, e esse fato central tem a ver com a história recente da luta de classes na Argentina.

Nesse sentido, a cientista política argentina realizou uma periodização dos momentos da luta da classe trabalhadora no país para colocar o papel da esquerda nesse recorte histórico, e dessa forma entender o lugar eleitoral ocupado pelo trotskismo na Argentina no marco desta história.

Lutas dos trabalhadores:

No marco dessa periodização dividiu em quatro partes: a ilusão do social, a crise 2001-2002, o sindicalismo de base e o que denominou um período de transição.

A ilusão do social abarca o período final dos anos 90 até a crise de 2001, com o movimento de trabalhadores desempregados. Neste período inclui como contra corrente o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) da Argentina, organização irmã do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) do Brasil, integrantes da Fração Trotskista – Quarta Internacional (FT-QI),apresentado como chaves suas discussões sobre porque formar ou não uma organização de trabalhadores dependente do Estado, se negando e defendendo a independência política dos trabalhadores, as relações deste tipo de organizações com o Estado, com o clientelismo político dos cabos eleitorais peronistas e com os próprios trabalhadores.

O PTS define não participar desse movimento, enquanto que outros partidos, que na atualidade fazem parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT),como o Partido Operário (PO) e Esquerda Socialista (IS) – por suas siglas em espanhol – que na época fazia parte do Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), eles decidem participar e isso permite que a esquerda tenha um peso na política nacional deixando um legado "à esquerda para os piqueteros " . O PTS ao não fazê-lo, decide-se estruturar no movimento dos trabalhadores assalariados, o que seria central para o período posterior. Existiram polêmicas e para a pesquisadora é importante recuperar esses debates.

O segundo período que menciona é o da crise de 2001-2002: onde o fenômeno das fábricas recuperadas aparece, sendo a experiência da fábrica de Zanon como uma clara referência nacional e internacionais. Aqui há também um debate entre os conceitos de fábricas recuperadas ou cooperativas recuperadas, ea nacionalização sob controle dos trabalhadores proposta pelos operários de Zanon, onde os trabalhadores tem uma gestão direta (que recupera a ideia de controle operário da produção no marco da tradição marxista revolucionária). Paula Varela destacou a referência em que se transformou Zanon, hoje Fabrica sem patrões (Fasinpat), e que é estudada em todo o mundo e aqui apresenta também um diferencial qualitativo na estratégia política do PTS, por sua defesa da ocupação de fábricas sob controle operário além de uma personalidade política inquestionável que é Raúl Godoy lider de Zanon e dirigente do PTS.

O terceiro período é o do sindicalismo de base desde o ano de2003 em diante, a partir da recomposição política do regime realizada pelo kirchnerismo tendo que respeitar a correlação de forças do Argentinazo. A greve de Kraft de 2009 é central e um ponto de transformação na consciência pública, que apresenta com força no movimento operário e com projeção política nacional o PTS antes mesmo da constituição da FIT, o que coloca o PTS como o partido da Esquerda anticapitalista e socialista ligada à luta e / ou as lutas radicalizadas dos trabalhadores. Se os partidos políticos da esquerda trotskista começaram a ocupar um lugar no mapa político da Argentina desde a crise de 2001, para Paula Varela, dentro desta esquerda, o PTS é o mais ligado aos assalariados em geral e em particular, mas não de forma exclusiva aos trabalhadores industriais (o que diferencia, do ponto de vista do perfil político, com o PO).

Para a pesquisadora do Instituto do Pensamento Socialista – Karl Marx (IPS-KM) da Argentina,a definição do período 2003-2014 é chave. Para isto explicou o quê foi o sindicalismo de base; o crescimento econômico durante o kirchnerismo mas como base a manutenção das condições de exploração do período neoliberal; o crescimento que permitiu a esquerda revolucionária na Argentina, em particular o PTS construir uma forte presença política entre os assalariados; um conjunto de lutas difícies como Lear, Kraf, Donnelley sem um acúmulo de experiência de lutas dos trabalhadores radicalizadas anteriores e, paralelamente, um processo de reforço e recomposição das instituições do Estado, restauração das instituições do regime fechando mesmo de forma instável a crise orgânica do ano de 2001, que se reabre anos depois na crise capitalista mundial de 2008.

Em quarto lugar um período de transição 2014-2015 ate atualidade, onde temos um recuo da luta de classes, especialmente nos locais de trabalho no setor privado e as indústrias, aumento de lutas no Estado e queda dos salários reais pela inflação, aumento do desemprego e os empregos precários.

Neste contexto se dá um crescimento da FIT em termos eleitorais, a paralisia por parte das centrais sindicais primeiro e derrotas parciais depois, para enumerar algumas: em 2016 a derrotas dos funcionários estatais, em 2017 a derrota com a aprovação da reforma da previdência, em 2018 os ataques via inflação e o acordo com o FMI, e em 2019 as eleições com o fortalecimento de asas do centro e direita do peronismo, como o caso do PJ em Córdoba, um Kirchnerismo com mais peso do PJ e menos do Kirechneristas.

Desde 2014 temos um novo fenômeno político de articulação dos trabalhadores, que é a experiência do Movimento de Agrupações Classistas (MAC) que agrupa o ativismo sindical de esquerda, principalmente o PTS.

Esclarecemos que a conferencia foi realizada antes do día sábado 11 de maio, data na qual foi apresentada a formula presidencial encabeçada por Anibal Fernandez, um peronista de centro e acompanhado na vice presidência por Cristina Fernandez de Kirchner com o qual se mexe o tabuleiro político. Sobre este novo cenário político e os desafio da esquerda recomendamos a leitura desta matéria de Fernando Scolnik

Como conclusão apresentou diferentes possibilidades da ilusão do social, passamos a ilusão do político com o kirchnerismo desde 2003, ou seja, a ilusão de que através das instituições do regime, o Brasil é a amostra mais lapidar do que é uma ilusão e que a própria institucionalidade pode "se mover" se necessário. O golpe institucional contra Dilma Rousseff e o triunfo eleitoral de Bolsonaro, além das manipulação do judiciário está também na frustração, na desilusão daquela ilusão.No caso argentino, se o kirchnerismo triunfar essa frustração vai aprofundar com as imposições do FMI.

O central para a esquerda neste contexto, tanto no Brasil como na Argentina,é não subordinar-se a qualquer uma destas ilusões, sendo seu principal desafio elaborar uma estratégia que quebre a fronteira entre o social e o político. No caso de Brasil é entender como necessária a articulação entre a luta contras os cortes na educação com a luta contra a reforma da previdência.

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