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SEMANÁRIO

O vírus capitalista e as crises no regime brasileiro na era da pandemia

André Acier

Ilustração: Juan Chirioca

O vírus capitalista e as crises no regime brasileiro na era da pandemia

André Acier

O Brasil é talvez o país do mundo que combina de forma mais explosiva a pandemia do coronavírus com uma crise política em que se começam a vislumbrar, ainda que de modo incipiente, horizontes destituintes.

Montagem do "Incrível Exército de Brancaleone" com Bolsonaro, Mandetta, Dória e Witzel. Por Juan Chirioca

Guardadas as devidas idiossincrasias de um Bolsonaro, as turbulências políticas não são privilégio do Brasil. A Covid-19 golpeou o tabuleiro político mundial já infestado por crises orgânicas, ou crises de autoridade estatal, nas palavras de Antonio Gramsci, que deixaram em seu caminho um tropel de governos frágeis, e cisões históricas entre representantes e representados.

Um poderoso fator no desenvolvimento dos acontecimentos é que a economia mundial também se encontra em terapia intensiva. Apanhada pela pandemia num momento de extrema fragilidade, defronta a humanidade com a perspectiva certa de uma nova recessão, mais abrupta que a de 2008. Nouriel Roubini sugere que não se pode descartar uma Grande Depressão em 2020, mesmo que os governos atuem de maneira coordenada para aplicar políticas monetárias (redução da taxa de juros) e fiscais (entrega direta de dinheiro à população). Adam Tooze, da Universidade de Columbia, anota um fato importante diante do crescimento dos nacionalismos econômicos: essa "relativa coordenação" entre os Estados nacionais é praticamente inexistente, no marco das disputas entre Estados Unidos, China e Alemanha (cujo novo capítulo é a "corrida pela vacina", como tratamos no podcast desse Esquerda Diário). Se a economia chinesa já vinha crescendo às taxas mais baixas em 30 anos, agora vivenciará uma retração histórica do PIB no primeiro trimestre; já as projeções de bancos como Morgan Stanley e Goldman Sachs revelam a possibilidade de queda de 30% do PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre.

Toda a política mundial, incluindo a brasileira (que já espera crescimento econômico igual a zero esse ano), sofrerá os impactos desse abalo sísmico de uma economia mundial em leito de UTI. Um país dependente das exportações de commodities, como o Brasil, poderia manter seu equilíbrio por muito tempo, diante da contração do comércio mundial, a debilidade econômica de seu principal parceiro comercial (China), e da queda dos preços das matérias-primas?

Nesse quadro, as crises sanitária e política se retroalimentam, tendo como pano de fundo a sombra de uma nova recessão global. Sua combinação não fornece os mesmos resultados políticos, entretanto; enquanto em países como China, Itália e França as medidas autoritárias receberam uma temporária “moratória política” das massas apreensivas com a pandemia, no Brasil o desenvolvimento da calamidade sanitária produz um acirramento da polarização política e social. O desfecho segue em aberto, assim como o caminho aos extremos, que ameaça colocar em questão a própria presidência.

O Brasil já possui ao redor de 3900 casos confirmados de coronavírus, e registra até agora cerca de 114 mortes. Não é possível estimar categoricamente o curso exato que tomará a pandemia, assim como os ritmos que conferirá à crise política. Tendencialmente, não obstante, é provável que a calamidade sanitária se agrave, tendo em vista não apenas sua evolução internacional, em que os Estados Unidos já ultrapassou a China em casos detectados (mais de 120.000), mas pela incompetência dos executivos federal e estaduais que a administram.

Disputando entre si quem emerge da crise sanitária com maiores louros eleitorais, de conjunto esses personagens compõem um ridículo Exército de Brancaleone que, para auxiliar a população, fazem muito menos que os bandoleiros do genial filme sessentista de Mario Monicelli. Esse cenário cria fissuras no interior do regime, em primeiro lugar com as Forças Armadas, que se vacinam contra a linha negacionista de Bolsonaro e indicam separar-se da condução da crise pelo Planalto; assim também, e de forma mais categórica, os governadores estaduais buscam aproveitar-se da situação para projetar-se politicamente contra o governo federal.

As motivações do negacionismo bolsonarista

Bolsonaro, Guedes e Mandetta chefiam com solene ignorância as tentativas, não de combate, mas de disfarce da gravidade da pandemia. Blefam sobre a miragem de um enorme número de testes, quando a população necessita de testes massivos; não reconvertem a produção de grandes monopólios para a construção de respiradores e ventiladores, ou leitos de UTI. Não apresentam qualquer plano de contratação de funcionários da Saúde e estudantes formados na área, muito menos cogitam a centralização estatal de todo o sistema de Saúde, inclusive o privado e sem nenhuma indenização, para fazer frente à crise. Às quarentenas irracionalmente separadas de testes que identifiquem os infectados, levadas adiante pelos governos estrangeiros, opõe um negacionismo obscurantista que representa todo o ódio de classe da atrasada burguesia que o acompanha (como Luciano Hang da Havan, ou Junior Durski do Madero, membros da patronal organizada no Brasil 200, além de patronais como Cyrella, MRV, BTG Pactual e FIEMG).

Bolsonaro discursa em nome dos trabalhadores autônomos, informais, e da juventude precária que esgota suas energias no iFood, Rappi e Uber. Pura hipocrisia: estes são as vítimas da reforma trabalhista e da “Carteira Verde e Amarela”, bandeiras de Bolsonaro que destruíram os direitos mais elementares da classe trabalhadora. A eles, assim como ao conjunto dos trabalhadores, Bolsonaro ofereceu a MP da Morte, que buscava permitir à patronal suspender por 4 meses os contratos de trabalho, sem remuneração. O pronunciamento nacional de 24 de março é um monumento ao ódio contra os trabalhadores: a ordem é que “a economia volte a funcionar normalmente” nos ambientes empesteados com um vírus que prospera nas veias abertas da catástrofe da saúde pública, “perfeitamente organizada” pelos capitalistas.

Embora seja loucura, há método no pronunciamento bolsonarista. Está inundado pelo desejo de sacrificar as vidas de milhares de trabalhadores no altar dos lucros capitalistas. Essa é sua linha de defesa contra perigos destituintes. Bolsonaro sabe que sua situação se tornaria mais complexa se 1) um derretimento econômico fruto de anêmico crescimento, da nova recessão mundial e das consequências da pandemia; e 2) um cataclismo sanitário no Brasil que ceifasse um grande número de vidas, e seu negacionismo fosse creditado pelas massas como o responsável pela tragédia. As Forças Armadas estão preocupadas especialmente com essa variante, e segundo o El País, apesar de descartarem por ora a saída do mandatário, já fazem reuniões para traçar cenário de médio e longo prazos (aproximando-se do vice Hamilton Mourão). Bolsonaro está preocupado em reativar sem mais tardar a economia para evitar ser a vítima política da recessão, antes de ver-se vítima das mortes populares pela Covid-19. Assim, que os trabalhadores pereçam, mas que enriqueçam os capitalistas.

Mas a influência estrangeira não é menos importante. O negacionismo de Bolsonaro foi encorajado por Donald Trump, que precisa entregar bons resultados econômicos a Wall Street, e prometeu fazer a economia estadunidense voltar a funcionar até a Páscoa. Faz isso pressionado, de um lado, pelo início da reativação da economia chinesa, potência com quem disputa uma guerra comercial-tecnológica; de outro, pela busca da reeleição nas presidenciais de novembro. A taxa de desemprego nos Estados Unidos, baixíssima algumas semanas atrás e um dos principais troféus de Trump, evaporou: mais de 3 milhões de pessoas ficaram desempregadas em poucos dias, sinal de uma queda no PIB trimestral que segundo os maiores bancos do mundo pode chegar a 30%. Ao contrário do que se esperava, o maior aliado de Bolsonaro pode estar em apuros.

A luta de classes também faz sentir seu bafo na nuca de Bolsonaro. O presidente alerta que a paralisia na economia fará com que o Brasil vivencie protestos de massas semelhantes aos que abalam o Chile desde 2019. O Planalto quer evitar a todo custo que o segundo ciclo da luta de classes internacional chegue ao Brasil, ignorando que em países como a Itália e o Estado espanhol os trabalhadores irrompem em greves espontâneas para obrigar os industriais a fecharem suas fábricas, a fim de proteger suas vidas do “seguimento normal” da anarquia econômica capitalista.

É possível que ao tentar fugir da luta de classes, Bolsonaro apenas esteja acendendo a pólvora capaz de detoná-la.

Os governadores como outro pólo golpista contra nossas vidas

Apesar da enorme insatisfação de massas que estourou contra o governo, os trabalhadores ainda não atuam como sujeito político independente, alternativo às patronais e a Bolsonaro. Essa condição pode mudar, pois não há nenhum muro que separe a classe trabalhadora da auto-organização necessária para tomar em suas mãos a solução da pandemia. Mas não é a situação atual. Na ausência do sujeito operário, o Executivo encabeçado por Bolsonaro tem como principal “opositor” os governadores estaduais encabeçados pelo tucano João Doria, governador de São Paulo. Esse campo foi robustecido pela ruptura do governador Ronaldo Caiado (DEM-GO) com o séquito bolsonarista.

Doria vem sendo o porta-voz mais extremado da oposição dos governadores a Bolsonaro, fazendo o possível para contrapor sua irresponsabilidade e desprezo pelas vidas humanas com a suposta vontade dos governadores de proteger e zelar por essas vidas. É evidente a coloração eleitoral dessa campanha do tucano para 2022. Nenhum dos governadores do PT no Nordeste sequer ensaiou tomar para si o protagonismo das mãos do PSDB, disciplinando-se a essa conformação de “unidade nacional”.

A tensão entre o bolsonarismo e os governadores havia surgido com toda força durante o motim de policiais do Ceará, quando o presidente da República e seu séquito incentivaram abertamente a quebra da hierarquia e a “mobilização” da polícia com métodos milicianos para se enfrentar com os governadores, buscando assim avançar politicamente no Nordeste. Na crise do coronavírus, os governadores vieram se organizando como contraponto ao Planalto, contrapondo à política de “retorno à normalidade” uma retórica de “preocupação com a população”, expressa na defesa da quarentena e do isolamento social.

É importante lembrar que no campo dos governadores estão situados alguns dos fatores reais de poder que foram pilares fundamentais do golpe institucional. O Supremo Tribunal Federal, primeiro violino do autoritarismo judiciário, perdeu sua paciência com Bolsonaro depois dos inexpressivos atos pró-governo, e se ligou aos governadores. O Legislativo, encabeçado por Rodrigo Maia, base para a aprovação das medidas neoliberais como a nefasta reforma da previdência, também cerrou fileiras com os executivos estaduais. A imprensa golpista (Estadão, Globo, Folha de São Paulo) faz o coro de vozes nesse campo do regime burguês.

O Alto Comando das Forças Armadas permanece como poder moderador, com oficiais da ativa no alto escalão do governo (como os generais Braga Netto, Casa Civil, e Eduardo Ramos, Secretaria de Governo), equilibrando as tensões a fim de acomodá-las; mas deixou claro seu afastamento da retórica bolsonarista com a declaração do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, afirmando que a luta contra o coronavírus seja talvez “a missão mais importante de nossa geração”. Também pelo general da reserva e vice-presidente, Hamilton Mourão, de quem a cúpula do Exército se aproxima, Bolsonaro sentiu-se disciplinado: Mourão “corrigiu” o conteúdo do que o Planalto defende (frisando as orientações da OMS), e mostrou insatisfação evidente no pronunciamento confrontativo de Bolsonaro contra os governadores, chegando a merecer do presidente o qualificativo de "tosco", em entrevista à Band.

Esse campo, com toda a sua heterogeneidade de interesses, expressa a fração da classe dominante que se opõe à condução do Planalto frente à pandemia, oposta à orientação da patronal da indústria e do varejo que apoia Bolsonaro. Internacionalmente, está alinhada à política do Partido Democrata nos EUA. Dependendo dos desenvolvimentos da crise, a atual política dessa ala do regime pode passar da exigência de que Bolsonaro “afaste-se da condução da crise”, para o “afaste-se da presidência”. O desenrolar da crise nas próximas semanas provavelmente esclarecerá esse tema.

Analisando a dinâmica desses conflitos, em em maio de 2019 Daniel Matos escrevia no Esquerda Diário: “O desenvolvimento das disputas no interior do regime golpista vai delineando dois projetos de bonapartismo distintos: um ‘presidencialista-imperial’ de Bolsonaro, que busca colocar o Executivo como instituição absolutamente predominante no regime (e até mesmo messiânica), ao qual deveriam subordinar-se todos os demais fatores de poder, utilizando a Lava Jato e ‘as ruas’ como ferramentas de disciplinamento. E outro projeto ‘bonapartista institucional’, em que os golpistas dos velhos partidos tradicionais (hegemonizados agora pelo DEM e tendo como ‘centro de gravidade’ o Congresso), em acordo com os demais fatores de poder (o STF, grandes meios de comunicação, e parte da cúpula das Forças Armadas) buscam disciplinar o poder de Bolsonaro às outras instituições que foram parte do golpe.”

De lá para cá, fatos como a derrota da Lava Jato e as crises sobre o envolvimento do clã bolsonarista no assassinato de Marielle Franco detiveram os excessos do bonapartismo presidencial no interior das instituições, enquanto levava o regime político mais à direita, com a entrada com maior peso de oficiais da ativa das Forças Armadas no alto escalão do Planalto. Usando essas marcas divisórias, a oposição real entre o bonapartismo presidencial bolsonarista e o bonapartismo institucional, há uma mudança na composição de forças deste último projeto burguês: indo para os bastidores, o Legislativo (que encabeçava esse pólo golpista durante o ano de 2019) cedeu, ao menos provisoriamente, a liderança a uma parcela dos governadores (alguns deles, como Zema de MG, Mauro Mendes do MT e Ibaneis do DF não assinam a carta dos governadores, pressionados pelas patronais de seus redutos eleitorais). Aos parlamentares não interessa um protagonismo que os pressionasse a um processo de impeachment que, por ora, consideram extemporâneo.

Representam dois projetos distintos que se apoiam sobre a herança do golpe institucional e suas reformas reacionárias.

Independentemente da divergência sobre os métodos de organização da quarentena ("horizontal", que restringe mais duramente a mobilidade, ou "vertical", que isola apenas os mais idosos), é preciso perguntar: em que os governadores se diferenciam, nos fatos, da condução da crise sanitária pelo Planalto? Nenhuma medida sanitária emergencial foi proposta por Doria ou qualquer governador. Seguem a inércia da pandemia. Doria não falou nada sobre os testes massivos, e sim sobre a intenção de fazer 2 mil testes por dia em São Paulo. Somente a cidade de São Paulo tem quase 13 milhões de habitantes. Se testasse 2 mil por dia, demoraria cerca de 8 anos para testar 50% da população. Os pouquíssimos testes feitos levam por vezes semanas para ficarem prontos, aprofundando a angústia das pessoas. Como se não bastasse, só se propõe testar os que apresentam sintomas. Isso é brincar com as vidas humanas.

Nem Doria nem os demais governadores se propuseram impedir as demissões; pelo contrário, Doria aplaudiu a MP da Morte de Bolsonaro (a suspensão do contrato sem remuneração), e no Estado de São Paulo permitiu a demissão das trabalhadoras terceirizadas da merenda nas escolas públicas. Nem falar da construção de leitos de UTI, e menos ainda colocar sob a esfera estatal todos os recursos bilionários do sistema privado de saúde, verdadeiras máfias que financiam suas campanhas eleitorais. Os grandes industriais seguem obrigando seus funcionários a trabalharem sem qualquer segurança sanitária, para produzir bens inúteis para o combate à pandemia, com a aprovação dos governos estaduais.

A disputa entre Bolsonaro e os governadores chega até distintas propostas de viabilizar uma renda mínima aos trabalhadores informais e precários, afetados pela crise, enquanto seguem sem proibir as demissões e mantendo de pé todas as contrarreformas reacionárias (como a trabalhista e a da previdência) que esmagam a população sob o peso da miséria. Essa proposta, inédita na tradição de um estado herdeiro da escravidão, é um atestado do medo que ambos os campos burgueses possuem de revoltas operárias de massas contra a situação de pobreza e desigualdade (o “cenário chileno”, como disse Bolsonaro).

A verdade é que, apesar do discurso enfrentado, Bolsonaro e os governadores são dois pólos golpistas que buscam descarregar os custos da pandemia sobre os trabalhadores. Não há meio de conquistar uma saída progressista para os trabalhadores, os que mais sofrem pelos efeitos econômicos e sanitários da pandemia, adotando qualquer um desses campos burgueses reacionários.

O combate para garantir todos os recursos que possam salvar vida e aos efeitos da pandemia só pode prosperar se for tomado nas mãos dos próprios trabalhadores, contra Bolsonaro, os governadores e os capitalistas.

“Todos unidos contra Bolsonaro”?

Assim, combater Bolsonaro estando junto aos governadores e o Legislativo (e todo o campo golpista do bonapartismo institucional) significa abandonar qualquer vestígio de independência de classe em nome de uma “frente ampla contra Bolsonaro” que fortalece o autoritarismo estatal contra os setores explorados e oprimidos. Medidas dos governadores, como quarentenas sem testes (extraindo sua eficácia), negativa em garantir máscaras, leitos e respiradores, unificam os executivos estaduais ao desprezo que Bolsonaro sente pela população. Uma batalha real implica separar-se de todas as frações burguesas.

Ao diferenciar-se da política de Bolsonaro, o PT se disciplina a ser a “ala esquerda” da política levada adiante pelos governadores e o bonapartismo institucional, que como diz Lula, “têm mais responsabilidade” que o Executivo federal. Disciplina-se inclusive na falta de alternativas radicais ao que faz Bolsonaro. Nos quatro estados nordestinos que governa, o PT se nega a tomar medidas contundentes, a começar pelos testes massivos, a centralização do sistema de saúde, ou impedir as demissões que seguem flagelando a população nordestina. Essa política do PT está mais claramente disposta na linha das centrais sindicais que influencia, a CUT e a CTB (dirigida pelo PCdoB). Essas centrais assinam um comunicado conjunto em que já no título pedem que “o Congresso assuma o protagonismo” e a articulação “com o Congresso Nacional e todos os governadores, independentemente da filiação política e ideológica”, junto aos quais já fica claro que é impossível ter qualquer medida séria de combate à pandemia levada adiante, nem falar de uma política independente.

O PSOL publicou resolução da Executiva nacional defendendo “a saída de Jair Bolsonaro”, advertindo a necessidade “do movimento de saída ocorrer de forma democrática, ser construído de forma ampla e com apoio popular”. Nos solidarizamos com o ódio legítimo da população contra a extrema direita e seu descaso, que em alguns setores se expressa na consigna do “Fora Bolsonaro”, e que deve ir além, rechaçando também os militares e todos os golpistas. Mas isso só pode ser realizado combatendo todas as frações da burguesia. A política do PSOL vai no sentido oposto: canaliza o justo sentimento de rechaço contra Bolsonaro para saídas institucionais que fortalecem o campo do "bonapartismo institucional", como se depreende do chamado que fazem em sua nota oficial a "nos somarmos aos esforços que fazem os governadores", numa "ampla unidade" que engloba inclusive partidos golpistas (como a Rede), desde que se oponham a Bolsonaro. A condição básica para que o PSOL cumpra qualquer papel de defesa da população nessa pandemia exige que rompa com essa política de sujeição aos governadores e ao bonapartismo institucional.

Consideramos que a melhor forma de atacar o bolsonarismo é com a resposta mais contundente frente ao coronavírus, baseado numa política independente. Por que os parlamentares do PSOL não utilizam o peso de suas bancadas para exigir testes massivos já, a contratação de mais funcionários para a Saúde, e a reconversão da indústria que possua a técnica adequada para a produção de insumos médico-hospitalares para servir à população? A maneira de combater “a catástrofe que nos ameaça” (para resgatar de Lênin mais do que o título, como se limita a fazer o MES aqui) implica ajudar a desenvolver a auto-atividade dos trabalhadores, hierarquizando medidas que tendam ao controle operário generalizado de todas as iniciativas econômicas e sanitárias que empreendam os governos.

Controle operário e a batalha contra a pandemia

A forma mais eficaz de impedir que Bolsonaro, os militares e os golpistas de toda pelagem sigam descarregando os efeitos da pandemia nas costas dos trabalhadores é articular um programa de emergência que destine, de imediato, todos os recursos disponíveis e acumulados pelos capitalistas ao combate à Covid-19.

Recursos há, quase ilimitados: basta ver os bilhões injetados nos bancos e nas empresas. Mas os capitalistas e seus governos, responsáveis pelo estado lamentável da infraestrutura sanitária, querem preservar seus lucros sobre nossas vidas. É por esse motivo que a aparição do sujeito operário, através do controle operário da produção e distribuição de insumos médico-hospitalares, é uma condição fundamental.

O anúncio de 23 milhões de testes feito pelo Ministério da Saúde de Bolsonaro por enquanto é um blefe, e a política de 2 mil por dia do Dória além de insuficiente ainda são palavras ao vento, e inclusive os testes que já estão sendo feito demoram às vezes mais de uma semana pra terem resultado. Exigimos que os testes sejam massivos, ou seja, que se testem todos os que apresentam quaisquer sintomas e, seguindo a “rota do vírus”, também todas as pessoas que tiveram relação com esses sintomáticos (o que deve incluir todas as pessoas que buscarem ser testadas alegando que tiveram contato com alguém com sintomas, sem exigir qualquer comprovação, e que em bairros e regiões onde a disseminação for grande pode tornar a testagem massiva e indiscriminada mais vantajosa), além dos trabalhadores da saúde e todos os trabalhadores que seguem trabalhando (que são muitos, e incluem muita gente sem sintomas) ou voltem ao trabalho.

É necessário batalhar por aquilo a que se negam Bolsonaro e os governadores: centralizar todo o sistema de saúde, incluindo toda saúde privada (desde os grandes laboratórios até as clínicas hospitalares e hospitais privados), sob controle dos trabalhadores e especialistas, para garantir todas as instalações necessárias para receber os eventuais infectados que necessitem de internação: confiscando todas as salas que faltarem (hotéis, etc.) e provendo respiradores (mediante produção de emergência, importação, etc.). É emergencial a contratação de todos os funcionários da saúde desempregados e os estudantes de medicina já formados, para fazer frente às necessidades da população.

Nem Bolsonaro nem os governadores desejam tocar nos lucros patronais, e permitem que sigam produzindo bens inúteis para o combate ao coronavírus, enquanto os trabalhadores se infectam sem qualquer proteção. Isso deve acabar. As indústrias incapazes de produzir bens úteis à população devem ser fechadas, e todos os trabalhadores sem renda, que forem licenciados (assim como os autônomos e informais), devem receber seu salário integral às custas das patronais e como mínimo um “salário quarentena” de R$2000 durante toda a crise. As indústrias que possuírem tecnologia suficiente, deve ter sua produção reconvertida imediatamente para a produção de leitos de UTI, respiradores e ventiladores mecânicos. As que se negarem a isso devem ser estatizadas e colocadas sob controle operário, organizando a produção e distribuição desses insumos médico-hospitalares essenciais.

Eventuais medidas de centralização de estruturas produtivas ou do próprio sistema de Saúde, com elementos de “capitalismo de Estado” que vemos em países como o Estado espanhol, devem ser aproveitados para avançar na autoatividade dos trabalhadores, a fim de exemplificar como o controle dos trabalhadores na organização e distribuição desses insumos prova a eficácia da direção da economia pelos trabalhadores sem os capitalistas. O internacionalismo operário se faria sentir em toda a sua magnitude, podendo os trabalhadores organizados auxiliar os países mais afetados, especialmente os países de trajetória colonial ou semicolonial, com o envio de insumos médico-hospitalares, num esforço contrário aos dos distintos nacionalismos que agravam a crise nos países oprimidos e em seus próprios países.

Momentos de crise como tais são aqueles em que essa verdade brilha pela evidência. Nas palavras de Trótski, “Para os marxistas, não se trata de construir o socialismo com as mãos da burguesia, mas de utilizar as situações que se apresentam dentro do capitalismo de estado para fazer avançar o movimento revolucionário dos trabalhadores”.

As organizações da classe trabalhadora precisam intervir nessa crise com um programa independente das distintas frações capitalistas. As centrais sindicais devem sair de sua passiva disciplina ao bonapartismo institucional, e batalhar seriamente por essas medidas emergenciais. Somente os trabalhadores da saúde, especialistas sanitários e sindicatos operários e organizações populares podem estar à frente de um gabinete de emergência no lugar de todos esses golpistas que fazem pouco caso de nossa saúde e empregos.

Esse gabinete de emergência teria como uma das suas tarefas centrais, ao realizar as medidas necessárias para proteger as vidas de milhões, a convocação e organização de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que concentre todos os poderes legislativo, executivo e judiciário, onde pudessem ser debatidos democraticamente toda a reconfiguração do país para responder não apenas à questão imediata de garantir empregos e vidas, mas todas as questões estruturais que condenam a imensa maioria a levar uma vida de miséria.

Essa é a melhor maneira de acompanhar o legítimo ódio popular contra o governo, e questionar Bolsonaro, os militares e todos os golpistas. Nesse combate, os marxistas alentarão o desenvolvimento de organismos de auto-organização, algo que, numa experiência de controle operário, é uma base incontornável para a compreensão da necessidade de um governo operário de ruptura com o capitalismo.

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André Acier

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda
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