Cultura

TEATRO

’O teatro proletário’ de Piscator

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 6 de junho de 2016| Edição do dia

Geralmente quem faz do teatro uma tribuna, um espaço de luta e reflexão, conhece bem as ideias do teatrólogo alemão Bertolt Brecht. Mas pouca gente no Brasil conhece o projeto estético de um autor, sem o qual ,não existiria o teatro épico de Brecht. Trata-se do alemão Erwin Piscator. Ele está entre os primeiros diretores a pensar o acontecimento teatral enquanto participação política no mundo contemporâneo. Piscator debruçou-se de modo obstinado sobre a maneira como o teatro informa a realidade: o que passa a estar em questão é a maneira como o teatro pode esclarecer, pode tornar visível, os processos econômicos e a manipulação política que imperam no capitalismo. Mas neste modelo de teatro político, são recorrentes confusões teóricas na hora de aplicar o pensamento marxista no palco. Sendo assim, é preciso olhar para as contribuições e os erros do teatro revolucionário de Piscator.
Piscator pertenceu a um período da história do teatro em que as rupturas estéticas e políticas redefiniam o sentido(e as possibilidades) do palco. Era o início dos anos 20, momento em que na Alemanha o cheiro de pólvora e o gosto de sangue provocados pela Primeira Guerra Mundial(1914-1918), ainda estavam frescos. Entre a malograda Revolução proletária de 1918 e as humilhações do Tratado de Versalhes, artistas de esquerda insistiam em não deixar a história escorrer pelos dedos: se a burguesia levou o país para o matadouro e mergulhou o povo na miséria, caberia ao proletariado criar uma nova sociedade. E lá estava o jovem Piscator, advindo da região de Hessen, de origem burguesa mas que faz a opção política pela classe operária.
Tomado por um ímpeto pedagógico, Piscator assumia a função daquilo que já foi chamado de “ cientista teatral “: cortando o sentimentalismo pela raiz, maquinas e trabalhadores redefiniam a linguagem teatral numa perspectiva que visa a máxima objetividade no palco. Visa-se deste modo eliminar a subjetividade da cena. Até que ponto isto alavanca ou limita a criação artística? Antes de pensar esta questão, vamos observar mais atentamente o modelo de teatro político desenvolvido por Piscator.
No âmbito cênico, Piscator está firme, forte e seguro na elaboração de uma experiência teatral educativa, de agitação e propaganda. Os espectadores são parte de uma assembleia, que deve se posicionar perante situações de ordem pública. Tais situações são plasticamente expostas através de ilustrações, estatísticas e reportagens. Os personagens não são mais Hamlet ou Édipo chorando pitangas, mas agitadores auxiliados por imagens cinematográficas, letreiros, slides, cartazes e por um coro formado por trabalhadores. Mais importante do que o aplauso, é a discussão. Mais do que contemplação exigia-se do espectador a participação ativa na resolução prática dos problemas da vida social.
O pioneirismo de Piscator passa pelo fato dele elaborar peças teatrais em sintonia com um mundo no qual, a maquinaria moderna e o movimento operário atropelam o triste semblante do dramalhão. A ação teatral é intencionalmente política: para Piscator, o teatro só possui validade se ele comunica as contradições das forças que regem a realidade social. No lugar da solenidade e o do ilusionismo, a luta de classes. Para além do riso gratuito, a análise política. Sendo assim, a estrutura teatral não repousa nem no labirinto psicológico dos personagens e nem nas forças divinas ou do destino; a peça teatral tem como eixo o documento, o que remete à figura do “ narrador documental”.
Nos deparamos assim como um teatro pedagógico, que não apenas informa o que se passa mas realiza claramente a propaganda política de esquerda. Porém, será que toda esta inovação, produto histórico de um momento em que arte de vanguarda e movimento operário ainda não tinham sido estrangulados por Hitler, não acaba por estreitar futuros voos cênicos? Substituir o dramaturgo pelo jornalista, a ficção pelo fato, o ator pelo propagandista, pode, apesar da intenção política revolucionária, reprimir a imaginação do espetáculo(ou se quisermos, de uma intervenção teatral militante). Talvez o erro de Piscator tenha sido o de realizar uma apreensão do marxismo que reduz a obra de arte ao registro/reflexão sobre o fato político episódico. A exemplo do Proletkult, o chamado teatro proletário de Piscator possui equívocos não apenas por insistir na confusão histórica de uma suposta arte proletária, mas por colocar em cena(e diga-se, de modo inovador! Inclusive inovador demais para os dias atuais) o racionalismo de uma concepção teatral em que o político sufoca o poético(e nenhum artista verdadeiramente de esquerda pode se esquecer de que a poesia, quando praticada sem recalque, pode ser altamente subversiva).
Piscator merece credito e interesse pelo fato de tentar conjugar arte e política na realização de um teatro de agitação revolucionária. É uma concepção valida, se quisermos pensar as possíveis referências históricas para o teatro político. Piscator não deixa de colaborar, em certa medida, com o teatro que queremos, portanto completamente diferente das peças mais do mesmo que infestam os palcos brasileiros. Quer dizer, o teatrólogo alemão possui compromisso político e estabelece um diálogo original com os novos meios de produção(o que é ideologicamente importante para a vida cultural dos trabalhadores). Entretanto, este “ teatro proletário “ precisa ser encarado como fruto de uma simplificadora e precipitada análise marxista e não como sinônimo de uma aplicação cênica do marxismo. A militância teatral não é um apêndice dos problemas levantados pela Economia Política. A intenção de agitar não pode domesticar a imaginação.




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