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O sonho de país capitalista para Guedes era o Chile, se tornou seu pesadelo

Guedes, Bolsonaro, FHC, os grandes jornais burgueses nunca economizaram elogios ao modelo chileno de capitalismo. Guedes em especial está calado. A juventude e os trabalhadores chilenos trincaram seu modelo.

segunda-feira 21 de outubro| Edição do dia

Há muitos anos o Chile é um modelo para a burguesia brasileira. De FHC a Paulo Guedes e Bolsonaro cada um deles já reivindicou entusiasticamente o Chile. A Veja, a Folha, o Estado de São Paulo, a FIESP, cada um deles já dedicou recursos e editoriais em homenagem ao regime herdeiro da sanguinária ditadura de Pinochet. A privatização de tudo, a selvagem retirada de direitos trabalhistas foram conquistadas lá depois de mais de 30mil assassinatos na ditadura. Este era o modelo de capitalismo para o Brasil. A juventude e os trabalhadores do país irmão trincaram o espelho da burguesia brasileira.

Hoje todos os porta-vozes brasileiros do capitalismo chileno olham assustados para o imenso e raivoso condor se levantando além do Aconcágua. Guedes tão falante, tão entusiasta do modelo chileno e de quanto aprendeu por lá, encontra-se irremediavelmente mudo. Bolsonaro faz o que seu intelecto alcança: aponta o dedo para um intergalático complô do Foro de São Paulo.

Acusando fantasmas Bolsonaro revela elementos profundos atormentando sua psique: o pânico diante de um espectro muito mais real a rondar vários países do mundo e em especial a América Latina, o espectro da luta de classes.

O que está acontecendo no Chile?

Semana passada a juventude secundarista tomou de assalto as estações de metrô e as ruas tendo como demanda inicial a denúncia do aumento da passagem deste transporte fundamental na capital do país. Mas a juventude mostrava muito mais que uma demanda pontual relativa a 3% de aumento, expressava o ódio profundo, compartilhado por todos setores oprimidos e pelos trabalhadores, ao capitalismo chileno e a um regime reacionário, herdeiro de Pinochet. O ódio dos alugueis caros, da aposentadoria de miséria, dos salários de fome, da educação e da saúde privatizadas, dos mil e um esquemas de corrupção envolvendo militares e policias, tudo isso motiva os trabalhadores, a juventude e a classe média a ir as ruas.

O governo local tentou aplacar a raiva suspendendo o aumento do metrô e ao mesmo tempo tentando injetar uma dose cavalar de medo: colocaram os tanques e as Forças Armadas nas ruas, decretaram toque de recolher em Santiago, Valparaíso e Antofagasta. Não obtiveram sucesso, as barricadas e os panelaços seguiram na sexta, no sábado, no domingo. Hoje, segunda-feira, enquanto escrevemos esta matéria há notícia de que 20 portos estão fechados pelos trabalhadores, e em várias cidades os operários de braços cruzados juntam-se a professores e jovens em grandes manifestações. O maior sindicato da maior mina de cobre do mundo, anuncia greve a partir de quarta-feira se não for revogada a Lei de Emergência.

Acuado Piñera insiste ainda no mesmo, coloca os militares a distribuírem gás lacrimogênio, bordoadas, tiros, atropelamentos e em resumo a arrancar vidas. Já há nos números oficiais 7 mortos nas manifestações, incluindo um manifestante alvejado com um tiro na cabeça. O governo está pendurado e depende dos militares e de forças externas a si mesmo para manter-se. Sabe que junto dele corre risco todo o regime.

Ao mesmo tempo em que busca manter-se mani militari o aliado de Bolsonaro procura socorro na Ex-Concertación, aliança política que governou o país por várias décadas, com a qual o PT mantém importante aliança, e que foi crucial para dar uma cara moderna e liberal ao país ao mesmo tempo que mantinha intacta toda estrutura econômica, política e militar herdada de Pinochet.

Essa tarde e noite, e nos próximos dias, se poderá medir quanto avança o movimento, se as jornadas revolucionários dos últimos dias avançam e conseguem derrubar Piñera, o que exige superar todos limites das burocracias sindicais e políticas que estão dispostas a negociar com ele, se aparece um desvio como eleições antecipadas como propôs o PC chileno, ou se a combinação de blindagem oferecida pela Ex-Concertación, a selvagem repressão e violenta campanha midiática contra os “vândalos” tem sucesso e isola a chama da juventude do combustível da classe trabalhadora.

O que a burguesia chilena, com ajuda americana, construiu e Guedes tanto gostava?

O capital veio ao mundo escorrendo sangue e lama, afirmava Karl Marx. No Chile ele se refez de forma especialmente sanguinária. Irrigaram a taxa de lucro com o sangue de mais de 30 mil assassinados durante a ditadura. Uma ditadura que Bolsonaro elogiou recentemente.

O golpe militar de 11 de Setembro de 1973, com direito a bombardeio do palácio presidencial, foi vivamente apoiado pelos EUA. O país foi o experimento selvagem de neoliberalismo no mundo. Com as botas militares calavam os trabalhadores e trucidavam todos direitos. É como se o pesadelo de fundir o que há de mais neoliberal em Guedes com o que há de mais reacionário em Bolsonaro ganhasse vida.

É assim que tudo foi privatizado por lá: o cobre, a água, as escolas, a saúde, e até mesmo a previdência. Lá o modelo de capitalização de Paulo Guedes está implementado, aposenta-se a pessoa com o que poupar em um sistema privatizado, a AFP. Resultado: velhinhos morrendo de fome e o mais alto índice de suicídio da América Latina.

Lá a educação é toda paga. Até mesmo as escolas públicas são pagas. É o país dos sonhos de Guedes e Weintraub. Mas desde 2006 a juventude toma as ruas exigindo educação pública e gratuita.

Lá a reforma trabalhista foi selvagem. Mas os trabalhadores mal conseguem pagar alugueis na cada vez mais cara Santiago.

A economia do país cresce a ritmos maiores que quase todos países da América do Sul, empresas como a LanChile que foi propriedade do presidente Piñera até 2010, tornam-se gigantes, engolindo a brasileira TAM para tornar-se a LATAM. O PIB, os lucros crescem, e o povo padece. E toma as ruas.

O espelho neoliberal está quebrado, Guedes está calado

O que era a grande conquista neoliberal é o que motiva o ódio sentido que leva o povo as ruas, os trabalhadores à greve.

Guedes que foi dar aula na Universidade do Chile durante a ditadura, sempre declarou querer copiar tudo de lá. Mas seu espelho neoliberal está quebrado.

Para a juventude, para os trabalhadores o Chile é mais que nunca um espelho. Nele vemos nosso potencial de dizer nosso ódio aos inimigos de classe, a revirar a terra dos regimes herdeiros da ditadura. O potencial que mostra-se no Chile, precisa ser vivamente apoiado no nosso país, para fortalecer os chilenos bem como para aprofundar o susto e o medo de Guedes e outros burgueses brasileiros. Aqui como lá é preciso superar os limites das burocracias sindicais e políticas e construir mecanismos de coordenação das lutas para poder promover a auto-organização, e assim solidificar a aliança de classes que pode oferecer uma resposta anticapitalista à crise, construir um partido revolucionário que dê programa, estratégia e atue com decisão para a vitória desse movimento.

É com essa perspectiva que atuamos aqui no Brasil, para fazer como diz Diana Assunção em editorial do MRT publicado hoje: nossa militância no MRT tem como objetivo consolidar uma força material que atue em cada estrutura e categoria que estamos presentes para se apoiar e irradiar esses exemplos da luta de classes internacional para a conjuntura nacional. Só através da construção de um partido revolucionário dos trabalhadores é possível atuar de forma consciente na luta de classes nesses momentos decisivos.”




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