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O segundo dia da Feira Antropofágica de Opinião

No segundo dia, a Feira Antropofágica se esforçou para sair, na medida que seus recursos possibilitam, do teatro centrado apenas na cidade de São Paulo. Grupos do interior do estado, como a Cia Teatral Boccaccione ou o Grupo Rosa dos Ventos, marcaram presença, assim como o excelente trabalho do Mamulengo da Folia, com um teatro de marionetes regado ao som da zabumba, sanfona e pandeiro.

Fernando Pardal

@fepardal

sábado 6 de junho de 2015| Edição do dia

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Algumas apresentações certamente penetraram mais a fundo na pergunta lançada pela Cia. Antropofágica. O destaque, em minha opinião, está em três apresentações nesse segundo dia: a Cia. Ocamorana, ao apresentar as entranhas do funcionamento impessoal do capital e da concorrência do mercado, que transforma um gerente em um involuntário agente da superexploração dos trabalhadores, através do perverso mecanismo da terceirização. Segundo a Ocamorana, os novos ataques à classe trabalhadora, como o PL 4330 da terceirização, tornaram atuais os mesmos temas que eles tratavam nos anos 1990, quando se consolida no Brasil o avanço desenfreado do neoliberalismo e a primeira onda das terceirizações no país. Por isso, às vésperas da Feira, eles trocaram a cena que apresentariam por essa, que, a seu ver, recobrava sua atualidade. Assim, a Ocamorana foi capaz de pegar no nervo da situação atual – pelo menos do ponto de vista dos trabalhadores – em que um ataque de proporções históricas começa a fazer com que a classe se coloque em movimento, como nos atos do dia 29 de maio.


Cia. Ocamorana

A outra apresentação que parece ter conseguido responder com mais amplitude o que pensam do Brasil de hoje foi a do Coletivo de Galochas. Colocaram em cena a verdadeira mutilação em massa que se pratica contra os trabalhadores no Brasil, um dos países que bate recordes de acidentes de trabalho; denunciaram de forma aguda a ideologia da “sustentabilidade” que procura esconder a barbárie capitalista por trás de uma fachada “verde e sorridente”, ironizando como expressão disso o Grupo Pão de Açúcar; enfiaram o dedo na ferida pustulenta da burocracia sindical que é um câncer no movimento operário que ajuda a colocar os trabalhadores de joelhos diante da patronal. Mas, com toda a precária situação que vivem os trabalhadores, o Coletivo de Galochas não se detém no ceticismo de que não é possível fazer nada para mudar. Desde a rebelião espontânea até a luta organizada e insistente, o grupo foi capaz de expressar de maneira viva e pulsante a luta entre o capital e o trabalho em sua cena. O que apresentaram foi um fragmento de sua peça “Revolução das Galochas”, que está em cartaz pelos próximos quatro sábados, às 16h, no Parque da Luz.


Coletivo de Galochas

Outro grupo que procurou combinar as questões conjunturais com uma visão mais estrutural sobre os problemas do Brasil foi o Rosa dos Ventos, grupo de Presidente Prudente. Com muito humor, eles começaram sua discussão com as questões presentes no seu cotidiano: relações com familiares, amigos, colegas de Facebook. Assim, o tema que ganha o primeiro plano são, em suas palavras, as “manifestações das elites”, a adesão cega de um setor da pequena burguesia, da classe média e a reivindicação que começa a surgir em alguns de seus membros da ditadura civil-militar como resposta aos problemas do país. Mas o maior mérito do Rosa dos Ventos é não ter caído na mesma armadilha de outros grupos, que, tendo a visão impressionista dessa conjuntura apenas por sua superfície, adere cegamente ao petismo como se esse fosse uma tábua de salvação “contra a direita”. Rosa dos Ventos falou que um dos problemas de hoje é justamente “essa esquerda ponhada pela direita” no poder. E procurou recorrer a Milton Santos para mostrar, em “O Brasil do Dunha”, que é necessário ver o Brasil que não está na mídia.


Rosa dos Ventos

O RAP das mulheres da Odisséia das Flores, grupo feminista que reúne quatro jovens de diferentes periferias de São Paulo, também foi uma contundente afirmação de que nem tudo está morto, nem tudo está acabado, nem todos desistiram ou estão cooptados. A organização artística, política, segue viva, brotando nas quebradas desse sistema.


Odisseia das Flores

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Estiveram presentes também os professores em greve, que falaram aos presentes sobre sua heróica luta que já dura quase três meses.

Outros grupos, como o Teatro de Narradores, continuam apresentando o Brasil pelas ações dos “de cima”. Em um longo e lamurioso discurso imaginário de Dilma, feito em cadeia nacional antes de seu suicídio em 2018, atribuem a ela uma redenção. A Cia. Antropofágica colocou em vídeos para os participantes da feira alguns depoimentos colhidos na rua que nos dão uma perspectiva muito mais alentadora e próxima do Coletivo de Galochas do que esperar um trágico suicídio de Dilma quando ela vê que “é tarde demais”. O que nos mostraram os vídeos foram trabalhadores revoltados com a situação do Brasil, e que, mesmo com muitas contradições, veem na luta o caminho para a transformação. Essa é a consciência do novo, que começa a nascer.


Núcleo Pavanelli


Mamulengo da Folia




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