SEMANÁRIO

O retorno da luta de classes

Claudia Cinatti

Tradução de Marie Reisner.

O retorno da luta de classes

Claudia Cinatti

Um fantasma percorre o mundo. Não é ainda o do comunismo, mas sim o da luta de classes em letras maiúsculas. A irrupção dos “coletes amarelos” na França, que pela primeira vez em muitos anos despertou o medo da revolta nas classes dominantes em um país imperialista, deu início a uma nova onda de manifestações que não pára de se estender.

Centenas de milhares, talvez milhões, se levantaram na Argélia e no Sudão contra as eternas ditaduras que servem seus amos imperiais, dando uma segunda vida à “primavera árabe”. No Iraque, o país devastado por 15 anos de guerra e ocupação norte-americana, estouraram manifestações massivas contra o desemprego e as paupérrimas condições de vida, que se prolongaram por dias apesar da repressão que deixou mais de 100 mortos. Imagens parecidas são vistas no Líbano, onde uma multidão enraivecida pede o fim do governo de Hariri.

No outro extremo do mundo, milhares protestam há meses em Hong Kong, este paraíso dos negócios capitalistas onde a desigualdade social alcançou níveis intoleráveis para a grande maioria da população.

Na Catalunha se reativou a luta pela independência. Está em andamento uma verdadeira rebelião contra o regime monárquico espanhol que pretende punir os dirigentes do “procés” com mais de dez anos de prisão.

Esta onda de manifestações chegou na América Latina e está mudando o sentido da situação política. Em Porto Rico um levantamento popular derrubou o governo e colocou em questionamento o domínio colonial norte-americano. No Haiti, o país mais pobre da região, há meses existe uma revolta intermitente contra o governo de Jovenel Moïse.

Não se trata de fazer uma enumeração, ou melhor dizendo, a enumeração está à serviço de demonstrar explicitamente que os de cima cada vez podem menos e os de baixo estão cada vez mais saturados. Em todos os casos os governos capitalistas respondem com uma profunda repressão. Enquanto isso, os meios de comunicação corporativos e os intelectuais à serviço dos exploradores demonizam aos que se rebelam, os acusam de violentos e “golpistas”. Esta reação das classes dominantes, dos seus Estados e de seus aparatos ideológicos confirma de um outro ângulo que se trata de manifestações que têm o potencial de abrir uma dinâmica revolucionária, e que a única forma de encerrá-las é primeiro reprimir e depois ver quais concessões fazer.

Estes diversos processos, que combinam motores democráticos e sociais, tem como matriz comum as tendências às crises orgânicas abertas pela crise capitalista de 2008 que colocou um fim à hegemonia neoliberal das últimas décadas e deixou como herança uma profunda polarização social e política que, de modo geral, enfrenta os perdedores da globalização com a pequena minoria de ganhadores. O que hoje está cada vez mais destacado é a obscena concentração de riqueza enquanto a maioria vê suas condições de vida decaírem, particularmente os jovens que só tem um futuro de precarização pela frente. Dessas condições de divisões profundas na classe dominante, de crise dos partidos do “extremo centro”, ou seja, liberais e socialdemocratas que sustentaram o consenso neoliberal, surgiram fenômenos aberrantes como Trumo ou o Brexit, que exacerbam as tendências nacionalistas. E as guerras comerciais, particularmente a dos Estados Unidos contra a China, que estão colocando em xeque a economia mundial. Mas também novos fenômenos políticos à esquerda e, sobretudo, novos processos da luta de classes. Por isso mesmo seria um erro impressionista medir seus alcances pelos resultados a curto prazo, pelo contrário, são processos profundos, não de conjuntura, que estão convocados a ter consequências políticas duradouras.

A dinâmica que estão tomando os acontecimentos na América do Sul merece um parágrafo à parte, onde as burguesias nativas e o imperialismo norte-americano comandado por Trump haviam se apressado em comemorar a chegada das direitas regionais ao poder, após o esgotamento do ciclo de governos “populistas”. Macri na Argentina, Piñera no Chile, Duque na Colômbia, e o ultradireitista Bolsonaro no Brasil pareciam confirmar que o pêndulo havia pesado para um período à direita. Preparavam-se para aplicar novos ataques neoliberais, privatizações e planos de ajuste do FMI. Inclusive tentaram um golpe na Venezuela para que seja a direita rançosa e pró-imperialista de Guaidó a capitalizar o descontentamento com o governo autoritário de Maduro. Mas desde muito cedo começaram a mostrar seus limites para levar adiante este programa reacionário.

Hoje sem dúvidas os processos mais avançados da luta de classes do continente são as “jornadas revolucionárias” do Equador e do Chile que, pela sua magnitude, radicalidade e violência lembram os levantes que colocaram um fim aos governos da direita neoliberal entre o final da década de 1990 e o começo dos anos 2000.

No Equador acabamos de presenciar um levante popular - operário, indígena, camponês e estudantil - contra o mega-pacote do FMI que obrigou Lenín Moreno a retirar o decreto de ajuste. Foi uma vitória importante mas parcial, em grande medida pelo papel das direções do movimento de massas, particularmente a Conaie, que sufocou a demanda de queda do governo. A situação segue perigosa para a burguesia. Moreno sobreviveu, mas ficou um governo extremamente débil e um movimento de massas que já fez a experiência de que o caminho para derrotar os planos de ajuste é a luta.

No Chile, o aumento das tarifas do transporte público fez explodir o ódio acumulado contra o governo de Piñera, uma espécie de Macri chileno, e está colocando em questão a herança da ditadura pinochetista. Após um dia de combates e mobilizações que desafiaram o estado de exceção, Piñera retirou o aumento da tarifa, mas ainda será necessário observar se esta medida mínima tomada por um governo golpeado é suficiente para deter a dinâmica do levante que havia tomado a situação.

Esta entrada em cena do movimento de massas e a “luta de classes” nos países vizinhos sem dúvida vai condicionar o próximo governo que surja das eleições na Argentina, que a esta altura quase seguramente será peronista, na sua tarefa de aplicar os ajustes requeridos pelo FMI. E inclusive vai colocar em questão o plano de guerra neoliberal de Bolsonaro no Brasil.

Os primeiros processos de resistência dados pela crise capitalista, como as greves geral na Grécia ou o processo dos indignados do Estado Espanhol, foram capitalizados por variantes neorreformistas que acabaram contribuindo com a derrota, como o Syriza, que aplicou o plano de ajustes da Troika, e o Podemos, que permitiu o desvio e a recomposição da socialdemocracia neoliberal do PSOE.

Este retorno da luta de classes, com verdadeiras rebeliões populares que desafiam a legalidade burguesa, abre novas perspectivas para a construção de uma esquerda revolucionária, anticapitalista, operária e internacionalista, que não pode se desenvolver sem fenômenos deste tipo.

Nestes marcos, as tarefas preparatórias que viemos realizando a partir do PTS (partido irmão do MRT na Argentina, NdT) ganham uma nova importância, como a presença política na vida nacional conquistada pela FIT-U, a intervenção em diferentes acontecimentos da luta de classes, a construção do La Izquierda Diario e a preparação teórica e estratégica de uma força militante para intervir nos momentos decisivos. Internacionalmente, impulsionamos junto às organizações irmãs do PTS que integram a Fração Trotskista pela Quarta Internacional, a Rede Internacional de Diários em 8 idiomas, que está presente nos principais acontecimentos da luta de classes: na França, o Revolución Permanente se transformou em uma das vozes das lutas dos “coletes amarelos”, assim como o La Izquierda Diario no Chile hoje dá voz aos que resistem ao estado de sítio de Piñera. E em Barcelona e no Estado Espanhol estamos presentes nas mobilizações e na luta contra a ofensiva reacionária do regime monárquico transmitindo a cada momento os acontecimentos tanto no IzquierdaDiario.Es quanto no EsquerraDiari.Cat em catalão.

Frente ao abominável prognóstico de uma nova recessão mundial e no marco das crescentes disputas entre potências imperialistas, nacionalismos e militarismo, as tendências à irrupção popular vão se multiplicar. Devemos nos preparar para um período onde a ação das massas cria situações pré-revolucionárias ou diretamente revolucionárias, assim como golpes da contrarrevolução. Formas mais agudas da luta de classes chegaram para ficar.

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Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti
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