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PETROBRAS

O que seria possível se a Petrobras fosse 100% estatal e administrada pelos trabalhadores?

A imagem de hoje é de trabalhadores contaminados por COVID-19 em alto mar. Terceirizados demitidos, grevistas perseguidos e dezenas de milhares de petroleiros perdendo direitos e salários. E agora a notícia que a empresa vai parar aproximadamente 50 plataformas no país, ameaçando milhares de petroleiros próprios e terceirizados a perderem seus empregos. Tudo está à serviço do lucro e da privatização.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 15 de abril| Edição do dia

[FOTO: Juan Chirioca]

Mas a imagem poderia ser completamente outra, se a maior empresa do país fosse 100% estatal e controlada pelos trabalhadores. O mínimo que poderíamos imaginar nesse outro cenário seriam operações seguras, gás de cozinha baratíssimo, batalhões de engenharia desenvolvendo tecnologias para obras públicas, respiradores, produção de energia barata e ambientalmente sustentável. O ouro negro poderia finalmente servir aos interesses da maioria da população.

A Petrobras hoje serve a um projeto de destruição das riquezas nacionais. Ela é dirigida milimetricamente por gerentes, diretores que estão à serviço de entregar as riquezas do país. A relação do petróleo extraído/petróleo descoberto cai radicalmente, fazendo com que o país acelere a depleção de seu estoque. Mesmo em meio a queda do preço a empresa irracionalmente aumenta seu volume exportado e extraído, sobretudo de petróleos leves como o do pré-sal, para fazer caixa à custa da vida de petroleiros expostos desnecessariamente a pandemia e às custas das riquezas nacionais e seu uso racional, à serviço da maioria da população.

Os cálculos da administração bolsonarista visa os dividendos dos acionistas hoje em detrimento do país amanhã e escancaram o caráter classista, elitista de suas ações quando decidirão no mesmo mês de pandemia e queda do preço do petróleo internacionalmente, que a diretoria teria seus salários aumentados, e por outro lado 21 mil petroleiros teriam uma redução de 25% dos salários.

Trata-se de um projeto que tem absurdos como o fechamento da FAFEN-PR, extinguindo a última fábrica de fertilizantes nitrogenados do maior mercado consumidor deste tipo de produto no mundo. Sua decisão, contestada pela maior greve petroleira desde 1995, resultou em 1 mil demissões e se sustenta no cálculo fantasioso de prejuízo da fábrica, um prejuízo que só existia porque a empresa vendia para si mesma as matérias primas não a seu custo, mas como se estivesse importando-as. O mesmo vale para o gás de cozinha, para o diesel, para a gasolina. O preço que sai da refinaria não é o de custo, é um preço que embute uma venda da plataforma para a refinaria como se fossem empresas diferentes. E todo esse lucro não vai para o povo brasileiro, vai para os acionistas privados e quando chega nas mãos do governo vai parar nos bilionários donos da dívida pública.

Essa mesma lógica de preços abusivos à serviço da entrega das riquezas nacionais se aplica ao gás de cozinha (GLP). Produto tão em falta nos lares de milhões de brasileiros. O preço absurdo cobrado em diversas cidades do país, chegando a assustadores R$115 em Brasília, conforme denunciado por jornal local, deriva de diversas decisões privatistas tomadas primeiro por Temer e agora por Bolsonaro. Decidiram que os preços dos derivados variariam conforme o dólar e a cotação internacional, para que as importadoras pudessem entrar com o produto aqui no lugar do nacional, e a Shell, BP, Chevron, Total se cacifassem a comprar as refinarias e terminais postos à venda.

Depois, se isso fosse pouco, a Petrobras decidiu vender toda sua participação na malha de gasodutos e em todas as empresas de derivados de combustíveis, começando pela BR Distribuidora. Agora entre o poço e a refinaria e o posto tem necessariamente um terceiro, com sua margem de lucro e sua vontade de extorquir o povo.

O preço do combustível usado nos fogões de cada casa também deriva da falta de produção do mesmo. No Brasil, e em vários lugares do mundo, as refinarias e terminais já não tem onde estocar diesel, gasolina, querosene de aviação devido a queda na demanda. Sem ter onde colocar outros subprodutos do refino do petróleo, não há como produzir GLP e as unidades são paralisadas. Mas essa situação de falta de estoque só existe porque a BR Distribuidora foi privatizada, porque a Liquigás não pertence ao mesmo planejamento estratégico, porque permite-se que gigantes imperialistas como a Raizen, a BP, usem livremente de seu espaço de tancagem para especular contra os interesses do povo. Essa situação só existe porque não há mais logística integrada do “poço ao posto”. No meio há vários intermediários, como as privatizadas BR Distribuidora e Liquigás alguns monopólios de caminhão-tanque.

O projeto em curso sucateia toda capacidade de produção de tecnologia da empresa, os parcos recursos para P&D se concentram no pre-sal, mais lucrativo, em detrimento de combustíveis renováveis, do refino, de novas tecnologias. Essa concentração, aumentada no governo Bolsonaro, a bem da verdade iniciou-se no governo Dilma, que já vinha desenvolvendo a empresa como uma empresa de pre-sal, concentrando ali quase 80% dos investimentos. O início de uma política de corte em direitos trabalhistas foi na gestão Graça Foster e antes do impeachment Dilma tentou negociar com Serra umas mudanças nas leis do petróleo para facilitar sua entrega em troca de apoio político, mas era pouco o imperialismo e seus parceiros locais queriam era a terra arrasada. A diferença das administrações petistas que abriam margem para a privatização e para a entrega é que agora nem o pre-sal está à salvo das garras da entrega ao imperialismo.

E, em tempos de pandemia a empresa aproveita-se da desorganização dos trabalhadores para perseguir grevistas em várias unidades, especialmente nas plataformas, a mudar regimes de trabalho, e a se preparar junto do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) para deixar de fazer manutenção de vasos de pressão e outros equipamentos perigosos e até mesmo a deixar de fornecer ao Estado brasileiro, estudos sísmicos sobre a integridade de seus poços. Preparam tragédias humanas e ambientais para aumentar os lucros. Lucros que param em Wall Street e não nas mãos do povo brasileiro, que tanto necessita de respiradores, leitos, hospitais, contratações na saúde, etc.

Esse é o cenário da empresa nas mãos dos capitalistas, políticos de extrema-direita e militares no Conselho de Administração. A empresa aproveita da divisão dos trabalhadores, separados em centenas de unidades, com quase todo o administrativo em home office, e ainda a divisão em dezenas de sindicatos e duas federações para passar todos seus ataques. É preciso unir-se em cada local, coordenar ações, denúncias, reivindicações entre as unidades, sejam elas FUP ou FNP, unindo desde a base cada unidade em um comando nacional de representantes, que tanto nos faltou na greve desse ano, facilitando o caminho para o desmonte da greve pela FUP/CUT, e assim, unindo forças garantir medidas elementares de segurança, desde EPIs, manutenção de equipamentos críticos, exigência de testes massivos. A partir dessas respostas imediatas pode-se começar a recuperar o espírito contestador e assim começar a fazer frente aos ataques em curso e desenvolver uma outra perspectiva. O que está sendo produzido é necessário, ou visa o lucro de acionista e um roubo das riquezas nacionais.

O que seria possível se todo o sistema de extração, refino, transporte e comercialização de petróleo e derivados fosse estatal, expropriando as empresas privadas sem indenização retirando os lucros extorquidos do povo em diesel, gasolina, GLP caros, e todo o estoque fosse controlado pelos trabalhadores? Se todo o estoque de tanques e caminhões tanques fosse gerido racionalmente? Seguramente seria possível produzir mais GLP, estocando o excedente de gasolina e diesel nas distribuidoras e seus caminhões-tanque, o ritmo de produção nas plataformas poderia ser estudado para garantir integridade dos operadores, do meio-ambiente e uma gestão de longo prazo dessa riqueza nacional.

O preço dos derivados, com a empresa nas mãos dos trabalhadores poderia ser o de custo e não esse fictício para abrir caminho a privatização. Sob controle dos trabalhadores batalhões de milhares de engenheiros e químicos que trabalham na empresa, um quantitativo que dificilmente alguma USP, UNICAMP ou UFRJ tenham no país, estivessem trabalhando para produzir tecnologias para atacar as necessidades da pandemia, não somente 15 engenheiros como a empresa liberou para produzir respiradores, mas milhares, que seus químicos e engenheiros estudassem que conversão seria possível fazer das plantas para produzir alguns dos reagentes químicos em falta para realização de testes massivos, entre várias outras coisas que seria possível. Nas mãos dos trabalhadores seria possível a mais completa transparência em licitações e contratos e assim a empresa poderia não somente deixar de ser presa do imperialismo mas também da corrupção e que os vastos recursos do petróleo estivessem a serviço de todo o povo.

No meio da pandemia nos colocam para sonhar pesadelos despóticos, perda de emprego, de salário, trabalhar sem sequer máscaras e testes, mas é possível fazer frente ao pesadelo no dia a dia e plantar uma ideia e organização para que algo como o que escrevemos aqui seja realidade. Os trabalhadores podem, e isso seria o melhor para a maioria do povo brasileiro.




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