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EDITORIAL MRT

O que os novos saltos na crise argentina anunciam como perspectiva?

Editorial semanal do Esquerda Diário.

segunda-feira 2 de setembro| Edição do dia

A crise econômica na Argentina vai ganhando contornos cada vez mais graves. O descontrole veio a partir de um detonante político, que foi a enorme derrota de Macri nas eleições primárias recentes, por uma margem de diferença que não era esperada, transformando os 4 meses de transição do governo numa agonia, onde não sabe como será o dia seguinte. Explodiu imediatamente uma crise no câmbio, com uma enorme desvalorização de 30% do peso argentino e está se transformando numa crise bancária.

O fator estrutural detonado foi a crise da dívida, que levou Macri a uma negociação com o FMI que, dirigido por Trump e sua política onde a coerência é somente a de ajudar os governos amigos, cedeu o maior empréstimo da sua história, cerca de 80% do fundo que reserva para este tipo de resgate. Mas como é típico destes “resgates”, ao contrário de servir para qualquer recuperação da economia, os únicos “resgatados” foram os especuladores e a crise seguiu se aprofundando e a dívida aumentou ainda mais.

Depois do governo Macri fracassar com sua proposta de plano (Plano Lacunza, do Ministro da Fazenda) ao parlamento para tentar comprometer o peronismo com medidas acordadas, que foi rechaçado por Alberto Fernandez e Cristina Kirchner, este foi obrigado a começar a aplicar medidas de controle parciais para evitar uma maior fuga de capitais e uma crise bancária de maiores proporções. Ainda trata-se de uma medida que afeta essencialmente aos grandes bancos e empresários e não pessoas físicas, o que Macri quer evitar ao máximo porque seria um salto enorme na desagregação da sua base eleitoral.

O peronismo não aceitou ir ao parlamento e deixa o controle da crise nas mãos de Macri pois já estão suficientemente preocupados com os 4 anos em que terão que lidar com uma crise econômica importante e, por agora, não querem assumir o ônus da crise e indicam que vão deixar Macri lidar com ela à sua maneira, preferindo assumir o governo com a “terra arrasada” para ganhar tempo.

A crise está se desenvolvendo aceleradamente e pode obrigar o governo a fazer maiores controles de capitais, tentando evitar uma moratória não acordada com o FMI, questão que veremos nos próximos dias como se desenvolve. A crise pode ganhar contornos catastróficos descontrolados, o que embaralharia os cenários políticos e poderia colocar em cena o movimento de massas.

O “fantasma de 2001” ronda a Argentina na agonia macrista

O cenário que se vive neste momento é bastante diferente de dezembro de 2001, em primeiro lugar porque ali as massas protagonizaram levantamentos populares. Foram 5 presidentes que caíram em 11 dias em dezembro de 2001, mais de 30 mortos em manifestações, mobilizações massivas de desempregados, da classe média nos bairros com as Assembleias Populares e um processo de vanguarda no movimento operário de fábricas ocupadas, das quais Zanon e Brukman (dirigidas pelo PTS) foram as mais avançadas.

Agora, o ritmo da crise não é acompanhado pelas ações do movimento de massas. Estas se manifestaram pela via das urnas e seguem controladas pelas direções majoritárias que são peronistas e querem garantir uma “transição tranquila”. Mas é inevitável ressurgir as comparações.

A burguesia argentina aprendeu com 2001 e criou um amplo sistema de contenção social com planos sociais administrados por movimentos de trabalhadores informais e desempregados, onde cumpre um papel de enorme controle as correntes ligadas ao Papa Francisco e toda sua linha pacifista, evitando o cenário de levantes de desempregados por hora. Ao mesmo tempo que evitam ao máximo repetir algo como foi o “corralito” (que impedia sacar o dinheiro dos bancos) que levou a classe média em peso para as ruas com os panelaços. Por hora também não se generalizaram os fechamentos de fábricas, mas já há alguns processos de luta espontâneos em pequenas fábricas como RanBat e Mielcitas que não se pode descartar que generalizem caso aumente o desemprego, que por agora ainda é menos da metade que em 2001. Há uma mobilização importante no estado de Chubut, no sul da Argentina, que é expressão de que a crise fiscal também pode gerar processos de luta de classes.

Ainda há outro “fantasma de dezembro” que preocupa a classe dominante argentina, o de 2017, quando houve grandes enfrentamentos na rua e paralisações nas jornadas de 14 a 18 de dezembro. Se por agora, numa divisão de tarefas entre macrismo, peronismo e a Igreja Católica conseguiram evitar que o movimento de massas entre em cena de maneira mais contundente, o ritmo da crise gera calafrios nos de cima.

Expectativas e realidades para o futuro governo

O voto “anti-Macri” e “anti-ajustes” que o peronismo canalizou foi uma expressão da correlação de forças entre as classes pela via eleitoral. Para além do controle imediato da crise, o que mais preocupa estrategicamente a todos é que por mais que se possa ganhar um tempo de administração da crise da dívida, são problemas que vão estourar novamente no médio-longo prazo. As consequências de 2001 não poderiam ter sido controladas sem o crescimento extraordinário da economia na América do Sul com o boom das commodities, nada mais distante das perspectivas atuais. O peronismo, que vai governar não somente o país, mas praticamente todos os estados, vai ter pela frente a tarefa nada fácil de conduzir o país em meio a uma forte crise econômica e a expectativa de que resolvam a favor das massas.

Se os elementos que colocamos acima evitaram por hora um cenário de levantamentos populares como em dezembro de 2001, não deve-se perder de vista que do ponto de vista político as massas naquele momento carregavam muitos elementos progressistas mas um forte sentimento anti-política. Agora, ao contrário, o que se nota é uma profunda politização que pode abrir espaço para o fortalecimento de alternativas políticas, que é a batalha que damos a partir da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U), que é um polo de esquerda de independência de classe com muito mais peso relativo do que em 2001 e em todos os momentos onde o peronismo teve que lidar com tempos de crise econômica.

A FIT-U é a única força política que apresenta uma resposta realista para a profundidade da crise

A FIT-U foi a única que durante toda a campanha eleitoral denunciou que a dívida não era somente ilegítima e ilegal, mas também impagável e agora a única que fala a verdade para o povo trabalhador: que frente a uma crise tão profunda, o caminho é tomar medidas de fundo e não acreditar na demagogia dos políticos e suas medidas parciais. Buscamos canalizar a insatisfação popular contra os bancos e o FMI na luta pela nacionalização do sistema bancário sob controle dos trabalhadores e o monopólio do comércio exterior, única forma de impedir a fuga de capitais e que os depósitos que estão no país sirvam para as necessidades do povo e não para os especuladores. E para reorganizar o conjunto do país, lutamos por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana.

A FIT-U também é a única política que propõe conduzir a luta para o terreno onde se pode responder a crise: a mobilização operária e popular que coloque um fim na submissão ao FMI para que a crise seja paga pelos capitalistas. Seguimos exigindo que as direções peronistas que são majoritárias do movimento de massas convoquem uma paralisação nem que seja pelas demandas que eles mesmo dizem defender. Como PTS, organização irmã do MRT na Argentina, nós defendemos uma paralisação nacional de 36 horas que seja o começo de um verdadeiro plano de luta que a classe trabalhadora empregada e desempregada delibere sobre o programa que quer levantar, onde nós defenderemos nossa perspectiva de conduzir à luta por um governo dos trabalhadores.

Com Nicolás del Caño (PTS) como candidato a presidente, e a maioria dos 40 parlamentares (nos níveis federal, estadual e municipal), encabeçamos a FIT-U junto ao Partido Obrero (PO), a Izquierda Socialista (IS) e o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST), que é fundamental fortalecer para enfrentar o que está por vir.
Como viemos destacando, os rumos da crise na Argentina seguirão impactando fortemente no Brasil. É necessário que a esquerda que se reivindica socialista apoie a FIT-U como alternativa frente à esta crise, ao invés de alimentar ilusões no peronismo, que o PT propositalmente alimenta, mas que lamentavelmente vem sendo seguido por setores do PSOL, além da Unidade Popular e o PCB.




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