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O que o 29M revela sobre a estratégia do PT

Ítalo Dias

O que o 29M revela sobre a estratégia do PT

Ítalo Dias

No último dia 29, milhares foram às ruas repudiar Bolsonaro, que se apoia no peso dos militares, com vice Mourão, e em um regime golpista para aprofundar ataques à educação, aos trabalhadores e seguir sua política catastrófica para a pandemia. Há dois caminhos de como seguir essas manifestações, de serem atos eleitorais que favorecem o voto em Lula em 2022 ou de se radicalizarem unindo a juventude e os trabalhadores contra Bolsonaro e o regime do golpe.

O silêncio de Lula sobre as manifestações do dia 29 de Maio foi alvo de debate nas redes sociais. O questionamento genuíno daqueles preocupados que essa luta se massifique tem sua razão. O descontentamento de milhares de jovens e setores populares em todo o país com os cortes na educação, os efeitos da pandemia e da crise, não podem ser respondidos com manifestações isoladas, que se limitem a desgastar o governo e preparar as eleições de Lula em outubro do ano que vem.

Lula mantém o silêncio sobre os atos para não comprometer as suas negociações com a direita do golpe de 2016. Esse é o seu caminho para 2022 e pelo qual o PT quer seguir conduzindo as manifestações.

Há outro caminho possível para as manifestações unificando a força dos estudantes nesse dia 19J com os trabalhadores pelo Fora Bolsonaro, Mourão e os militares.

“As mobilizações vitoriosas de 29 de maio não descartam a necessidade da unidade de todos os democratas na luta contra Bolsonaro. Nossa vitória em 22 só será possível se combinarmos as mobilizações com a união, em torno de uma candidatura de esquerda, de amplas forças políticas e sociais capazes de derrotar os planos golpistas de Bolsonaro e realizar um governo de mudanças estruturais.” [1].

Essa é a conclusão do último artigo publicado por José Dirceu, dirigente histórico do PT, acerca das últimas manifestações do último dia 29 de Maio.

No final da década de 1980, José Dirceu foi um dos dirigentes da campanha para centralizar as tendências internas do PT e expulsar as tidas como mais radicais, particularmente as trotskistas Convergência Socialista, hoje PSTU e a Causa Operária, hoje PCO. Em 1995, 1997 e 2001, Dirceu era presidente do PT, e liderava o processo de modernização conservadora do PT, ou seja, de ampliação das alianças com os partidos da ordem, preparando o PT para se tornar ele mesmo o grande partido da ordem.

Ampliando as alianças a direita e moderando o seu discurso, o PT foi se mostrando um partido confiável, aos olhos das classes dominantes, para governar o país. Em 2002, frente a enorme crise do neoliberalismo e dos tucanos, o PT pode cumprir o papel de defensor da ordem para o qual Dirceu e o campo majoritário de Lula vinham se preparando há mais de uma década. Frente a um ascenso da luta de classes na América Latina, as classes dominantes se unificaram na candidatura de Lula com o objetivo de conter preventivamente o desgaste com o avanço neoliberal no país e na região.

Esse breve recorte da trajetória do PT de Dirceu mostra o caminho que levou Lula ao poder em 2002 foi de conciliação com os piores agentes da burguesia e da direita. Ao repetir a mesma receita para 2022, o PT se depara dessa vez com uma crise econômica e social, agravadas pela pandemia, e sob um regime político que já não é mais o mesmo daquele estabelecido pela Constituição de 1988. O caminho do PT ao poder em 2022 significa querer se conciliar com os militares, juízes do STF, os políticos do Centrão, junto com o agronegócio e o capital financeiro, que ganharam ainda mais poder a partir do golpe de 2016 de determinar a política do país. É governando com estes atores que Lula promete salvar o país do genocida Bolsonaro.

O regime do golpe se fortalece com a reabilitação eleitoral de Lula

A partir do aumento da rejeição ao governo Bolsonaro, concomitante a crescentes revoltas sociais na América Latina e em outros países mesmo durante a pandemia, o mesmo STF que avalizou as arbitrariedades da Lava-Jato que levaram à prisão e proscrição eleitoral de Lula em 2018, decidiram devolver os seus direitos políticos. Não por que foi “uma vitória das ruas”, como inventou Valério Arcary, do PSOL, mas como rearranjo das forças políticas do golpismo de recuperar o papel de contenção do PT com Lula jogando as resoluções dos problemas do país nas eleições de 2022, longe das avenidas.

A volta de Lula é parte dessa operação de salvar as instituições do regime do golpe de responsabilidade por Bolsonaro, a crise, a pandemia e cada mazela social. Nos seus primeiros discursos, Lula deixou claras suas intenções de voltar a governar subordinado a essas instituições golpistas, fazendo uma série de acenos de docilidade até mesmo aos militares, que cada vez mais expressam sua tutela política sobre o regime. Sua promessa de manter intacta a obra economia do golpe, como a reforma trabalhista, da previdência, a lei do teto de gastos, etc., é reiterada sempre que pode, apesar da repercussão negativa com seu anúncio de intenções de privatizar a Caixa.

Ou seja, a reabilitação eleitoral de Lula, uma medida mínima depois de tamanhos absurdos cometidos para aprovar toda essa agenda que degrada a vida da população, se prova funcional a garantir a normalização eleitoral dessa agenda e todo avanço autoritário, bonapartista, com a tutela crescente dos militares, juízes do STF e do capital financeiro imperialista da política nacional. Esse é o objetivo de Lula e do PT, e para esse fim trágico que busca conduzir qualquer expressão de luta nas ruas.

O duplo discurso do PT para desviar eleitoralmente os atos

Enquanto ronda o país com Lula, por entre reuniões com gente do PSB, PSD, DEM, o ex-guerrilheiro Dirceu, que se transformou em agente dos negócios da burguesia, acena positivamente para as manifestações do dia 29M. Ve que quem melhor capitaliza eleitoralmente os atos é Lula.

O 29M significou uma inflexão muito importante na conjuntura política, marcada por uma disputa entre Bolsonaro com a Globo, o STF e setores do Centrão, unificados na CPI da COVID para desgastar e controlar o governo.

Uma CPI, como dissemos, que revela a terrível condução de Bolsonaro da pandemia, que ninguém mais duvidava, buscava isentar de responsabilidade esse mesmo Centrão, o STF e os militares pelas mortes da pandemia, tanto por serem parte de sustentar o governo Bolsonaro, quanto por serem fiadores de cortes na saúde, demissões, reformas que criaram terríveis condições sociais para se lidar com uma pandemia.

A falsa campanha “fica em casa” promovida pela Globo, STF e governadores, com apoio ativo das burocracias sindicais da CUT e CTB, ao contrário de serem responsáveis por um controle racional do vírus, ignorava a maioria da população se contaminando nos ônibus lotados, nos serviços não essenciais ou se virando para sobreviver na informalidade.

Antes mesmo do dia 29 de Maio diversas lutas de resistência parcial de trabalhadores como da LG contra as demissões, ou a forte solidariedade à greve dos metroviários de São Paulo, que seguem em luta, mostraram que os trabalhadores, apesar de uma série de derrotas, ainda tem disposição de mudar a correlação de forças.

Depois de meses de paralisia dos sindicatos e entidades estudantis ligadas ao PT e PCdoB, alimentando ilusões na CPI e em pedidos de impeachment que dariam lugar a Mourão, a CUT, a CTB e a UNE, passaram a convocar manifestações pelo Fora Bolsonaro com objetivo de controlar e canalizar o descontentamento com a candidatura de Lula. Não à toa a próxima manifestação, do dia 19J, foi marcada para um sábado, causando menor impacto, ao invés de organizarem desde a CUT e a CTB um forte dia de paralisação nacional que radicalize as ações de rua e unifique trabalhadores e estudantes.

Em uma espécie de divisão de tarefas, enquanto Dirceu, Gleisi Hoffman e outras figuras do PT davam apoio aos atos, outras como Quáquá, vice-presidente do PT, condenaram as manifestações daquele sábado, comparando com os atos bolsonaristas quando diz que estavam “pisando nas covas” dos mortos da pandemia.

Essa divisão, aparentemente contraditória, servem a um mesmo objetivo de manter as manifestações nos limites dos interesses eleitorais do PT: por um lado se solidarizam com o sentimento Fora Bolsonaro, na medida em que Lula é o candidato que melhor canaliza a oposição ao governo; por outro, sinalizam aos agentes golpistas de que tem os mesmos interesses em limitar as manifestações a atos “sem aglomeração”, sem radicalidade, apenas para desgastar Bolsonaro até 2022.

Com a cada vez mais remota possibilidade de surgir um candidato da “centro-direita”, apesar dos esforços de Ciro Gomes, para setores burgueses, Lula tende a aparecer como a candidatura que melhor representa seus interesses: normalizar as reformas, cortes e privatizações aprovadas por Temer e Bolsonaro, com um governo legitimado pelas urnas, que não questione uma vírgula desses ataques, ou mesmo do avanço bonapartista do judiciário e dos militares.

Não é à toa que nem a militância dos inúmeros coletivos de juventude do PT deram peso às manifestações. Quem dirá as centenas de centros acadêmicos e DCEs pelo país, através da UNE, não só se negaram a convocar assembleias virtuais nos cursos para organizar os estudantes, em alguns lugares transformou assembleias em lives com reitores, inimigos dos estudantes, como fez a UJS.

Sobretudo a partir das centrais sindicais da CUT e da CTB, o PT garantiu a divisão dos trabalhadores da forte expressão de luta na juventude, pois sabe o potencial explosivo dessa unidade pode levar a situações explosivas como no Chile, Colômbia, ou França, onde não só os governos, mas todo o regime e seus ataques foram questionados. Para os objetivos do PT de voltar a governar esse regime do golpe, junto com os golpistas, a radicalização das manifestações podem comprometer seus negócios com os golpistas, que o que mais temem é essa radicalização e unidade.

Ao invés de manifestações de sábado, é necessário exigir da CUT e CTB que convoquem uma paralisação nacional organizada desde as assembleias de base das categorias, que pare a produção capitalista e seus lucros pelo Fora Bolsonaro e Mourão, unindo a juventude com os trabalhadores. Esse é de fato o único caminho para alterar a correlação de forças reacionária e pôr um freio às privatizações, cortes e reformas em curso.

Outro caminho é possível: o da unidade entre os trabalhadores e juventude pelo Fora Bolsonaro, Mourão e os golpistas

Os que concordam que é possível ir por mais do que atos eleitorais e radicalizar a luta em forte paralisação nacional não devem confiar nessa política de perdão aos que são responsáveis por Bolsonaro ter sido eleito. Apesar de fazerem discursos demagógicos de oposição “democrática” ao seu negacionismo, o Centrão que conduz a CPI da COVID, o STF, a Folha, estiveram juntos com cada ataque contra os trabalhadores e resgate aos capitalistas, e foram parte de conduzir toda manipulação judicial e política, com apoio militar, das eleições de 2018, além do fortalecimento de medidas repressivas como a nova Lei de Segurança Nacional. Hoje, inclusive, o STF está prestes a avançar com uma lei que permite a demissão em massa em meio a pandemia.

Por isso é necessário um debate com o conteúdo do ato do dia 29 e do novo chamado de manifestação para o dia 19 de Junho. As organizações que disputam a frente do chamado dos atos, por um lado, setores ligado à Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, composta por militantes do PT, Levante, MST, e setores majoritários do PSOL, por outro uma nova frente chamada Povo na Rua - Fora Bolsonaro, composta pela UP, PCB, Juntos e setores minoritários do PSOL como CST e SoB, defendem a mesma política para essas manifestações.

Fora Bolsonaro! Pão, Saúde, Vacina, Educação, e a defesa do impeachment como saída.

Essa consigna significa hoje poupar todos os atores políticos do golpe, em especial o general Mourão, que assumiria o governo caso o impeachment acontecesse. O mesmo Mourão que frente ao massacre dos povos yanomamis em Roraima e no Pará defendeu o garimpo ilegal e anti-ecológico como meio de subsistencia indígena. Coloca que a força das manifestações sirva para atuar ao lado da CPI da COVID e desgastar Bolsonaro até um dia o Congresso decidir tirá-lo pelo impeachment… veem que não faz sentido essa lógica?

O Centrão está comprado pelo Bolsonaro, vide o tratoraço e a articulação com os militares, a única forma de decidirem pelo impeachment seria em uma situação em que a radicalização nas ruas fugisse do controle e decidissem unificar forças no regime para tirar Bolsonaro antes das ruas. Seria o famoso “mudar tudo para não mudar nada”, que o próprio Dirceu, no seu artigo, atribui às Diretas Já e ao impeachment de Collor como “transições pelo alto”. Por que o impeachment de Bolsonaro seria diferente? Não seria. Assim como com Collor foram mantidas e aprofundadas as medidas neoliberais no governo seguinte, de Itamar Franco, o governo Mourão manteria a mesma agenda de ataques e privatizações de Bolsonaro-Guedes. O próprio Guilherme Boulos, que defende o impeachment, vergonhosamente admite isso, mas que supostamente Mourão seria um governo fraco. Nada mais longe da verdade, frente ao acordão para tirar Bolsonaro que seria necessário para acalmar as ruas.

Por mais que os setores, da UP, PCB e Juntos, façam verborragia de que não se pode confiar nas instituições e esperar 2022, o impeachment significa confiar no mesmo Centrão para tirar Bolsonaro e na prática fortalece a estratégia de desgaste do PT rumo a 2022. Ambos os setores que convocam esses atos defendem uma política que coloca os atos a serviço dessa estratégia eleitoralista. Não à toa, as organizações do Povo Na Rua são as mesmas organizações que defendem a pré-candidatura de Glauber Braga do PSOL como alternativa para 2022, mas que antecipam que contra Bolsonaro, votam em qualquer candidato no segundo turno.

Em nenhum momento essas organizações, que compõem a oposição de esquerda da UNE, por exemplo, fazem qualquer exigência aos sindicatos da CUT, CTB, que dividem os dias de luta dos trabalhadores e da juventude, como no último dia 26, organizarem uma luta comum com os estudantes. No movimento estudantil, enquanto a UJS e as organizações da Frente Povo sem Medo e Frente Brasil Popular não chamam assembleias de base dos estudantes ou convocam lives com a reitoria que eles chamam de assembleia, lamentavelmente essa prática burocrática é reproduzida pelos CAs e DCEs dirigidos pela UP, PSOL e PCB. A última “Assembleia Povo na Rua! Fora Bolsonaro”, é a expressão mais evidente disso.

Nós do Esquerda Diário, junto a juventude Faísca, viemos batalhando para que as entidades estudantis organizem assembleias com direito a voz e voto nos cursos unificarem forças para essa luta. Propomos que seja convocado um Comando Nacional de Delegados eleitos e revogáveis nessas assembleias que supere o controle burocrático do PT e da majoritária da UNE, mas também das organizações da Oposição de Esquerda, e possam unificar as universidades federais, estaduais em uma só luta contra os cortes e os ataques aos trabalhadores.

A massificação e radicalização da luta dos estudantes pode cumprir novamente o papel de caixa de ressonância das contradições da sociedade, como a fome, o desemprego, a luta dos povos yanomamis, e batalhar para se unificar com os trabalhadores em uma forte paralisação nacional, que precisa urgentemente passar a ser organizada na base dos sindicatos da CUT e CTB.

Com essa força, não dá para parar nos limites do Fora Bolsonaro e tomar o grito de guerra do Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, para se enfrentar contra todo o regime do golpe institucional, botando em cheque cada reforma, corte e privatização que já foi aprovada.

Ao contrário do impeachment, a força que podemos criar nas ruas superando o controle burocrático do PT e de suas entidades, pode impor uma saída que questione todos as regras e políticos desse regime golpista. Defendemos impor pela luta uma nova Constituinte Livre e Soberana, que seja capaz de revogar a reforma trabalhista, da previdência, a lei do teto de gastos, as privatizações e cortes nas universidades. Que acabe com a presidência, dissolva o Congresso e o STF atuais em uma Câmara Única de representantes eleitos em sufrágio universal, se enfrentando com as ameaças de tutela militar, como aconteceu com a Constituição de 1988. Ao defrontar na constituinte os interesses antagônicos dos trabalhadores e dos capitalistas, a burguesia não vai ficar passiva e será necessário organizar a defesa e avançar no caminho de um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

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Ítalo Dias

Sociólogo
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